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24 de maio de 2017

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x08: A HISTÓRIA DE IVAN CASTRO



(Ivan)

Tempos atrás

Não vim até esse bar para ouvir esse camarada achar que está arrasando cantando Lady in red. O bom disso é que nesse meio-tempo posso decidir se desisto de pedir uma cerveja e me mando ou se continuo aqui, persistindo, embora saiba que pode não ser uma boa ideia. Me disseram que é aqui que ela se apresenta. E acontece que eu já não aguento de saudade e vontade de vê-la.
Uma garçonete uniformizada com uma blusa polo exibindo a logo do bar e um sorriso muito forçado anota meu pedido. Percebendo as rápidas caretas que ela faz a cada sílaba que eu pronuncio, volto a cogitar a possibilidade de voltar para casa. Detesto ser o tipo de pessoa que se atenta para gestos corporais e, por conseguinte, acaba se deixando levar pela compreensão desses gestos.
E, meu Deus, esse cara precisa chorar tanto nessa música?
Examinando atentamente, ele está chorando mesmo. Suas bochechas mostram rastros de lágrimas rolando sem a menor cerimônia. Será que a canção lhe traz memórias de um amor mal resolvido, talvez uma dama de vermelho insensata ou inalcançável tenha lhe revirado a cabeça?
Devaneios... As coisas às quais a mente se agarra para passar o tempo e tentar lidar com as complicações da realidade.
Pedi uma cerveja e um prato de tira-gosto: isca de peixe frito com molho rosé e batatas fritas. Não é o tipo de programa ao qual estou acostumado, ainda mais sozinho, mas quando se está apaixonado de um jeito tão intenso, você é capaz de sair da sua zona de conforto com mais frequência do que gostaria, sentindo-se seguro ou não. Qualquer loucura é justificável. Até o que não se justifica.
O cantor de Lady in red finaliza sua performance, saca um lenço do bolso e passa os próximos minutos enxugando as lágrimas e assoando o nariz. Tudo ao mesmo tempo.
Não conheço ninguém por perto e a cerveja já veio e já está acabando. Nada dela. Será que virá mesmo?
Uma onda de excitação me invade. Um sentimento de aventura proibida que me faz ponderar se eu realmente quero levar isso adiante.
Ouço um violão sendo afinado. Ela chegou. Ocupa a cadeira que antes fora usada pelo cantor chorão; seu violão apoiado sobre as pernas e a maneira tão graciosa como maneja o instrumento. Natasha está tão bonita que, agora, não há nada que me convença a arredar o pé desse bar.
“Boa noite! Eu sou Natasha Pellegrini e vou fazer um voz e violão pra vocês. Vamos lá?”
Os primeiros acordes soam e sou levado a contemplá-la maravilhado pela sua habilidade delicada de musicista. É como observar uma flor desabrochando, testemunhar o momento certo em que um botão de rosa se abre. Você simplesmente deixa um instante como este te preencher e sua vida gira em torno desse único evento.
Natasha tem nome forte de artista e, mais do que isso, seu talento é inegável. Desde a época da escola. Desde a época em que eu já era caído de amores por ela. É desde essa época que eu venho guardando segredo sobre isso e, mesmo sendo muito tarde para tocar nesse assunto com ela, eu estou aqui.
A última música foi “Quem de nós dois”, da Ana Carolina. A cerveja que eu havia pedido no início está choca, mas pouco me importa. Tenho a impressão de que a única pessoa atenta à apresentação de Natasha sou eu. Muito provavelmente estou certo, pois a maioria das pessoas não vêm a um bar para ficar olhando os cantores. Elas vêm para um happy hour, encher a cara, trocar uma ideia. A música é um aperitivo à parte, apenas para embalar a noite.
Natasha me vê, bem como eu planejei antes de vir pra cá. Sentado a uma mesa escolhida justamente para ser visto do ângulo de onde ela estava, aceno quando ela me sorri.
“Que surpresa, Ivan!”, ela se aproxima.
Natasha está com os cabelos pretos soltos, em ondas que emolduram seu rosto e me convidam para acariciá-los, mas a sanidade me vence e eu me porto decentemente:
“E aí, Natasha? Tudo bem?”
“Sim, e você?”
“Tô legal. Gostei da apresentação”.
“Que bom!”, ela solta o sorriso fatal, que acaba com o meu coração. Mas infelizmente ela não sabe disso.
Sorrisos irresistíveis podem levar homens apaixonados a fazer besteiras.
Se bem que... Eu ter vindo aqui já é uma besteira das grandes, sobre a qual eu ainda nem consigo crer que esteja acontecendo. Onde eu arranjei coragem?
“Senta aí”, sugiro, tentando parecer casual.
“Tá”.
Natasha sempre foi lacônica. Reservada, quieta, sempre procurou ficar na sua e, em termos de esbanjamento, sempre optou por deixar essa parte por conta de seus dotes musicais. Vai ser (ainda mais) difícil tê-la por perto e ficar quicando entre fazer alguma coisa ou não.
“Como estão as coisas?”, pergunto.
“Estão indo”, ela diz. “Tô cantando quase todas as noites por aí. Me virando. E você?”
“Entrei recentemente numa firma de advocacia, pra ir ganhando um pouco de experiência”.
“Legal!”
“É”.
Num impulso idiota, encho o copo com a cerveja choca, levo à boca e quase me engasgo de nojo por causa da temperatura. A bebida está intragável. Seria uma ótima ocasião para Natasha rir da minha cara e eu pegar carona nisso e transformar a conversa num episódio hilariante, rendendo um papo mais descontraído. Mas ela arregala os olhos e me encara preocupada.
Expectativas! Mais frágeis do que farelo de biscoito...
“Eu esqueci que a cerveja tava quente”, me explico.
“Ah...”
“Escuta, você... tem visto alguém da galera?”
“Da galera da escola?”
“É...”
Que assunto mais imbecil. Nem um pouco indicado para abordar com a garota que você gosta logo após cuspir uma boa quantidade de cerveja na frente dela.
“Quer que eu peça uma cerveja pra gente?”, mudo o assunto antes que ela se toque de que ele e eu somos muito patéticos.
Mas aí percebo onde o olhar dela foi parar. Na minha mão esquerda.
“Você se casou?”
“Eu? Ah... É... Sim, sim, eu... eu me casei”.
“Aaaahhh”, ela faz, e eu fico em dúvida se ela achou fofo ou está disfarçando algum desapontamento. Mas para isso, ela teria de estar interessada em mim. “Sua mulher não veio com você?”
“Não, não”.
Droga! Essa aliança que eu me esqueci de tirar.
“Ivan, você é muito legal, mas não pega bem ficar conversando a sós com outra mulher num bar. Não me leva a mal, tá?”
Natasha se levanta, mas ainda insisto, fingindo não ter segundas intenções:
“Que é isso, Natasha. Somos amigos. Não tem problema a gente conversar um pouco...”
“Se outras pessoas estivessem aqui, por mim tudo bem. Mas é que não me sinto à vontade sozinha com você. Desculpa. Adorei te ver, Ivan!”
Ela me dá um beijinho no rosto e se afasta, encontrando um outro conhecido pelo caminho. Olho para a garrafa vazia de cerveja e tudo em que posso pensar é no quanto de ódio eu poderia gastar estraçalhando ela contra o chão. Porém, no meu peito, sei que o que fala mais alto não é o ódio. É a frustração. A impotência que mora em meus olhos e me encara no espelho todos os dias de manhã, me fazendo enxergar que a minha vida poderia ser outra. Poderia ser boa.
Pago a conta, vou embora do bar. Toda essa expectativa por uma noite que eu nem deveria ter vivido. Pego um táxi e sigo rumo ao meu inferno particular. De volta para os braços da mulher com quem escolhi me casar, só para acabar me arrependendo amargamente.

