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18 de janeiro de 2012

ADELE, FÃS EGOÍSTAS E O PROBLEMA DAS "MODINHAS"



O ano passado foi farto de bons frutos para a carreira da britânica Adele, na minha opinião a maior (e melhor) revelação mundial da música pop de 2011, apesar da talentosa cantora estar ralando há mais tempo que isso. Someone like you, seu terceiro single do álbum chamado 21, está na boca do povo (em todo tipo de "inglês" que você puder imaginar), graças à influência de sua presença numa novela global. Então, é nesse ponto que este texto começa a desencadear seu objetivo.
Para muitos fãs de Adele no Brasil, agora que seu hit está entre as mais pedidas das rádios em todo o país, a cantora ficou banalizada. Deixou de ser objeto de seus mimos, exclusividade de seu arrojado gosto musical e passou a ser uma voz popular, virou "modinha", todo mundo gosta, curte e tem em MP3 no celular. Para muitos, desespero, "não ouço mais Adele porque vão pensar que sou poser (termo para quem facilmente se agrega a algum movimento artístico-cultural)". Para outros, indiferença. Para outros poucos, tranquilidade e até contentamento: "Ótimo, que bom que agora mais gente reconhece o valor da Adele e passa a ouvir menos tal e tal gênero musical, tal e tal cantor sertanejo e por aí vaí". 
Pois é, algumas vezes ficamos muito aborrecidos com o problema de algo do nosso rol de preferência virar "modinha". Mas por que tanto alarde? Por que tanto nojinho quando Someone like you embala cenas na novela? Isso não é a primeira vez que acontece, já vem desde os tempos em que muitas bandas saíram do underground  e passaram a ser conhecidas nas periferias, tiveram suas imagens estampando camisetas de jovens de baixíssima renda (Evanescence, Linkin Park, Slipknot, Nightwish, só para citar alguns exemplos). O problema é que o ser humano tem necessidade por exclusividade ou bairrismo. Ele gosta de estar entre os primeiros que conheceram o trabalho de algum grande cantor que mais tarde explodiu. Ele gosta de compartilhar apenas entre os "seus" todo tipo de informação sobre aquela banda ou aquele artista. Quando o trabalho desse artista começa a escapar de sua jurisdição, seu egoísmo ganha formas beirando à mesquinharia e ele começa a protestar, desmerecer a maioria das pessoas que se tornaram fã do artista e passar a impressão de que houve uma rachadura em seu mundo. Uma pergunta aqui: qual é o problema de algo virar moda? O quanto isso influencia sua vida de maneira a fazê-la desandar?
Este texto tem tons exagerados, eu sei. E ele não é para acusar ninguém, até por que eu mesmo já dei uma de fãzinho chato que pagou de pedante por conhecer há mais tempo determinado artista. Entretanto, opa!, também já estive do outro lado. Parece que algumas pessoas querem ser detentoras do direito de serem únicas fãs de um determinado trabalho. Não é só com música, obviamente. Creio que, tudo bem você fazer um pouco de bico por ter de dividir seus queridos ídolos, mas acho que deve haver um certo limite. Deveríamos ficar mais felizes em ver que nossos artistas favoritos estão ampliando seu nicho, estão tendo mais reconhecimento, estão sendo valorizados. Claro que existem aqueles indivíduos que nunca conseguiremos considerar fã, pois nunca passará de um modista, nunca pesquisará sobre a carreira do artista, nunca conhecerá músicas além de hits consagrados, mas acho que todo fã deve começar de algum lugar. 
Outro ponto que eu não deveria deixar de ressaltar é a presença dos hipócritas que entraram em alguma onda ou tribo urbana por influência (de novela, internet, amigos etc.) mas adoram tacar pedras nos "modistas calouros". São aqueles que atacam a modinha e os modistas mas não tem argumentos para defender sua posição ou possuem argumentos muito fracos, resumidos a xingamentos ou definições simplórias a respeito do novo público que está aparecendo. Alguns gostam de posar de intelectuais, outros só estão dando vazão à sua chatice, outros são os dois.
Se não dá para escolher um lado nessa luta toda (se incentiva ou se odeia que mais gente venha a conhecer o trabalho do seu ídolo), tente achar um equilíbrio. Eu só não concordo em matar e abandonar nas trevas eternas do underground os artistas ou gêneros musicais que prezamos tanto. Afinal, muito se reclama que a cultura à nossa volta é pobre e o povo consome muita porcaria. 


