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7 de abril de 2015

ESTREIA NO BLOG: SÉRIE "DESAPAIXONANTE"- Episódio Piloto


Olá, pessoal!! Este é o primeiro episódio da série DESAPAIXONANTE, mais uma das minhas tentativas malucas de enveredar pela comédia na literatura. O intuito não é necessariamente fazer rir, mas revelar algumas situações inusitadas, irônicas e brincar com algumas coisas da vida. Fiquem à vontade para comentar aqui (ou, para quem tem meu contato no Face ou WhatsApp, pode usar um desses meios), pois dependendo do que vocês acharem, a série ganhará prosseguimento. Me desculpem pelo texto enorme neste primeiro episódio, mas me empolguei, rsrsrs. Valeu, abraço!!!


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(Narrado por Sávio)

Não sei quanto a você, leitor, mas eu me enjoo rapidamente de guloseimas doces. Só de ver um prato lotado de brigadeiros, casadinhos e bolos o estômago já fica todo embrulhado. Até encaro um pratinho com alguns desses quitutes, mas há um limite. Devo admitir aquela máxima “ossos do ofício” pra justificar meu atual mal-estar, pois estou apenas fazendo meu trabalho. Apanho o smartphone no bolso, tem várias notificações no WhatsApp, mais da maioria delas vem do número de Milena (que eu esqueci outra vez de salvar na lista de contatos). Entre uma espiada e outra no alvo da minha investigação, tento digitar respostas para minha amiga/sócia.

“De tocaia, não posso falar com vc agora, bj”

Milena e eu tocamos um negócio um tanto... inusitado. Somos donos da ANNA, sigla para Agência do Negócio Nada Apaixonante, que envolve, basicamente, ajudar pessoas no processo do “desapaixonamento”. Soa estranho? Definitivamente. Mas os negócios vão bem, pois você não faz ideia da quantidade de gente interessada em nossos serviços, o tanto de pessoas que não querem pagar pra ver uma ilusão se despedaçando e marcando (talvez para sempre) seus corações. Na verdade, elas pagam sim, mas para evitar que isso aconteça. De nós dois, Milena é a que tem a formação mais aproximada para atuar nessa área (ela é psicóloga) e eu ainda quicando pelas salas de aula da faculdade de Ciências da Computação, trancando e destrancando o curso (eu sou um geek com pouco tempo e muita preguiça para estudar). A psicóloga e o nerd, uma combinação muito clichê, na minha opinião, mas bem explosiva quando se trata de arrancar alguém da doce fantasia de uma paixão. E isso se deve mais ao fato de Milena e eu sermos extremamente profissionais, isto é, evitamos deixar qualquer fator externo influenciar nosso trabalho.
A gente costuma se autodenominar “detetives”, embora não exista nada que nos respalde nisto, do ponto de vista formal. Tudo que sabemos, ou seja, nossas técnicas, foi a vida que nos ensinou. Sim, é bem melodramático, eu sei, mas é a verdade e a verdade não liga para nada a não ser ela mesma. E quando obtemos informações valiosas (ou os podres da pessoa, se você preferir), aí é que a dureza da verdade entra em ação e o que antes era fantasia pode vir a se tornar um bem-sucedido desencanto. Missão cumprida.

Em nosso trabalho, temos algumas regras muito bem definidas, nós chamamos de Os cinco mandamentos:

1- Não pegamos qualquer caso: se analisarmos e chegarmos à conclusão de que o caso em questão não oferece qualquer perigo para o nosso cliente, recusamos solenemente e explicamos que não somos tão cruéis a ponto de impedir que as pessoas sigam o ciclo natural da vida no qual a paixão está inserida;

2- Não prestamos serviços a amigos ou familiares, bem como não investigamos tais indivíduos;

3- Não fazemos investigações aos domingos, nem mesmo em casos de extrema urgência;

4- Milena e eu só saímos juntos numa missão dependendo da complexidade da mesma, isto é, se o cliente estiver prestes a adentrar a zona mortal: tão perdidamente apaixonado que precisamos esgotar todos os recursos possíveis para ajudá-lo;

5- Não podemos, em hipótese alguma, manter qualquer envolvimento emocional com um cliente e tampouco com seu objeto de paixão.