Eva está comendo pipoca e vendo TV com seu duvidosamente seleto trio de amigos, duas meninas e um cara, que provavelmente está tentando pegar uma delas, pois gay ele não é. Estão sentados no chão, em volta da mesa de centro. O cenho franzido de Eva ao me ver é a visão mais repetida que ela tem me oferecido nos últimos dois anos, desde que se passou o frenesi inicial do casamento. O problema é que eu esperava que esse tal frenesi fosse durar mais de três meses.
“Acabou a janta”, ela me recebe. “Como foi lá com o Macedo?”
“Foi bom, amor”, minto, nutrindo uma irritação por ela me receber dando a péssima notícia de que não tem janta. “Tô morrendo de fome”.
Eva olha para a tigela de pipoca, estende-a para mim e diz:
“Ainda tem um pouco, se quiser. Mas eu não vou cozinhar nada pra você. A academia me matou hoje, tô muito quebrada. E a galera tá aqui hoje”.
“Você tem cigarro Destruction, fera?”, pergunta o cara que está querendo pegar uma das amigas da minha mulher. “Comecei a fumar ontem”.
“E você começou por um cigarro com esse nome? Bem sensato”, respondo com sarcasmo. “Não, não tenho”.
“Não liga, Cadu, ele é abusado assim mesmo”, Eva justifica.
“Será que a gente pode voltar a falar do que a gente tava falando?”, uma das amigas cujo nome eu desconheço se intromete, impaciente. “Não é todo dia que sua prima completa sete meses de gravidez falsa, né? Enquanto ela enrola pra dizer a verdade, me ajudem a escolher o presente pro chá de bebê. Ai, maldita hora em que eu topei ajudar ela com essa história”.
“Vou lá na cozinha preparar alguma coisa”, informo, louco para fugir dessa reunião idiota. Ninguém me ouviu.
Me inclino para beijar Eva, que reage fina como uma flor:
“Cacete, Ivan! Sai da frente, seu idiota. Bem na hora que a polícia descobriu o assassino no filme. Sai daqui!”
“Não consigo encontrar cigarro Destruction em lugar algum”, queixa-se o amigo recém-chegado ao mundo dos fumantes. “Preciso azucrinar a minha mãe pra ela aprender que quando eu decido alguma coisa, eu vou em frente. Mas tem que ser com Destruction, que é menos agressivo pros pulmões. Por que eu não decidi virar hippie? É mais fácil fazer artesanato e andar com roupas velhas do que encontrar esse maldito cigarro”.
Reviro os olhos de tanta vergonha alheia, peço licença e caminho até a cozinha, após ser praticamente enxotado. Nem o Alladin, nosso cachorro, recebe esse tipo de tratamento da parte da minha esposa.
Nessa mesma noite, na cama, Eva me diz coisas maravilhosas, acariciando meu rosto e encarando meus olhos à penumbra. E eu a perdoo por ser tão mesquinha e malvada. E nos amamos com uma paixão parecida com aquela que tínhamos no início do namoro, mas que nunca mais será resgatada, claro. Será que ela tem ciência disso?
“Bom dia, amor”, eu a saúdo, saindo do banheiro após um bom banho para mais um dia de trabalho.
“Mais uma palavra e eu vou perder o sono. E se eu perder o sono, eu te mato”, declara ela, enfiando a cara o mais fundo que pode no travesseiro, morta de raiva.
E o ciclo se reinicia.


Não é que eu tenha aprendido a ser contra casamentos desde que perdi o encanto com a minha própria experiência. Mas, assim, se for pra dar um conselho, aqui vai: não se case tão jovem como eu fiz. Não se enlace com a primeira pessoa que faz você achar que ela é a pessoa certa só porque vocês dois estão vivendo como num filme de amor extasiante. Ou, então, espere no mínimo uns dois anos. Eu mal tinha 24 anos quando interpretei mal minhas intenções com Eva. Três anos mais nova que eu, ela também não devia ter muita ideia de onde estava se metendo. Nem seus pais, tampouco os meus. Casamento é tão romantizado que as pessoas esquecem de que é tão importante quanto educação ou investimentos financeiros. Não é construído apenas de beijos calorosos e planos coloridos, mas de um bocado de esforço árduo e cada detalhe precisa ser previamente analisado antes de marcar a data da cerimônia.
Mencionei meus pais e, falando neles, não foram o meu melhor exemplo de casal. Sequer tinham cheiro de referência de casamento para mim. Meu pai traiu minha mãe inúmeras vezes, e de alguma forma ele conseguia ser aceito de volta, como se fosse uma criança que aprontara uma travessura na escola e que recebeu uns tapas em casa e só. No caso do meu pai, acho que ele poderia ter levado uns tapas, só por questão de honra mesmo. O fato é que minha mãe engoliu essas puladas de cerca como se sua dignidade estivesse intacta. Pode ser uma questão de geração, quero dizer, a minha mãe foi criada num ambiente mais rígido que as jovens de hoje, então ela foi mais tolerante com a infidelidade de meu pai. Ou posso estar só pensando um monte de asneiras e estar milhas longe do verdadeiro motivo. Tudo que eu sei é que isso me aborrecia tremendamente.
O caso é que, por causa disso, tive diversos embates com meu pai. Discussões feias, acaloradas, cheias de dedos acusativos e xingamentos pondo em xeque seu caráter. Definitivamente, aquele não era um modelo de homem a se seguir. Até que eu me casei com Eva e, na primeira vez em que reencontrei Natasha numa dessas circunstâncias casuais, minha mulher e eu já andávamos nos estranhando. E bastou uma troca de sorrisos saudosos com Natasha para que eu descobrisse que havia algo de errado na escolha que eu fizera naquele altar, em 2004.
E tudo que eu havia optado por me distanciar se mostrava cada vez mais próximo: desde então eu alimentava um desejo de trair a minha mulher, disfarçada de curiosidade, sob a justificativa romântica de que eu nunca esquecera Natasha, com quem, inclusive, jamais troquei um selinho. Bom, o caso aqui é que isso me coloca numa posição bem similar a de meu pai, cuja imagem de mulherengo eu aprendi a abominar. Esse não é o tipo mais legal de volta que a vida dá.
Eva invariavelmente me humilhava, fazia chacota e brigava comigo, pelos mais diversos motivos. Certa vez, em 2011, ela chegou a tocar fogo em parte das minhas roupas por achar que eu a estava traindo com Deusimar. Levei praticamente um dia todo para provar que Deusimar era o assistente de um advogado da firma, e que o problema todo fora desencadeado por Deusimar ter um nome que serve para homens e mulheres.
Vestindo uma estranha combinação de calça moletom verde com um casaco de couro marrom, ponderei que Eva tinha muita sorte por eu estar aguentando seus abusos há sete anos. E nesse dia, durante sua choradeira implorando meu perdão, enfim tive audácia suficiente para dizer que já era, que tava tudo liquidado e que eu não tinha mais a menor condição de levar essa relação adiante.
Eva quis surtar, mas eu resisti bravamente e mantive a decisão. Eu precisava me libertar!
De todo modo, eu devia ter visto desde o princípio que não havia um futuro harmonioso naquele casamento. Afinal, “Eva e Ivan” nunca foi uma combinação eufônica e, juntos, aprendemos que não restaria mais combinação alguma.
Olhando para trás, foi bom ter me livrado de suas garras pelo engano cometido no episódio do Deusimar. Imagine se ela tivesse descoberto a respeito de outros nomes realmente significativos, como Marcela, Denise e Aline.