15 de janeiro de 2012

CÁSSIA


Já repararam no M e V que estão no colarzinho dela??....

Com você as músicas são diferentes
Elas atravessam os ouvidos
Como num desfile colorido
Com você os poemas respiram
Eles parecem ter pulmões carregados de ar
O suficiente para vender e dar
Com você os dias tem horas a mais
Que correm rápido quando perto e lento quando longe
Mas que ainda assim mantém você no horizonte
Com você as comidas tem sabor refinado
Como se meu paladar nunca tivesse experimentado
O que é realmente saciar uma fome de fato
Com você as caminhadas não são cansativas
E as estradas ficam repletas de árvores vivas
Com flores e frutos maduros pra colhermos juntos
Com você as letras do alfabeto parecem dançar
Elas formam palavras de amor em vidro embaçado
E escrevem histórias que superam o passado
Com você o meu riso é mais fácil, mais aparente
Como se o conceito de alegria fosse mais frequente
E cada minuto contivesse um aprendizado ao teu lado
Com você as noites mais escuras são as mais claras
Em que me perco na imensidão do teu olhar
E brinco de amor correndo pra lá e pra cá
Com você sou menino cometedor de desatinos
E num suave despertar conheço meu destino
Teus braços e cabelos para me abrigar e envolver
As coisas singulares que só provo com você!


FELIZES 4 MESES DE NAMORO, QUERIDA CÁSSIA!!!!


13 de janeiro de 2012

crônica: O TELEFONEMA


Tomou seu sagrado copo com leite, vestiu o indefectível pijama branco todo listrado de castanho-avermelhado, beijou o retrato da falecida e foi dormir. Às dez em ponto. Lá pelas duas da madrugada, o celular tocou estridente, aquela música do Amado Batista que aprendera a gostar por causa do saudoso pai. Um tanto contrafeito, atendeu a inusitada ligação:
─ Pois não?
Ele não tinha o costume de dizer “alô”.
─ Humm... Então você realmente atendeu, hein!─ disse uma voz masculina lentamente, do outro lado da linha.
─ Ora essa, é claro que eu atendi, senão você não estaria falando comigo e nem saberia que eu realmente atendi─ ele observou no relógio em seu braço que eram duas da manhã.─ Mas quem está falando?
─ Ah, por que essa pressa toda, Naldão? Vamos brincar um pouco!
Devia haver algum engano naquilo tudo. Seu nome era Vitório Carlos, nunca conheceu qualquer Naldão ou algum sujeito de apelido similar. E quem estava falando daquele jeito todo empostado no telefone era um homem. Um homem! Suspeitíssimo...
─ Escuta aqui, camarada─ disse Naldão, ops, Vitório Carlos, ─ Você deve estar enganado. Meu nome não é Naldão. Eu estava dormindo e você me acordou. Vamos encerrar esta ligação por aqui porque você ligou para o número errado.
─ Como assim, Naldão? Mas eu liguei 1234-5678. Não é seu número?
─ Olha, é meu número, mas...
Naldão pensou, pensou... Ops, Vitório Carlos pensou, pensou... Só podia ser marmota do pessoal da empresa. Ninguém o deixava em paz. Só porque ele era tranquilo e nunca dava trela para as gracinhas dos colegas de trabalho. E não era agora que ia dar esse gostinho. Com certeza era uma pegadinha, talvez uma daquelas de programa de rádio. Pô, mas às duas da manhã??
─ Onde você conseguiu meu número?─ indagou Vitório, decidido a entrar no jogo dos colegas que queriam dar uma de espertalhões.
─ Eu peguei seu número na porta de um banheiro lá no Shopping das Margaridas... Eu me lembro muito bem do que tava escrito lá, foi por isso que liguei. Desculpa a hora, Naldão, mas é que eu canto na noite, sabe...
Vitório Carlos estava chocado. Seu número de celular na porta de um banheiro no Shopping das Margaridas? Desta vez seus colegas tinham ido longe demais. Estavam ultrapassando a fronteira da brincadeira e começando a ferir seus sentimentos.
─ Aí você se interessou pelo que estava escrito lá...─ Vitório Carlos continuou dando corda pro desconhecido.
─ Ah, mas quem é que não ia se interessar? Veja bem, eu nem sou gay, mas sua propaganda foi tão... matadora, que eu tinha de conferir.
Nessa hora Vitório deu um sorrisinho. Pôxa, não é todo dia que dizem que sua propaganda é matadora. Porém, no segundo seguinte, retomou a compostura:
─ Meu amigo, sinto muito, mas tenho que dar essa ligação por encerrada. Infelizmente houve um terrível engano aqui.
─ Mas, Naldão, você me confirmou que esse é mesmo o seu número. Agora quero marcar um encontro com você. Quero saber se aquelas medidas descritas lá na porta estão exatas, se você faz tudo o que promete mesmo... Você não entende, Naldão? De repente essa pode ser a única oportunidade em nossas vidas de vivermos o amor verdadeiro.
─ Por obséquio, meu chapa!─ xiii, quando Vitório usava “por obséquio, meu chapa!”, era sinal de nervosismo extremo─ O meu nome não é Naldão!! Nunca mais ligue pra mim, está entendendo? Passar bem!
E desligou o telefone na cara do sujeito. Onde já se viu? Que coisa mais ridícula! Para onde estava caminhando este mundo? E ele nem sequer imaginava que havia caras que realmente ligavam para números de telefone escritos em portas de banheiros públicos. Os caras da empresa conseguiram tirá-lo do sério.
─ Era só o que me faltava─ Vitório Carlos continuou resmungando, enquanto ajeitava o travesseiro sob a cabeça.─ Eu jamais escreveria meu número de telefone num banheiro do Shopping das Margaridas...