Neste momento, estou numa dessas docerias com paredes pintadas de rosa e cheiro de açúcar pousando delicioso em cada narina de cada ser vivo aqui presente. Eu, no entanto, estou gripado, o que me garante sobriedade suficiente para realizar minha missão. Finjo interesse numa torta de morango com algumas fatias da fruta no topo, ganhando minha atenção pela estética e quase me abrindo o apetite. O olho é a antessala da morte da fome. Só estou rondando o ambiente porque a garota por quem meu cliente do dia está ficando muito a fim trabalha aqui. Segundo o que ele me contou, ela é a responsável por ele ter vindo à doceria pela segunda vez, e depois a terceira, a quarta, a quinta... Sr. Alves, como eu o chamo, me relatou que entrara na doceria apenas para pedir uma informação banal, e então foi fisgado pelo sorriso da funcionária do mês, e quando se deu conta já estava encomendando dois bolos de cenoura com cobertura de chocolate (“E eu sou alérgico a chocolate”, confessou ele na ocasião em que nos contratou, sustentando um olhar vago acompanhado da risada típica dos bobos apaixonados). A razão para querer se desapaixonar por Valquíria é muito idiota, mas faz todo o sentido no universo do Sr. Alves: ele é um desses torcedores fanáticos de futebol que não admitiria um relacionamento romântico com alguém que torce pelo mais rival dos outros times. Resumindo: ele é vascaíno doente e Valquíria é uma inveterada flamenguista. Seria fácil se desapaixonar, apenas partindo desse ponto de vista, mas as questões do coração nunca permitem saídas fáceis. Então, aqui estou eu, sondando a rotina da moça e colhendo material para montar uma solução para o Sr. Alves.

“Seu martírio está prestes a acabar, Sr. Alves”, eu o comuniquei assim que nos encontramos uma semana depois.

“Então já descobriu como eu posso me desapaixonar pela Valquíria?”, indagou ele um tanto desanimado. Vamos dar um desconto ao cara, é duro dar uma chance ao “desapaixonamento”.

Mostrei a ele as fotos da última partida do jogo do Flamengo, em que ela usava uma camisa oficial do time num bar com amigos, bebendo e torcendo. Fiquei estudando a reação do Sr. Alves ao examinar as imagens. Ele apenas movia a cabeça lentamente, enquanto verificava cada fotografia pelo menos três vezes. Enfiou as fotos de volta no envelope que eu lhe entregara, devolveu-me, retirou da carteira um cheque e me passou, dizendo:

“Não acredito que ela frequenta o Bar do Pezão, o lugar onde só a escória dos torcedores se reúne. Esse mau gosto é demais pra mim. Obrigado por abrir meus olhos, Sávio.”


Pois é. A gente faz o que pode para ajudar, mesmo que os resultados sejam analisados por diferentes e inesperadas perspectivas. Mas a sensação do dever cumprido é inigualável e eu mal posso esperar pelo próximo caso.

6 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom gostei muito. ..principalmente o final .rsrsrs
Você é muito bom Marvin

Julielton Souza Lima disse...

Adorei, simplismente adoreI, pois mescla ser um conto direto e ao mesmo tempo detalhista.

Ass J. S. L.

MESTRES DO XADREZ disse...

Muito bom, será que um dia eu vou precisar desses serviços?

cassia diaslima disse...

Bom, parece que eu era a única pessoa que ainda não havia lido sobre a série Desapaixonante. Peço perdão. Agora entendo tantas falácias. Uma leitura leve, direta, informal detalhista sem ser chata e muito próxima da realidade. Parabéns pelo ótimo texto e por uma narrativa tão envolvente sobre um assunto que, quando bem abordado, resulta numa obra extremamente contagiante e bem falada. Estava lendo/analisando quando pensei se "ANNA não podia me fazer uma consultoria", hehehe
Brincadeiras à parte, meus parebéns pelo trabalho e muito sucesso na série.
Agora já salvei o link como "favoritos" no meu celular.
Abraço!

Ociane Silva disse...

Amei! Já ansiosa pelo próximo caso! Parabéns pelo trabalho!

Quell disse...

Adorei conhecer a ANNA e todo esse lance de desapaixonar.