Eu me sentia pronto para correr até Natasha e me declarar para ela. Uma paixão alimentada há mais de uma década deve dizer muita coisa sobre uma pessoa, não?
“Essa cidade tem tanta mulher, hein”, comentou o taxista, levando-me até o local onde Natasha e eu marcamos de nos ver.
Eu não queria dar o mínimo de atenção à conversa do homem, então resolvi que ia ficar só balbuciando e concordando falsamente.
“Mas pena que cada homem só pode ter uma. Eu queria ser um sheik árabe”, prossegue ele.
“Aham...”
“Eu sou casado, sabe. E muito bem casado. Mas às vezes parece tão injusto estar com aquela patroa há tantos anos e não poder variar um pouquinho. O senhor é casado?”
“Não, não. Já fui”.
“Meu casamento tá ótimo, tá excelente, nada a reclamar. Mas de vez em quando eu fico pensando nisso. O senhor acha que infidelidade é falta de amor? Porque eu amo a minha mulher, eu juro. Ainda não provei uma tapioquinha com ovo frito melhor que a dela. E quando ela me aguenta nos meus dias de porre, eita! Mas sabe como é, né? Homem é bicho curioso e a gente é atraído pelo visual e, minha nossa senhora, como tem mulher bonita, rapaz! Dá vontade de experimentar um pouquinho de cada uma”.
“Desculpe, moço, mas eu não tô muito a fim de falar sobre isso, ok?”
“Opa, tudo bem, sem problema”.
E assim seguimos. Não me dava o menor prazer tagarelar com um homem cujos pensamentos me lembravam o que poderiam ser os pensamentos do meu pai e, algum tempo atrás, os meus. Mas eu tive meus motivos para ter agido como agi: Eva quase me destruiu emocionalmente. Se existe estresse pós-traumático para casamentos, certamente sou vítima exemplar.
Ou será que eu acabei desenvolvendo uma certa tolerância à infidelidade só pra me justificar? Tratei de ocupar a mente com outros pensamentos.
Chegamos. Paguei a corrida, quase agradeci pelo taxista ter mantido a boca fechada depois que eu pedi. Desci do táxi e Natasha já me esperava em frente ao restaurante. Nesse dia eu estava louco para saborear a massa que o lugar servia, mas nada superava o desejo de ter a companhia daquela mulher, devidamente avisada da minha condição de solteiro.
“Olá!”, ela sempre muito cordial, além de estar bem vestida e deslumbrante. Essa noite precisava ser especial.
“Boa noite, tudo bem?”, retribuí, cumprimentando-a com dois beijos nas faces.
“Fiquei meio envergonhada de entrar antes”, ela se explica. “Esse lugar parece chique demais pra mim. É aqui que você traz as suas namoradas? Se eu fosse um homem, eu traria aqui com certeza”.
Ela falou isso de um jeito claramente brincalhão, então rimos enquanto entramos no lugar. A piada foi boa.


Abreviando a história, tive a melhor noite possível com Natasha. Abri meu coração, contei tudo que eu vinha guardando desde os tempos de colégio. E tal foi a minha surpresa quando ela revelou que “me achava uma gracinha” ainda naqueles tempos. Eu fiquei todo encabulado, ainda mais porque eu era bastante desfavorecido esteticamente quando nós estudávamos juntos. Ora, pra que tantas palavras bonitas? Eu era terrivelmente feio mesmo! E o fato de ser negro complicava ainda mais a situação porque, se o racismo ainda persiste hoje, nem queira saber como era em meados dos anos 90. Resumindo: era um inferno. Constantemente eu me sentia diminuído e inferiorizado pelas pessoas ao meu redor. Meus amigos do peito eram os mesmos que, dia após dia, me achincalhavam pela cor da minha pele, achando que estavam fazendo gracinhas de camaradagem, como se nenhum dos apelidinhos me constrangesse ou machucasse. Eu só relevava porque eles compensavam essa babaquice fazendo coisas legais por mim e me ajudando quando eu precisasse. No entanto, por eu ter me acostumado com isso desde a infância, acabei me focando em outro problema: meu total desastre com as garotas. Todas só queriam ser minhas amigas. Acho que por isso fui logo casando com Eva, para não perder a oportunidade de ser amado pela vida inteira.
Nessa noite no restaurante com Natasha, descobri que eu me enganei redondamente durante o ensino médio. A própria Natasha admitiu que se eu a tivesse chamado pra sair e conversar, com certeza teríamos vivido uma história pois, segundo ela, as meninas curtiam meu jeito tímido porém carismático, inclusive ela mesma. Era meu charme, ela disse. E, também de acordo com ela, eu era engraçado e fofo, e que as mulheres adoram homens que as divertem e as cativam sendo eles mesmos, sem forçar a barra e querer pagar de macho alfa. Esses ganham a admiração antes por esses fatores do que pelos atributos físicos. Uau! Como é que eu não enxerguei nada disso e deixei passarem todas essas chances?
Nos beijamos ao som de alguma música romântica de fundo, algo como Celine Dion ou Toni Braxton. São cantoras totalmente distintas, mas a verdade é que eu não consigo me recordar. E eu a pedi em namoro também, com o coração mais disposto do mundo a esquecer que um dia eu traí uma mulher com outras três. Disposto a regenerar minha percepção de amor e compromisso.
Natasha sorriu e com os olhos iluminando a minha vida como um farol numa noite densa, ela aceitou. Mas eu estraguei tudo em menos tempo do que imaginava.


Quando se prova de certas coisas, você acredita que está no controle e todo o desenrolar da situação está sob suas rédeas. Bem, não foi isso que aconteceu depois que eu provei a experiência de trair. Descobri, inclusive, que nem sempre se trai por insatisfação no relacionamento. Depois de ficar com três mulheres diferentes (não ao mesmo tempo) próximo ao fim do meu casamento com Eva, achei que o coração sossegaria ao encontrar amor, carinho e respeito nos braços de Natasha. Todavia, eu fui sendo aos poucos arrebatado pela ideia de ser um homem atraente, misterioso, charmoso. Não, não, não. Não é que eu queira me gabar, mas desde que descobri que um determinado conjunto de atitudes conquistava a atenção e admiração das mulheres com quem eu tive casos, não resisti à tentação de testá-los com outras mulheres que eu considerava atraentes e com as quais eu poderia hipoteticamente me relacionar. A maior parte dos testes me fazia perceber que, se eu fosse mais além na maneira de me comunicar com elas, obteria vantagens, algumas bem prazerosas, se é que você me entende...
E lá fui eu, cinco meses depois de iniciar o namoro com Natasha, me meter a testar as minhas “habilidades” achando que tudo seria uma brincadeira, uma aventura psicológica divertida, um jogo de sedução inofensivo. Mal tinha noção de que, assim como uma droga perigosa, eu estava sendo dominado por essa estranha forma de arte da conquista. Exagerei na dose. Exagerei e fiz exatamente o mesmo que fiz na época do casamento: traí Natasha com três mulheres: Andrea, Natalie e Arlete.
Uma bela noite, cheio de uma coragem arranjada sabe-se lá onde, eu cheguei para Natasha, que estava se preparando para tocar e cantar em algum bar qualquer, e joguei as cartas na mesa. Confessei meu erro e disse que não estava mais aguentando guardar aquilo. Ao menos um ato nobre no meio daquele disfarce de namorado perfeito.
Natasha não era muito sentimental, pelo menos exteriormente. Conversamos numa boa, ela assumiu que saber daquilo a deixava profundamente magoada e que ela jamais esperaria tal comportamento da minha parte. Em pensamento, tive de concordar que nem eu esperaria. Era à parte de mim, como se eu fosse hospedeiro para um Ivan cruel e egoísta com sede desenfreada por estar com outras mulheres.
Os poréns mais intrigantes que eu tive coragem de admitir a ela foram os seguintes: eu nutria um carinho especial pelas garotas com quem tive casos. Não as usei como objetos e sequer as destratei após terem me proporcionado momentos de paixão e desejo. Além do mais, eu simplesmente não conseguia me arrepender. De nadinha. Eu fazia era gostar dessa prática. Eu me sentia livre, envaidecido, dono do meu universo, controlador das minhas vontades, muito embora eu tenha afirmado que essas vontades eram maiores do que eu e, portanto, incontroláveis. No fundo, eu não era coagido a fazer nada, tudo era deliberado e calculado, planejado minuciosamente. Aliás, eu só ia acumulando mais conhecimento sobre como fazer aquilo. Era como um vício, só que um vício do qual eu era amigo, com o qual me identifico e aponta para um Ivan Castro que eu creio que sempre existiu.
Natasha julgou aquilo extremamente reprovável dentro das normalidades num relacionamento a dois. Falou todas essas coisas com todo o cuidado em não parecer ofensiva. Eu tentei abraçá-la e dizer que a amava, mas ela preferiu que não. Ambos sabíamos que eu acabaria repetindo o que fiz, caso permanecêssemos namorando. Para não se machucar ainda mais, ela me pediu que nem mesmo continuássemos amigos, dizendo ela que não falaria de mim por aí nem entraria em detalhes sobre o término do nosso namoro.
Natasha me deixou e eu nunca mais soube de seu paradeiro. Meu coração ficou em pedaços. Por uma semana, talvez. Logo eu estaria à caça de novo.