E Naldão demorou a dormir. Ops, Vitório Carlos. 

1 de janeiro de 2012

IMPERFEITOS



Com meus calorosos cumprimentos
Ergo a taça do orgulho próprio
E faço um longo minuto de silêncio
Aos convivas e amados iguais
Cujas chagas ardem e gritam, doentes
Mas ainda assim são as marcas latentes
Sim, senhores, de nossas imperfeições
Vamos organizar a mesa redonda
Os panos inadequados, os pratos achatados
E que cada um dê conta do próprio banquete
Que o tempo se encarregue de ajustar
Os ponteiros tortos que marcam as horas erradas
E todos possamos rir, expondo as janelas dos dentes
E que por essas janelas entre o vento bom
Carrego em minha carteira o distorcido RG
E as bainhas de minhas calças curtas por fazer
Porque um belo dia eu tive de aceitar e sorrir
Muito mais por ser quem sou do que por ser quem quis
A quem quer que possa, portanto, interessar
Encontre-me no fim da ladeira desajeitada
Para que possamos degustar da primeira rodada
De poesias capengas, hoje é por minha conta
E cá entre nós, meus prezados, é da nossa conta e só

30 de dezembro de 2011

UM BRINDE AO ADEUS



Poucas coisas são unânimes entre os seres humanos. Acredito que uma delas seja o final de um ano, pois não vejo ninguém chorar, espernear e se desesperar para que um ano não acabe. As pessoas aceitam esse fim muito mais facilmente do que a morte de alguém, mesmo esse ano tendo sido o melhor de suas vidas. Final de ano é um período em que muitas promessas e desejos surgem nos corações. Gente que enxerga uma esperança vindoura, “se Deus quiser comprarei meu carro ano que vem”, “em Janeiro começarei aquela dieta”... Não importa, dos sonhos e promessas mais bobos aos mais nobres. Muitos chegam ao fim do ano da mesma maneira que o iniciaram. Algumas pessoas viveram amarguras tenebrosas, perdas terríveis e das mais diversas, mas algumas lições puderam ter sido tiradas. Se ainda não se tirou lição alguma das agruras vividas, talvez haja alguma centelha na qual reside a fé de que ainda aprenderão algo. Muitos atravessaram 2011 carregando fardos de dúvidas, rancores, mágoas, dívidas, dissabores, preocupações, mas que perto do fim conseguiram vencer, rir do que passaram e ainda incentivar outros que ainda não obtiveram êxito. Muitos não passaram por qualquer situação sinistra. Comeram, beberam, dormiram e viveram 365 dias como quem bate o ponto religiosamente no emprego, sem nada de tão anormal.
Mas convoco-vos nestas poucas linhas a fazermos um brinde. Seja lá o que você tenha passado, chorado, sorrido, sofrido. Seja lá quantas vezes você decidiu algo e mudou de ideia no outro dia. Seja lá quantas vezes você pensou estar certo, mas teve de admitir que estava errado. Seja lá quantas vezes você viu sua mão sangrar de tanto esmurrar pontas de facas. Seja lá quantas vezes você jogou e perdeu, perdeu e ganhou, jogou para perder de novo e ganhou mais uma vez para mostrar que na vida se ganha e se perde... Brinde comigo! Nós nem sequer precisamos de álcool para isso. Precisamos apenas nos abraçar carinhosamente. Um abraço cálido, fiel, de quem carregou a cruz e manteve um sorriso impossível no rosto. Um abraço de quem não via a hora desse ano acabar, pra recomeçar do um literalmente, desta vez se sentindo mais treinado, mais preparado, com as armas certas para a batalha. Que nós possamos brindar um fim que pode representar, se Deus quiser, um novo e brilhante começo.
Felicíssimo ano-novo!!