  
Um tempo depois, tive a ideia de criar a AMANDA. Juntei as iniciais de todas as mulheres com quem eu traí tanto Eva quanto Natasha e resolvi que aquele seria o meu segredinho cretino. É como se eu estivesse zombando do mundo ao meu redor com um nome que revelasse muito do meu verdadeiro eu, ao mesmo tempo em que eu ajudaria homens e mulheres a conquistar seus objetos de paixão, juntando tudo que aprendi com anos de prática, pesquisa e testes.
O lado ruim é que a partir de então eu comecei a colecionar segredos, por que era o mais conveniente a se fazer e me resguardava de dores de cabeça.
No fim, por mais incrível e bizarro que pareça, hoje eu compreendo melhor o lado do meu pai e até do taxista incômodo que me levou ao restaurante na noite em que beijei Natasha pela primeira vez. Não é que trair seja algo legal. Dando um conselho sobre isso, não traia. É um crime afetivo atrelado a diversas delicadezas com as quais nem todo mundo consegue lidar, como a culpa por ter traído e o peso do remorso que isso pode te trazer. Eu não encaro minha vida amorosa múltipla como traição, apenas como uma prática diferenciada.
Sabendo o quanto dá trabalho ter de me explicar sobre isso é o que me mantém atuando em sociedade como se eu fosse só mais um homem comum, um advogado que não exerce a advocacia e dono de um café-bar. Para a esmagadora maioria das pessoas, muitas delas hipócritas fantasiadas de gente decente, sou um monstro imoral e leviano. Para mim, que é o que importa, sou um ser humano falho que apenas tem preferências peculiares e facilmente incompreendidas. Ame ou odeie, este é o verdadeiro Ivan Castro.



23 de maio de 2017

POR QUE "DESAPAIXONANTE" AINDA NÃO VIROU LIVRO FÍSICO?




Desde que terminei a 1ª temporada de “Desapaixonante”, em 2015, venho tentando buscar meios de transformar a história em livro físico, como os romances que estamos acostumados a ver nas livrarias, acessíveis ao público fã de literatura. Imagino a satisfação em poder tocá-la, senti-la, cheirá-la, como se segurasse um filho mesmo.
No entanto, vamos conversar um pouquinho sobre como isso é MUITO difícil.
Para começo de tudo, andei percebendo o quanto muitas pessoas não têm noção de que o caminho entre uma história considerada gostável (sim, eu sou modestinho) e a busca por uma publicação através de uma editora é árduo e, dependendo do dia, frustrante e deprimente. Engana-se quem pensa que é comum acontecer como nos filmes, novelas ou nos próprios livros, em que uma pessoa cria algo genial (seja uma música ou mesmo uma obra literária) e do nada aparece alguém disposto a investir e fazer disso algo grandioso, famoso e bem-sucedido.
Pode até acontecer, mas em geral é puro golpe de sorte. Para alguns autores, especialmente aqui no Brasil, que hoje lotam sessões de autógrafo e possuem diversos seguidores nas redes sociais e inúmeros fãs de suas narrativas, é bem provável que eles tiveram de ralar muito mais do que você imagina.
As histórias são das mais variadas. Tem o Gustavo Ávila, por exemplo, que bancou do próprio bolso um número X de exemplares de seu ótimo O sorriso da hiena, imprimindo diretamente em uma gráfica e dando duro pra montar o site pra vender o livro e dando mais duro ainda para divulgar o livro que, inclusive, levou três anos para concluir. Após um boca-a-boca incrível, Ávila foi agenciado por uma boa agência literária e conseguiu fisgar um contrato com a editora Record (para quem é leigo no assunto, é uma entre as várias editoras tradicionais, nas quais você é pago para publicar, em vez do contrário, e é o que a maior parte dos escritores almeja).
Pois bem, o caminho com “Desapaixonante” tem sido o seguinte: começou com o envio do original todo formatado nos conformes que cada editora solicita (a fonte, o tamanho, como o texto deve estar paragrafado etc.). Tem aquelas editoras que nunca recebem originais e aparentemente os autores nacionais de seus catálogos foram convidados ou ingressaram através de algum agente literário de peso. Há quem diga que muitos originais que chegam às mesas das editoras sequer são lidos, uma informação que eu não descartaria devido ao que já pesquisei sobre o assunto, mas não vamos entrar nesse mérito.
Um autor iniciante (o que não é exatamente o meu caso, mas vou me enquadrar aqui pelo fato de ser pouquíssimo conhecido) precisa rebolar muito, caso ele não tenha grana pra firmar um contrato com uma editora que venda o serviço de publicação de seu livro. Sim, porque uma coisa que muitas pessoas, principalmente consumidores de literatura, não sabem é que editoras que cobram para publicar livros são um ramo comercial muito comum no Brasil, e como toda forma de comércio, possui seus perigos. E quando se envolve dinheiro, entramos em questões muito complicadas. Mas pior do que é isso é quando não só envolve dinheiro, mas também o sonho da pessoa em ter seu livro impresso. Por essas e outras razões, é necessário ter muita cautela e pesquisar bastante para não cair em possíveis armadilhas. Isso sem falar que a maioria dessas editoras não distribui o seu livro, isto é, raramente ele vai parar numa livraria, ficando relegado a ser comprado no site da própria editora ou com o próprio autor, que recebe caixas com 100, 200, 500 exemplares ou seja lá quantos ele “encomendou” e tem de se esforçar para vender, enviar por correio, promover em eventos literários etc. Haja amor, não? Pois é. A quantidade de autores que se submete a isso é infinita, mas vale lembrar que cada um é cada um.
Outra coisa que o autor precisa se desdobrar a fazer é a divulgação. Esta é a parte mais difícil. Compartilhar links das suas histórias no Facebook, Twitter e afins ajuda, mas não cobre nem 10% do que garantiria um resultado legal. Comigo foi assim: a história foi inicialmente publicada no meu blog, como um experimento para ir testando o texto, depois migrei para o Wattpad (onde há todos os tipos de escritores que você nem sonha, e alguns deles estão alcançando sucesso tremendo), onde particularmente minha experiência não é muito satisfatória e, finalmente, fui parar na Amazon. Confesso que me arrependo por ter demorado a decidir publicar o e-book da 1ª temporada de DSPXNT por lá, pois a presença do livro nessa plataforma tem sido muito melhor para que as pessoas o conheçam. Não tem sido melhor financeiramente, mas tem feito uma diferença enorme na divulgação da história, já que tem crescido o interesse das pessoas por e-books, ainda mais nas vezes em que ele está disponível para ser baixado de graça. Antes de prosseguir, observe o seguinte: o objetivo de conseguir publicar um livro nas formas tradicionais não tem o dinheiro como foco primário. Escritores que amam fazer esse trabalho antes buscam muito mais que suas histórias alcancem o maior número possível de leitores. Dinheiro é ótimo, lógico, mas ele é a consequência de uma vitória alcançada antes de ganhos financeiros consideráveis.
Outra coisa que muita gente não faz ideia é que hoje existem muitos produtores de conteúdo literário que ajudam e muito no sucesso de um livro. Blogs, Perfis no Instagram e canais no Youtube são os principais deles, e suas resenhas e opiniões contribuem significativamente para que mais pessoas cheguem até o seu material. São pessoas apaixonadas por leitura, carismáticas, articuladas e que agregam outras pessoas que levam em consideração seus elogios ou críticas a todo tipo de obra literária. E o que isso tem a ver comigo? Encontrei muitos dispostos a me ajudar, o que acabou realmente acontecendo e trazendo mais visibilidade ao meu livro. Sou e serei imensamente grato a esses seres humanos tão fantásticos! Porém, chegar até essas pessoas não é fácil. A princípio, algumas das que eu conheci possuem Mídia Kit, o que basicamente é um pacote de serviços onde, mediante pagamento de determinados valores, você descola a chance para que o seu livro ocupe um espaço em suas redes sociais, seja para uma divulgação breve, uma menção num vídeo ou uma resenha exclusiva. Não reprovo, pois essas pessoas têm competência para isso e estão corretas em valorizar seu trabalho, mas em geral não tive como arcar com vários dos valores que me foram propostos. Felizmente, entre serviços pagos e não pagos, a imensa maioria colaborou comigo por puro amor e admiração pelas peripécias de Sávio e Milena.
Recentemente, suscitei os seguidores do perfil de “Desapaixonante” no Instagram (@desapaixonante_oficial) a sugerirem o livro para as editoras, como forma de reforçar através de mensagens, e-mails e posts que essa história existe, tem bom recebimento do público leitor e poderia interessar a eles, já que ela tem uma proposta de literatura de fácil entretenimento.
Por fim, após todo esse caminho, tem o fato de você chamar atenção da editora ou não. E aí haja criatividade, paciência e bom senso. A maior parte dos autores nacionais que hoje conseguiram isso têm vários fatores em comum: ou sofreram anos investindo (tempo, dinheiro etc.) na divulgação de suas obras ou conseguiram um número gigantesco de leitores em plataformas como Wattpad (por exemplo, perto de um milhão em diante). Tem aqueles que aceitaram pagar fortunas para realizar o sonho e, com o tempo, conseguiram seu lugar ao sol e (eu espero) seu investimento de volta, rsrs...
Para não parecer que eu estou pintando as editoras brasileiras como vilãs, vale ressaltar algo justo: editoras são empresas. Já deve ser bastante arriscado apostar no mercado editorial no Brasil, então imagine arriscar em algo que não se tem uma garantia de venda e lucro. O fato de haver pessoas que digam que amam “Desapaixonante” ou que vão comprar quando sair em livro físico não significa que isso vá dar retorno financeiro à editora que resolver lançar o produto. É por isso que há muito mais livros estrangeiros entre os mais vendidos e mais ofertados, pois eles já vieram de seus países com índice de vendas estupendo.
Entretanto, de uns tempos pra cá, tenho visto as editoras mais abertas a essa demanda por literatura nacional. Eles estão notando que existe gente produzindo textos bons e dignos de dividir as prateleiras com nomes em maior evidência. Talvez seja essa visão otimista que me deixa continuar lutando por esse desejo de alcançar um lugar para a minha literatura e fazer as pessoas pararem para ler o que a minha imaginação concebeu, e se alegrar com as coisas doidas, divertidas e absurdas que eu gerei com tanto amor.

Por hoje, o jeito é seguir até se esgotarem todas as chances.

12 de maio de 2017

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x07: HOJE NÃO



(Denner)

Enojado, afasto-me da soleira da porta do banheiro-cativeiro. A cabeça rodopia sem pena. O que eu acabei de ver?
“Vamos lá pra sala conversar”, Olívia diz, enquanto fecha a porta.
Eu não respondo, mas por dentro estou agradecendo pela sugestão.
Durante os segundos em que Olívia fecha a porta, ainda consigo ouvir os grunhidos das duas pessoas idênticas à dupla misteriosa que anda me enchendo de preocupação.
Sento-me numa cadeira de estofado e encosto brancos, tentando processar o emaranhado de pensamentos que chovem na minha mente e a deixam alagada.
“O que... o que...”, gaguejo, paro pra respirar. “O que foi isso? Aquelas pessoas são iguaizinhas a vocês. Como pode? São tipo uns sósias? Irmãos gêmeos, sei lá?”
“Calma, querido!”, preocupa-se Pedro. “Esse choque inicial é normal, mas a gente vai te explicar”.
“Elas não são nossas sósias, nem ‘iguaizinhas’ a nós”, fala Olívia. “Tecnicamente, elas são nós. A explicação não é simples, mas se você prestar atenção, vai dar pra entender”.
“Como assim elas são vocês?!”, principio um surto, meneando a cabeça pra lá e pra cá. “Vocês estão aqui comigo, de pé bem na minha frente, não estão amarrados, não tem nenhuma mordaça na boca de vocês. Aquelas pessoas ali... Caraca!! Elas foram sequestradas. Tem uma mordaça na boca de cada um. Vocês raptaram aquelas pessoas.  E do jeito que elas estavam com uns olhões esbugalhados de susto, tenho certeza que elas queriam minha ajuda”.
“Escuta, Denner, a gente teve que fazer isso”, diz Pedro. “Quando Olívia e eu viemos pra cá, acabamos nos deparando com as nossas versões deste mundo que, curiosamente, também se conhecem e mantêm uma certa... hum... amizade. Sim, eu sei, desprezível e improvável, não é? O problema é que eles também estão por dentro de coisas como universos paralelos e outros assuntos que a maioria das pessoas considera fantasiosos”.
“E quando eles perceberam que estávamos por perto”, Olívia continua contando, “rapidamente vimos que isso poderia nos meter em alguma enrascada indesejável. Não estamos aqui pra lidar com esse tipo de coisa, então não poderíamos deixá-los nos atrapalharem”.
“E aí sequestraram eles”, concluo. “Quero dizer, sequestraram a si mesmos”.
“Olhando por esse lado, soa até divertido”, ela comenta, com as sobrancelhas levantadas.
“Detesto admitir, mas não é que você tem razão?”, Pedro se diverte.
“As curiosas maravilhas de transitar entre os universos”, deleita-se Olívia.
“Com licença”, digo. “Acho que as explicações ainda não acabaram, né?”
“Ah, é verdade, querido”, diz Pedro. “Bom, tivemos que sequestrá-los, como você já entendeu, mas assim que terminarmos a nossa missão, vamos soltá-los. Fomos instruídos a simplesmente fazer nosso trabalho e ir embora, ou seja, o foco aqui não é trazer à humanidade a revelação de que a teoria de múltiplos universos está correta”.
“O que seria um grande desperdício, pois esse tipo de informação é precioso. Todo conhecimento é bem-vindo e libertador”, filosofa Olívia.
“Então vocês estão dizendo que existe mais de um universo, além do nosso?”
Eles riem, porém não de escárnio. É como se eu fosse um bebê aprendendo a andar.
“Engraçado”, comenta Olívia. “Quando você diz ‘nosso’, automaticamente está excluindo a mim e ao Pedro, enquanto que, pra nós, este universo é que é o ‘outro’, sabe? Como eu falei antes, são as maravilhas de se transitar entre os universos. Claro que existem vários pontos negativos imperdoáveis. Por exemplo: como pode o David Bowie estar morto aqui?”
“Como pode a Joelma ser a presidente do Brasil no seu universo?”, retruco.
“Mas que audácia!”, ofende-se Pedro. “Pois fique sabendo que do lado de lá, a Joelma é uma mulher extremamente elegante e fina”.
“Detesto admitir, Denner, mas o Pedro tá certo. Apesar de eu não concordar com algumas medidas que ela vêm adotando pelo país... Mas a Joelma do seu mundo, nossa! Não deu pra engolir uma mulher que eu conheço como tão séria e culta rebolando a bunda daquele jeito, naqueles trajes questionáveis e com aquela música infernal”.
“Ah, a música até que era gostosinha”, opina Pedro. “E aquele bate-cabelo dela é um arraso, vamos combinar”.
“Tá, tá, tá. Isso não é o importante aqui”, desconverso, e sei que meu estado de choque ainda está evidente.
“Então, Denner? Acredita na gente?”, instiga Pedro.
“No momento, acho que sim”, suspiro com certa hesitação. “Que outra explicação existe pra isso? E ultimamente só têm acontecido coisas doidas comigo, então... sim, eu acredito”.
Então, como um clarão ofuscante, dou-me conta de um fato:
“Se vocês vieram de um universo paralelo, então a Rita Lina, a minha amada namorada Rita Lina, é de lá? Essa é a casa dela, que vocês tanto falam?”
Ambos assentem com um breve gesto de cabeça.
“E estão esperando o quê pra começar a explicar? Se ela é de lá, como é que ela tá aqui?”
“Bom, Denner”, Olívia assume a explicação, “nós até podemos te explicar essa parte, só que de uma forma indireta. Tudo que eu posso te adiantar agora é que não sabemos exatamente como ela veio parar aqui”.
“Ah, essa é boa”, gracejo. “Então quer dizer que até vocês também têm dúvidas sobre essa missão?”
“A missão não precisa dessa informação”, replica Pedro.
“Assim como a nossa contratante nos autorizou a te mostrar o que havia naquele banheiro, ela também nos deu outra ordem: nós vamos atrás dos pais da sua namorada e dar um jeito de convencê-los a nos entregar a Rita. Então, se você quiser saber da verdade, fique à vontade pra ir com a gente. Lá você vai ouvir tudo. Mas a partir desse momento, não precisamos mais de você”.
“Não te dá um alívio, Denner?”, indaga Pedro, extremamente alegre. “E a gente nem vai ter de te matar!”
No momento, não estou preocupado com isso. Agora que sei do que sei (apesar de haver mais perguntas quanto mais eu penso que sei de alguma coisa), Rita Lina é a única coisa que me importa, mais até do que a minha própria vida. Por mais que eles não precisem mais me matar, os problemas estão longe de terminar. Preciso descobrir um jeito de impedi-los.
Penso tudo isso controlando até as batidas do coração. Um pensamento oral vazando agora seria meu fim.