OS MELHORES TEXTOS DO ANO

Obrigado a todos que votaram e também a todos que incentivaram meu trabalho através da leitura dos textos escolhidos como os melhores de 2011.


CATEGORIA POEMA: MEMORÁVEL FIM DE TARDE


O poema que fiz para minha namorada Cássia Monteiro foi o escolhido. Um poema simples, porém feito com todo carinho e pureza, feito com paixão. É bom saber que a arte baseada num lindo e único momento rendeu um ótimo fruto e admiração daqueles que apreciam obras poéticas. Dedico a ela a vitória deste texto.


CATEGORIA CRÔNICA: OS SEIS AMIGOS


Confesso que esperava pela vitória de "Velhos!", que teve mais comentários e mais visitas. Entretanto, parece que a história de seis amigos que se reencontram numa cadeia de circunstâncias bizarras alcançou uma marca maior. Fico muito feliz e surpreso, agradeço ao carinho de todos que riram e compartilharam desse texto por aí. Foi feito unicamente para entreter e deliciar aqueles que tem na leitura um grande hobby, para fazer esse hobby valer ainda mais a pena.


CATEGORIA ARTIGO: CUIDADO COM ELOGIOS!!


2011 foi um ano em que resolvi continuar investindo em artigos, emitindo opiniões e até dando uma de conselheiro, rsrs... O artigo que fala sobre os perigos de se fazer/receber muitos elogios foi o preferido. De certa forma é até irônico, pois a eleição dos melhores textos de certa forma me rende elogios, e um dos textos vencedores nas votações é justamente um que enfatiza os problemas oriundos de uma vida acostumada a louvores. 


Para mim, entretanto, o melhor prêmio, digamos assim, é saber que de alguma forma aquilo que escrevi neste ano para este blog possa ter tido de fato alguma utilidade. Minha ambição maior enquanto escritor é que meus textos façam alguma diferença na vida de quem os lê, mesmo que durante alguns segundos. Quero divertir, informar, entreter, fazer pensar. Se isso tiver sido alcançado, amém!
E muito obrigado por tudo, mais uma vez...

12 de dezembro de 2011

POEMA PERFEITO DO AMOR PERFEITO




Ela vai toda cheirosa, bonita e penteada
Ele carrega uma rosa, está todo garboso
Ela sorri de longe e acena apaixonada
Ele nunca conheceu amor mais gostoso

Ela o abraça, beija e para sempre o ama
Ele repete os gestos e, claro, nem reclama
Ela sorri de novo, na verdade a cada segundo
E ele promete a ela tudo que há no mundo

Eles se sentam em qualquer lugar e se adoram
O tempo fica estático enquanto eles namoram
Ela ri de qualquer bobagem que ele diz
Ele sabe exatamente como fazê-la feliz

Ela olha o relógio, já é tempo de se despedir
Ele a aquece em seus braços pra não deixá-la ir
Ela sonha com o dia em que irão se casar
Ele guarda dinheiro pra quando o tempo chegar

Ela pede “querido, me belisque, acho que é sonho”
Ele hesita, não quer machucá-la, pode doer bastante
Mas ela insiste, ele a belisca, puft! Cadê Antônio?
Acordam cada um em sua casa, nunca se viram antes