(Milena)


Por que uma pessoa se mete na vida de outra com as intenções mais coloridas e românticas possíveis, só para destruir tudo que foi construído, sem a menor piedade? O que há na mente de uma pessoa que pratica esse tipo de ato tão deliberadamente que te faz questionar se há qualquer resquício de empatia em tal indivíduo?
Quem Ivan Castro é? O que Ivan Castro é? Um psicopata? Sociopata? Apenas um safado que não consegue segurar o pinto dentro das calças e precisa seguir cada rastro de feromônio que se alastra pelo ar? Sempre se ouviu dizer que os homens são todos iguais, mas Ivan conseguiu se superar a todas as referências de canalhice das quais eu já tomei conhecimento.
“Tá pensativa hoje, hein”, comenta o pilantra, aproveitando o aconchego do meu sofá.
Eu sorrio, nota dez em simpatia e amabilidade. Me aninho em seus braços enquanto vemos uma comédia romântica na Netflix. A hora está se aproximando.
“Quero um pouco de vinho”, levanto-me. “Bebe comigo?”
“Claro, amor”.
Mas é claro que ele bebe. Ele é o cavalheiro perfeito que não deixa sua dama beber sozinha.
Ele continua fingindo que curte o filme, apenas para me agradar. Enquanto busco a bebida, me pergunto quantas outras coisas ele fingiu só para me manter no seu engodo,  e me fazendo crer piamente que ele fosse o namorado mais primoroso do mundo. Rita Lina tinha razão: esse desgraçado tem um cérebro formidável, lindo. Mas seus dias de ter tudo sob controle estão findando.
“Amor”, eu lhe estendo um copo com três dedos de vinho.
“Tá bem geladinho, deve estar uma delícia”.
“Guardei pra ocasião certa”, declaro, dando uma piscadela. “Não acredito que ela vai voltar pra esse cara”, comento, dando uma de revoltadinha pelo andar do enredo do filme, que eu já deixei de prestar a devida atenção há um bom tempo.
“É assim mesmo”, responde Ivan, dando um generoso gole no vinho. “Esses filmes precisam mostrar que o amor têm de vencer no final”.
“Ai, sério? Eu não desejo uma história de amor dessas nem pros meus inimigos. O cara sacaneou a menina o filme quase todo”.
“É só um filme, amor”.
“Hum”, resmungo. “Se um cara mentisse desse jeito assim pra mim, mandava passear. Ainda bem que eu tenho você. Amor, a gente nem brindou”.
Ele ri sem-graça (ou da minha cara, o que é mais provável), me beija suavemente. Na certa, está pensando em como eu sou otária e ingênua, que ele está me usando como um fantoche bobão. Será que em nenhum momento bate um remorso? Mesmo que seja um remorso de gente escrota, que vem e passa mais rápido que uma brisa. Pelo menos, seria algo que o aproximaria de um humano normal, certo?
“Um brinde a nós dois”, ele diz, usando uma entonação que, em outras circunstâncias, me derreteria toda. No entanto, hoje tenho a mais clara certeza de que não passa de um truque. Malditos vampiros emocionais como Ivan Castro!
“Um brinde a nós dois”, repito, com a serenidade no olhar de quem já trocou o status de “enganada” no Facebook do meu coração. Esse pensamento tosco dá até vontade de rir, mas é melhor continuar o jogo da Milena bestinha.
Copo com copo. Está brindado. Cada um bebe o restante que há de seus respectivos conteúdos. De algum modo, ele tá sacando que existe algo brilhando diferente no meu olhar. Como se eu fosse uma Milena diferente. Iluminada, talvez. Esclarecida. Em pleno processo de desapaixonamento.
“Hoje você tá um pouco mais romântica. Tem alguma coisa aí. O que foi que aconteceu?”
“Você acha?”
“Tá mais apaixonada por mim, é?”
Aproveito e finjo um riso tímido, mas por dentro estou gargalhando feito uma louca pela insistência dele em se achar irresistível. Quando você descobre a verdade sobre uma pessoa, ela se transforma em alguém praticamente diferente diante de seus olhos. È como se toda a beleza, todo o encanto e todo o charme que me ganharam tivessem se dissipado tão logo a máscara caiu. Um pano que cai revelando o homem por trás da cortina, tal qual Dorothy ao encontrar o mágico de Oz. Não que Ivan tenha deixado de ser um gato, porém o poder e relevância que isso costumava ter sobre minhas percepções a seu respeito agora é fraco e vai ficando cada vez mais fraco. Inofensivo. É como uma fruta que perdeu o sabor e a suculência.
“Tá sentindo soninho, meu bem?”, do nada, pergunto.
“O quê? Como... Como é que você sabe que...”, ele começa a ficar zonzo, a língua se enrola, o olhar vai ficando anuviado.
“Agora você vai dormir”.
“Dormir? Não, eu não quero dorm... Eu não tô entend... eu... o que tá...”
“Quando você acordar, seu filho de uma puta, a gente vai ter uma conversinha bem séria”.
“Milena...”
Ele desaba no sofá, mal teve tempo de processar minhas últimas palavras. Tive dúvida se exagerei no calmante, mas acho que a dose que pus no vinho foi apenas grande para acelerar que ele apagasse.
Preciso me apressar.
Daqui a algumas horas, Ivan Castro vai ter de lidar com um confronto que vai fazê-lo se arrepender de ter me conhecido.


(Denner)

O telefone toca. Número desconhecido.
“Alô!”, atendo, com uma nota de suspeita na voz. É a primeira vez que percebo, mas acho que sempre faço isso quando o número é desconhecido.
“Alô. Senhor Denner Corrêa, aqui é Bóris, mordomo do escritor best-seller Hektor Casanova. O patrão manda perguntar se tem novidades sobre o caso dele.”
Estou na minha sala, na ANNA, e Sávio está presente, me olhando enquanto me aguarda terminar de responder ao telefonema.
“Bóris? Ah, oi. Que estranho! Por que o seu patrão não ligou ele mesmo?”
“O patrão está ocupado escrevendo a avassaladora cena da morte de Rebecca Vasconcelos pelas mãos de Alfredo Barbosa. Porém, ele me deu total aval para lidar com quaisquer novidades sobre o caso dele, caso o senhor tenha algo a dizer”.
“O quê?!”
“O patrão me deu total aval para...”
“Não, não, não! É que você acabou de me dar um mega spoiler sobre o próximo livro dos Detetives da Noite, Bóris, só isso”, explico, irônico e disfarçadamente irado. Sujeitinho cretino duma figa! E eu nem sonhava que o Heitor Barbosa pudesse matar alguém, um homem tão pacato e distinto. Bom, certamente não deve ter matado Rebecca com a mesma frieza com que Bóris matou minhas expectativas pelo próximo volume da série.
Sávio está com ar risonho, decerto tentando imaginar o que se passa na ligação.
“Diga ao Hektor que ainda não consegui resolver a situação dele, tá? Eu tô tendo de reler toda a série Detetives da Noite pra ver se consigo detectar algo que ajude no caso”.
“Hummm...”
“Algum problema, Bóris?”
“O senhor gosta de lambada, senhor Denner?”
“Oi?”
“Oi, tudo bem? Perguntei se o senhor gosta de lambada”.
“Ahn... Eu... Não sei, nunca parei pra pensar sobre isso... Lambada, que você diz, é a música?”
“Isso mesmo, a música”.
Desencosto o telefone do ouvido e olho para Sávio com olhar de total confusão. Ele devolve dando de ombros.
“Olha, Bóris, não sei te responder, sinceramente. Mas por que a pergunta? Hektor te pediu pra perguntar, foi?”
“Não”, ele começa a cochichar, dando um rumo inesperado de segredo à conversa. “Mas logo o senhor entenderá a natureza da minha pergunta. A propósito, como estava a torta de cereja?”
É melhor eu dar um jeito de encerrar logo essa ligação, pois estou com medo de que ele prossiga com essas perguntas absurdas. E do jeito que o anão não tem o menor filtro para spoilers, preciso me prevenir antes que me jogue mais uma bomba que estrague minha experiência de leitura.
“A torta estava deliciosa, Bóris. E o café também. Dê meus parabéns à sua irmã. Preciso desligar, tô com um cliente precisando de mim. Tchau!”
“Darei os parabéns a ela, Sr. Denner Corrêa. Pode deixar. Mas o senhor ainda não viu do que essa torta é capaz. Até breve!”
Desligo, um pouco chateado. Chega de enigmas, droga!
“Dá pra acreditar nisso, Sávio?”
“Quem é esse tal de Bóris?”
“É um anão que trabalha de mordomo na casa do Hektor, o meu escritor favorito que agora é nosso cliente. Além de me dar um baita spoiler do próximo livro que o patrão dele ainda tá escrevendo, ficou me enchendo o saco com umas perguntas bizarras. Cara, tô cansado de ficar cercado de gente doida, viu?”
“Denner, eu não entendo como você foi pegar o caso desse homem. O cara tá apaixonado pela personagem que ele mesmo escreveu. Você já parou pra analisar que viagem? Se esquizofrenia e egocentrismo se casassem, essa paixão seria o filho deles”.
“Eu não sei, Sávio. Perdi o controle da normalidade dos meus dias. Tô com medo das decisões que eu penso em tomar”.
“Não fica assim, Denner. Não sei se serve de consolo, mas você não é muito normal também”.
“É”, sou obrigado a concordar. Mas será que devo agradecer? Tá tudo tão confuso...
“Mas e aí? Continua me falando dos tais Pedro e Olívia”.
Antes de Bóris me interromper, eu estava contando para o meu chefe todas as coisas que têm me acontecido desde que conheci Pedro e Olívia. Um tanto receoso, já que eles podem até parecer (veja bem, parecer) legais, mas há algo de perigoso neles.
“E eu vi, Sávio, num banheiro meio desativado do apartamento deles, a coisa mais esquisita e inexplicável da minha vida. Pedro e Olívia abriram a porta e me mostraram Pedro e Olívia sentados no chão, amarrados e amordaçados. Você tá entendendo? Pois eu não tô entendendo é nada. Tipo, será que essa coisa de universos paralelos é mesmo possível?”
Sávio prefere se manter quieto. Espero que não esteja me julgando, afinal ele mesmo afirmara que eu não sou muito normal.
“Se eles estão ameaçando você e a Rita, por que você não liga pra polícia?”
“Não sei”, declaro, sem a menor intenção de mudar a situação. “Eu queria poder resolver isso sozinho. Ou melhor, sem envolvimento de polícia, sem me encrencar, entendeu?”
“Sem se encrencar?”, repete Sávio, e eu não sei se ele está juntando as peças. “O que você quer dizer com isso?”. Confirmado: Sávio não está juntando as peças.
Sem dizer palavra, encaro meu chefe com meus olhos aterrorizados e preocupados. Sou um homem em choque, pronto a tomar qualquer decisão descabida em nome da mulher que ama e, talvez, pra manter a própria sanidade.
“Se eu pudesse”, começo a esclarecer, “eu daria um jeito de sumir com esses dois. Eles não podem levar a Rita Lina embora. E algo me diz que se eles não conseguirem o que querem, vão acabar apelado pra alguma forma de violência e a coisa não vai cheirar bem. Então, Sávio, a única alternativa que passa pela minha cabeça é... matá-los”.
“Ok, ok! Agora sim eu acredito”.
“Acredita? Na história dos universos paralelos? Graças a Deus! Pensei que você tava me achando um idiota”.
“Não!”, exclama Sávio. “Eu sou um nerd, Denner. Nunca duvidei desse tipo de coisa. Eu sempre imaginei como seria uma outra versão de mim por aí, o que essa versão estaria fazendo, se leva a mesma vida que eu... Será que curte as mesmas coisas que eu? Mas eu não tava me referindo a isso. O que eu acredito agora é que você perdeu o controle das suas decisões, isso sim. Esquece essa ideia, você não vai matar ninguém”.
“Mas eu preciso fazer alguma coisa!”, insisto.
“É, mas não cometer um crime, né? Tirar uma vida, já pensou?”
“No caso, duas”.
“Quanto mais vidas, mais tempo de cadeia, meu amigo”.
Com o jeito que Sávio me olha, notavelmente consegui (embora sem querer) arrastá-lo para a minha preocupação.
“Vou pensar em algo pra te ajudar, Denner. Te juro.”
“Obrigado”, agradeço com resignação, mas sem aquele alívio que percorre a alma quando se encontra a solução de um problema.
Sávio está certo. Minha compreensão dos fatos andava tão turva que eu não me dei conta do tamanho da burrada que seria se eu matasse Pedro e Olívia. Mesmo eles nunca tendo descartado que poderiam me matar. Entretanto, eu não sou eles. Já existem versões demais desses dois. E eu não teria capacidade e nem habilidade para liquidar com alguém. Alfredo Barbosa, de Detetives da Noite, também sempre se passou por alguém incapaz de tal ato. Devo esperar sair o livro para, de repente, pegar umas dicas?
Está mais do que claro que eu preciso manter os pés no chão, focar no mundo real e lidar com as responsabilidades. Eu só preciso encontrar a melhor solução para essa questão adversa. Mas o que fazer?
Olho para a escrivaninha, o volume III de Detetives da Noite marcado na página 58. Só para me lembrar que ainda tem mais esse abacaxi pra resolver.



(Milena)