18 de novembro de 2011

crônica: OS SEIS AMIGOS

Eles eram seis amigos. Estudaram da quinta série até o fim do ensino médio. Viveram juntos as mais diversas experiências, choraram, riram, se esborracharam, sofreram, brigaram, aprenderam... Até que, pelas circunstâncias naturais do curso da vida, foram se separando, perdendo contato, a amizade foi ficando como uma âncora naquele espaço gostoso da memória. E, ainda mais natural, foi que um deles bateu as botas. Apenas o mais próximo do falecido ficou sabendo, através de uma atualização da irmã deste, via Twitter. Condoído, Osmar então arranjou um terno elegante e se preparou para ir ao enterro do amado amigo. O morto era o Jorge, o mais tímido dos seis, mas era o que melhor jogava baralho. As lembranças foram se expandindo, então Osmar estava recordando não apenas de Jorge e sua habilidade para as cartas, mas dos outros quatro. Quantos momentos memoráveis!! 
Osmar pegou um táxi, indagou ao motorista se conhecia o endereço do cemitério. O motorista assentiu com a cabeça e ficou encarando Osmar pelo espelhinho. Osmar começou a suspeitar que o taxista fosse gay, mas logo se pegou encarando-o com a mesma fixação. Ambos sacaram na mesma hora que se conheciam. Ora, o taxista era Carlos, o que era o mais mulherengo dos seis amigos. Depois da descoberta incrível, Osmar dividiu a notícia da morte de Jorge. Carlos sentiu um aperto no peito, falou para Osmar que nem ia cobrar a corrida, pois estava a fim de prestar essa última homenagem ao caríssimo Jorge.
Carlos parou num posto de gasolina para comprar cigarros, pois saber de repente da morte de um antigo amigo o deixou muito tenso. Estava havendo um assalto numa loja ali perto e o bandido cruzou o caminho de Carlos enquanto corria. O taxista, então, quis dar uma de heroi e correu atrás do ladrão, prometendo para Osmar que voltaria logo. Carlos alcançou o ladrão, caiu sobre uma calçada junto com ele e já ia lhe encher de sopapos quando reconheceu uma cicatriz familiar em seu pescoço. Não era possível. Era o inconfundível Arnaldo, o mais baixinho dos seis amigos, o que vivia sofrendo bullying porque tinha língua presa e tinha uma cicatriz por ter levado um corte de faca num assalto uma vez. Que circunstância mais bizarra!! Com o problema da língua presa ainda muito forte, Arnaldo pediu desculpas morrendo de vergonha para Carlos. Em alguns minutos, Arnaldo estava no táxi com Carlos e Osmar. Acabava de saber da morte repentina de Jorge. Lamentou não ter perdoado Jorge no dia da festinha de encerramento do ensino médio, por conta de uma briguinha envolvendo uma garota. 
No caminho para o cemitério, os 3 amigos no carro foram rindo e trocando recordações. Carlos tocou no som do táxi umas músicas típicas daquela época. Quem diria... Estavam se unindo novamente para o enterro de um deles. Era curiosamente sinistro. Ou sinistramente curioso. 
Finalmente chegaram ao cemitério. Havia um número considerável de pessoas, todas realmente lamentando a perda do viciado em canastra. Carlos discretamente "deixou cair" alguns cartões de propaganda de seu táxi, vai que alguém pudesse precisar depois... Osmar preferiu não ficar muito perto dos outros dois, pois sempre foi o mais arrumadinho; Carlos era um humilde taxista e Arnaldo estava ainda sujo da queda que rolou durante a perseguição minutos antes.
Uma mulher loiríssima, chiquérrima e alta estava em prantos bem audíveis, se lamurinando por ter perdido o "homem mais maravilhoso da face da terra". O padre começou a fazer os ritos da cerimônia, até que Carlos, Osmar e Arnaldo perceberam, ao mesmo tempo, que o sacerdote era ninguém menos que Edgar. Mas logo o Edgar, que era ateu convicto e vivia zombando de imagens de santos católicos?? Aquele dia estava extremamente absurdo. Edgar acenou com ternura e lágrimas nos olhos para os outros três. Estavam ali cinco reunidos, sendo um deles encaixotado e pronto para ser coberto pela terra. Mas faltava o sexto elemento: Charles. 
Acabou o enterro, os quatro amigos foram tomar uma cerveja (Edgar optou por um suco natural, essa vida mundana morreu antes de Jorge). Relembraram mais algumas coisas, lamentaram que a corrente de coincidências não tenha colocado Charles no caminho deles. Como será que o sexto elemento estava vivendo a vida? Ele era o que dava conselhos amorosos, o que ouvia os desabafos, o que dançava quadrilha na escola... Foi uma pena não terem esbarrado com o saudoso Charles. Despediram-se e resolveram manter contato dali em diante.
Mas... Coitado deles... Nem tiveram tempo de descobrir que Charles esteve entre eles durante todo o enterro. Só estava um pouco diferente do habitual. Charles agora era Charlotte, seus cabelos eram loiros e muito provavelmente iria amargar longos dias de depressão por ter perdido o grande amor de sua vida...