Ele acorda. Aos poucos, não de supetão. Deve estar se sentindo despertando de uma ressaca desgraçada e injusta, afinal, que sacanagem ficar de ressaca sem nem ter bebido tanto!
Sou a primeira visão que ele tem quando sua consciência vai se expandindo. Quem o vê desse jeito, indefeso e frágil, preso por algemas a uma cadeira certamente desconfortável, pode até imaginar que se trata de um santo pego sem culpa.
“Milena?”
Sua primeira reação é típica e óbvia de quem foi dopado e trazido para um local ermo, mas ao invés de se deparar com sequestradores mal-encarados, dá de cara com a namorada. Melhor dizendo, com uma delas. Sentada numa cadeira melhorzinha, um copo de chá gelado de pêssego na mão.
“Ivan”, respondo, cortês, sem disfarçar o sorrisinho de prazer.
“O que é que tá acontecendo? Onde eu tô?”
Ele move os braços, numa tentativa ridícula de confirmar se realmente está preso.
“Desculpa o espetáculo e todo esse drama de algemas, mas... achei que era a sua cara”.
“Minha cara?”
“Sabe, Ivan”, introduzo, inclinando-me um pouco para a frente, “você provou pra mim que o meu lema sempre esteve certo. Todo mundo pode ser desapaixonante. Até hoje não conheci uma viva alma que me convencesse do contrário. Quase você conseguiu, mas nem mesmo você escapou. E sabe o que eu penso com tudo isso? Que fica cada vez mais difícil encontrar alguém que não seja”.
“Amor, você pode me explicar do que se trata tudo isso?”
“Às vezes a gente não se atenta pras coisas que estão na nossa cara, mas é que elas estão tão camufladas em meio a evidências que a gente alimenta. A gente insiste em fazer vista grossa pra alguns pontos que não harmonizam com a imagem completa, e é nesses pontos que mora o perigo, porque a gente não vigia, achando que os outros aspectos compensam essas pequenas coisas. E o irônico nisso tudo é que eu sempre soube disso, mas só agora eu vim experimentar na pele essa informação. O fato de você não ter redes sociais, não gostar de que eu poste fotos nossas nas minhas redes, embora pra um homem como você seria completamente normal ter conta no Facebook ou no Instagram. Mas não! Você não pode se expor. Você não pode deixar rastros tão estúpidos que estragariam essa vida que você adora levar. Ivan Castro! Um homem meticuloso e preocupado com os detalhes. Parabéns! Você quase conseguiu”.
“O que é isso, Milena?”, para alguém que estava semi-zonzo, agora está sério até demais.
“Não se faz de bobo pra cima de mim, Ivan. Aja como homem, seja maduro. Essa sua malandragem já não é mais segredo. E você sabe do que eu tô falando. Então, pode cortar o papo furado!”
“Amor”, ele volta a adotar um comportamento mais terno, “o que foi que te falaram? Hein? Me viram com alguma outra pessoa, foi isso? Calma, eu posso te explicar. Não precisava você ter me trazido pra... Que lugar é esse?”
“É um lugar bem longe da zona urbana. E isso aqui é um antigo galpão. Eu não te falei que tava dando espetáculo? Pois é! Nada menos para o maior enganador de todos os tempos. Talvez você sentiu falta de um palco enquanto me fazia de trouxa e me vendia suas historinhas, então olha ao seu redor: esse galpão é grande o bastante pra você? Finge que esse aqui é seu palco. Mas com uma diferença: agora eu sei que você é um ator, meu querido”.
“E essas algemas? E por que me trazer aqui? A gente tava na sua casa, não tava? Por que não me chamou pra conversar lá?”
Respondo com um fiapo de sorriso. Numa mesinha à minha frente há um controle remoto, que liga a TV atrás de mim. Há um pendrive conectado à televisão. Viro-me para o aparelho, seleciono a função de vídeo, escolho o arquivo e deixo no ponto de apertar o play.
“Eu não quero mais conversinhas fiadas, Ivan. Depois que você terminar de ver esse vídeo, eu não quero mais que você finja que não fez o que você fez. Eu quero conversar com um homem de verdade. Quero dizer, pelo menos um homem que assume suas merdas, mesmo eu sabendo que depois vai continuar dando um jeito de se safar. Quando você terminar de assistir a esse vídeo, Ivan, eu quero que você me respeite da maneira que você jamais me respeitou”.
Ivan se cala. Engole em seco. Seu semblante inicia um processo de desabamento, ciente de que foi pego.
Dou play no vídeo.


Pouco menos de meia hora depois, o vídeo termina. Desligo a televisão, volto a me sentar, desta vez com as pernas cruzadas e o corpo contra o encosto da cadeira. O chá gelado indefectível na mão, infelizmente já não tão gelado assim.
“Me perdoe”, murmura ele.
Não respondo. Vamos deixar o animal acossado se desvencilhar da armadilha. Ou se acossar mais ainda.
“O que eu fiz não foi nada legal. Foi um erro. Um grande erro”.
Continuo só analisando.
“Como você descobriu isso? Foi você quem gravou esse vídeo?”
Essa é a preocupação do cafajeste?
“Eu estou envergonhado”, afirma Ivan, todo solene.
De fato, a metáfora sobre isso aqui ser um palco cai bem, porque o danado é bem convincente. Se eu me descuidar, acabo caindo na história de que ele está morto de vergonha. Se bem que... vergonha e arrependimento não são sinônimos, né?
“Você pode, por favor, falar comigo? Milena?”
“Eu quero saber o porquê”.
“Milena...”
“Eu estava contando os dias por esse momento. Eu não vou perder o gostinho de ter chegado até aqui. Eu quero saber o porquê.”
“Amor...”
“Milena. O meu nome é Milena. A partir de hoje, sou simplesmente Milena pra você. E você tá com sorte de eu permitir que você pronuncie o meu nome”.
“Isso parece coisa de adolescente”, ele me critica.
“É mesmo? E é assim que você acha que vai me fazer desistir de arrancar de você a verdade? Que eu vou tirar suas algemas e deixar você ir embora livre pra voltar a sacanear outras mulheres?”
“Amor...”
“MILENA!!!!”
Vejo um tremor em seus lábios. Gritei com ele e o orgulho do bonitão ficou feridinho, tenho certeza. Ele se recompõe, volta a falar:
“Milena, essas outras mulheres que apareceram nesse vídeo... Eu posso explicar cada história e como eu fui me envolvendo com elas. Eu não as amo tanto quanto amo você. Por você eu sou capaz de mudar, de verdade. Se eu puder ter mais uma chance, por favor. Eu sei que eu posso te provar o que eu tô dizendo. As pessoas falham, não é? Infelizmente essa é a minha falha, eu cometi um erro gigantesco. Mas me dá essa chance pra consertar. Caramba, a gente tem vivido tanta coisa bacana, não tem?”
Relaxo os ombros, amoleço o corpo. Quase deixo o copo de chá despencar da mão. Penso sobre o que ele está dizendo. Esse florescimento de novas promessas, o doce tom de voz investido para fazer dançar na minha cabeça todas essas palavras...
“E quanto a elas, Ivan? Algumas delas são suas namoradas há anos! Eu sou a mais recente. Como é que você pode me amar mais do que ama a Ágata ou a Valéria ou qualquer uma das outras?”
“Não é pelo tempo que você tá com alguém que te faz amar essa pessoa”.
“Difícil de acreditar em você”.
“Nenhuma delas é você, Milena”.
“Não adianta tentar me enganar”.
“Enganar?! Por acaso você não vê nos meus olhos toda vez que eu digo que te amo? Todas as vezes em que estamos juntos? Não consegue perceber no meu toque, no meu carinho, todas as vezes em que a gente faz amor? Qual é, Milena, eu sei que você sente aí no seu coração que tudo isso é verdade. Que apesar de ter errado feio, eu sou um homem que pode te fazer feliz, que tem feito você feliz, pra ser mais exato”.
“Você me traiu. Eu não merecia isso. Nem as outras”.
“Eu sei, Milena. Mas eu... Nossa!!”, ele suspira. “Eu te prometo pela minha vida que eu vou consertar essa burrice. Vamos! Por favor! Eu mereço ser perdoado, Milena”.
Tento não piscar para não perder um só movimento, uma só frase. Ivan é sedutor, hipnótico, cativante. Não é recomendável enfrentá-lo sem ter cortado totalmente os laços afetivos com ele, do jeito que eu estou fazendo aqui. No entanto...Tudo que chega a mim são palavras vazias, com a agilidade de uma faca cega. Meu coração está aprendendo a se blindar.
“Quer saber, Ivan? Hoje não!”
Ele deixa escapar um olhar de surpresa quando me vê levantar.
“Meninas!”, eu me viro para trás e grito. Mas imediatamente me torno para observar sua reação, porque por essa ele certamente não estava esperando.
Do lado mais escuro do galpão elas vêm, lado a lado, exibindo fisionomias que variam entre indignação, tristeza e nervosismo. Fico alternando entre olhá-las se aproximando e acompanhar a cara de Ivan cada vez mais embasbacada pelo que se configura diante de seus olhos incrédulos. Quero vê-lo tentando se explicar e argumentar para seis mulheres traídas juntas.
“Gostou?”, provoco. “Seu time de namoradas tá completo agora”.