9 de novembro de 2011

MULHERES MACHISTAS ?!?!




É de praxe que algumas coisas nesse mundo, com as quais estamos acostumados em nossa sociedade, tem seu lugar e papel definidos. Ou melhor, convencionalmente definidos, como os estereótipos do homem comum e da mulher comum. Homens fazem isso, mulheres fazem aquilo. Homens não fazem isso, mulheres não fazem aquilo.
Machismo é uma manifestação típica dessa ideia. Consiste em o homem estar posicionado numa determinada situação, que muitas vezes pode ser rude, grosseira, o que caracterizaria justamente o fato de ser do sexo masculino. Normalmente, os homens são severamente criticados pelas mulheres quando demonstram machismo. Às vezes não são eles os criticados, mas as circunstâncias sociais que tem se prolongado favoravelmente ao machismo. Enfim, machismo pode ser entendido como um comportamento que insinua uma certa “supremacia” do homem sobre a mulher ou impõe limites a um suposto modelo de comportamento masculino. Machismo é resultado de séculos e séculos de História, e nem toda intensidade comportamental masculina se caracteriza “machismo”. Machismo também pode ser uma espécie de abuso, físico e/ou emocional. Um exemplo interessante: homem não pode dançar balé, pois “quem dança balé é mulher (ou “bicha”, na pior das hipóteses)”. O que você leu é um exemplo estúpido de machismo, pois como pode o balé por si só influenciar um heterossexual que decidiu praticá-lo? Mas muitos pensam assim, talvez até você que está lendo...
Mas o pior tipo de machismo, de longe, é o machismo feminino. Isso mesmo. Mulheres que são “muito femininas” e que (veja só que irônico) justamente por isso levantam a bandeira da categorização dos sexos, com seus respectivos papeis bem distribuídos, como se a vida fosse um espetáculo teatral e todos tivessem falas, trejeitos e ações impostas por seu gênero. A pior atitude de uma mulher machista é desmerecer que muitos homens tem perspectivas emocionais muito complexas. Aliás, as mulheres machistas acham que complexidade é coisa de mulher, já que “mulheres é que tem frescuras”. Ora, não custa lembrar que antes de sermos homem ou mulher, somos humanos. Intelecto, emoções, personalidade, tudo que está ligado à essência, nada disso tem sexo. Claro que um traço ou outro é mais evidente ou menos presente em homens ou em mulheres. No entanto, características UNIVERSAIS devem passar longe do crivo utilizado para o julgamento de comportamentos, ainda mais se for um julgamento tão raso baseado puramente em idealizações sociais.
Este post não visa desprezar muitas características indiscutíveis que diferenciam homens de mulheres, socialmente falando. De um ponto de vista pessoal, eu nunca saberei decorar uma sala como muitas mulheres saberiam fazer. Você viu o cuidado em minha frase? Muitas mulheres. Se eu digo que TODAS as mulheres conseguem, estaria sendo machista, baseando-me em um pensamento generalizado, e desrespeitando aquelas que não tem a mínima habilidade com decoração, mas que nem por isso deixam de ser mulheres. Entretanto, o fato de um homem saber decorar uma sala melhor que uma mulher não faz dele gay, por exemplo, mesmo que até haja uma certa frequência do referido, assim como com cabeleireiros e bailarinos.
Para mim, os seres humanos são demasiadamente complexos para alguém chegar e pregar uma etiqueta para qualificá-los em seus respectivos gêneros. Deixemos as diferenças falarem, mas não podemos ter preconceito com as igualdades.


11 de outubro de 2011

EU QUERO MINHA INOCÊNCIA DE VOLTA


Eu quero minha inocência de volta
Aquela inocência pueril, colorida
que fazia ter graça viver a vida
Mesmo fedendo a moleque cascão
Que do banho fugia com precisão
Mas pra se sujar do nada aparecia


Quero poder ficar perto dos grandes
que não me corrompam, nem machuquem
que não me roubem, nem deturpem
Apenas me alimentem de comida e amor
Apostem em meus sonhos
E me confortem na dor


Eu quero brincar com as galinhas da vovó
Me empanturrar de doce de leite, chocolate em pó
Quero correr descalço debaixo da chuva
Não é possível que é impossível o que eu podia
Sinto falta de cada detalhe daqueles dias
Onde andam meus queridos amigos agora?


Quero brincar com meus brinquedos bobos
Mesmo que me enganem na casca do ovo
Não quero feder a saliência de gente grande
Quero manter minha integridade de infante
Sorrir à toa, falar besteira, desengonçado entrar na dança
Só quero o direito de ser eu: criança!


2 de outubro de 2011

crônica: VELHOS!



Odeio pegar ônibus pela manhã. Levo mais de quarenta minutos para chegar ao trabalho, aquele escritório entediante e cheio de gente falsa. A decoração da minha sala (ou melhor, meu cubículo) é deprimente. Já reclamei tantas vezes para a Mária de Fátima dar um jeito naquele papel de parede tom pastel, tão ridículo quanto o salário humilhante que eu ganho. 
Entretanto, nada me aborrece mais do que a quantidade abundante de idosos que sempre embarcam no coletivo. Eu os odeio do fundo da alma, porque obrigam as pessoas a adotarem uma postura de solidariedade ao abdicarem de seus bancos. Ora, ninguém tem culpa se estão com os dias contados, quem mandou terem nascido séculos atrás?
O ônibus percorre essa cidade sem-graça e, por ser horário de pico, o inferno é ainda maior: parece que a viagem dura o triplo do tempo. E os malditos velhotes de todas as espécies continuam surgindo. Pergunto-me o que tanto tem pra fazer todas as manhãs, por que não ficam em casa criando galinhas ou sentados em frente a suas casas vendo os carros passarem. Viver o tédio em que se transformaram suas vidas.
Alguns dos velhos gargalham, fofocam coisas sem sentido algum pra mim, falam alto e demonstram uma vivacidade estranha, incompreensível. Alguns, por outro lado, mantém sua normalidade, suas faces abatidas ou rabugentas, cansadas ou... Ah, velhos! E eu ainda gasto tanto tempo ponderando sobre eles...
Tiro o celular do bolso, preciso ligar para avisar que vou chegar atrasado outra vez. Tenho uma mão segurando a barra do ônibus (já que estou de pé, graças a algum velhote frágil, sem firmeza nos músculos). A outra mão está ocupada discando para o escritório. Chama. Alguém atende. Falo em bom tom, discretamente, para não chamar a atenção dos outros, diferente do que os velhos sem-noção fazem. 
Um rapaz me olha, me encara. Preferiria que a moça morena ao lado dele me encarasse. Ela é linda. Finalmente começo a me distrair, a esquecer dos seres jurássicos que transtornam a viagem de ônibus. A moça morena está ouvindo música. O que será que ela ouve? Dependendo, poderíamos qualquer dia desses iniciar uma conversa sobre sua banda preferida, que poderia também ser a minha banda preferida. Um belo pretexto por um belo objetivo. E então, por causa da moça morena, começo a ficar deprimido. E, por algum motivo, os velhos fanfarrões tem culpa disso.
O rapaz ainda me encara. Sorri sem mostrar os dentes, não resiste e indaga: "O senhor gostaria de se sentar aqui?"
Eu aparento ficar desconcertado. Acabo concordando com a oferta. Mas que fique bem claro que é só por causa da moça morena.

28 de setembro de 2011

MEMORÁVEL FIM DE TARDE


Para Cássia Monteiro


Um abraço cúmplice
Sob o vento e a garoa
Eu te tenho em meus braços 
vendo o sol crepuscular


Nem fazia ideia
Que tão memorável seria
Depois dos outros dias
Ternamente te encontrar


Mãos unidas, seu lugar, meu lugar
Cheiro, cabelos, trocas
E silenciosos momentos a contemplar
teus dentes, teus olhos, tua doçura


Suaves toques, música em tua voz
Agora enfim existe um "nós"
Para recordarmos do sol sumindo, tão lindo
Para deixar o amor se levantar


Torna-se estrela de meu favoritismo
Esse fim de tarde pra nunca se olvidar
Na próxima jogamos pedras no rio
E eu segurarei tua mão na minha...

22 de setembro de 2011

O PODER DA ESCOLHA


Lucas morre de medo de tomar decisões. Sempre lhe dizem que ele deve ter mais atitude na vida, mas ele já viu muita gente se dar mal por conta de tais "atitudes". Portanto, nunca decide NADA sem antes pensar e pesar todos os pontos necessários, quantas vezes for.
Ana vai se casar com Bruno, um homem que conheceu no ambiente de trabalho. Entretanto, embora não tenha se arrependido de ter optado noivar com ele, Ana nunca esqueceu por completo o grande amor que tivera na faculdade, com quem rompeu há pouco mais de um ano por razões banais. Até cogitou desmarcar o casamento se pudesse voltar com seu grande amor.
Marina sempre soube que queria ser médica. Paixão de infância, sonho de adolescente e agora, finalmente, ela está podendo estudar para um dia atuar na Medicina. Sente-se segura por ter escolhido a carreira certa para a vida toda.
As três ilustrações acima revelam três tipos muito comuns a respeito da postura que tomamos diante das escolhas que precisam ser feitas por nós. Há escolhas muito simples, como que sabor de sorvete tomaremos, com que roupa iremos visitar um amigo, que canal vamos ver na TV etc. No entanto, também há decisões que nos seguirão pelo resto de nossas vidas (ou uma boa parte dela). O primeiro caso ressalta alguém que tem seus motivos para ser cuidadoso ao tomar qualquer decisão. Algumas vezes somos encorajados a arriscar, pois do contrário "que graça teria a vida se não corrêssemos riscos"? Vale lembrar que esse pensamento não deixa de ser válido, contanto que seja passado pelo crivo do bom senso. Vale a pena se arriscar por QUALQUER COISA?
A segunda historinha é ainda mais comum. Mesmo sendo dito que a moça não se arrependeu de ter marcado casamento com um homem, ela ainda não é capaz de esquecer o antigo namorado. Há pessoas que tomam atitudes precipitadas, levadas pelo calor das emoções ou pela irracionalidade de certos momentos. Muitos momentos tidos como decisivos são, na verdade, irracionais. Justamente por faltar um pouquinho mais de cuidado, algo que o rapaz do primeiro caso é bom até demais. Imagino quantas pessoas estão por aí frustradas por terem trilhado rumos errados ou completamente diferentes do que um dia sonharam. O quanto será que a vida vale a pena para essas pessoas? Deus ajude moças como Ana, que podem levar para dentro do seu casamento um coração confuso e com sentimentos embaraçados, senão a infelicidade estará batendo às portas logo, logo.
Marina é a parte final do tripé. Ela é o tipo de pessoa que tomou uma decisão baseada num sonho, na fé de que aquele sonho estava destinado a fazer parte de sua vida. Parece muito fácil escolher por algo que você já gosta, não parece uma escolha. Contudo, existe a luta e a dedicação que mantém você no foco. Se isso não for mantido e você desistir, pode acabar caindo no caminho de uma escolha não tão agradável. Uma coisa maravilhosa de se fazer é alimentar nossos sonhos, sobretudo os sonhos nobres, que não machucam ninguém e que não constituem qualquer forma de pecado. Deus se alegra com sonhadores. Devemos submeter nossos sonhos à vontade Dele, pois somente assim nossas escolhas e decisões, mesmo que aparentemente precipitadas, terão mais garantia de não nos causar tanta dor futura.
O cuidado sempre deve ser mantido. Optar por algo e depois chorar amargamente por não se sentir feliz custa caro demais. Existe um poder enorme nas escolhas que fazemos para nossas vidas. Precisamos tomar conta de nossas vidas direito. Espero que você tenha, por exemplo, gostado de ter escolhido ler este texto. Que seja de ajuda para você!

6 de setembro de 2011

BREVE



para a moça peculiar dos olhos brilhantes



Enquanto vai a noite adentro,
Ardendo em corações apaixonados
Acaricio a suavidade de tuas maçãs
Saboreando cada deslize de meus dedos

Deixo as palavras fugirem trôpegas
(Ir)reveladas marcas de meus interesses
Assim como as pegadas de um animal sorrateiro
E quando imaginaria um momento desses?

Eu sei, meu bem, o tamanho da insensatez!
Eu sei mais ainda do que eu gostaria
Mas o meu não saber, a minha agonia,
É como um fogo apagado em noite fria

O poema sopra seus cabelos negros
Enquanto me desmancho em tuas pupilas
Assim que partires, tão breve quanto chegaste
Leva contigo estes versos, aquece-os em teu peito

Com sua licença, preciso me recompor
Antes que eu divague a respeito do amor
E o amor não vem ao caso, deixa-o quieto
Ou melhor deixá-lo desacordado?