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3 de novembro de 2016

DESAPAIXONANTE-- EPISÓDIO 3x11 (final de temporada): TOUS LES GARÇONS ET LES FILLES





(Denner)

Mesmo há poucos meses atuando como agente do desapaixonamento, eu até que peguei bem rápido as manhas do ofício. Vale lembrar que o próprio co-fundador da empresa identificou em mim um talento nato. Não quero me gabar, mas isso deu uma inflada enorme no meu ego. Em minha defesa, eu diria que tava necessitado de me sentir importante para a sociedade. E que forma mais deliciosa eu poderia querer? Ajudar a extirpar o câncer das paixões indesejadas é um trabalho de arte e, como tal, não é pra qualquer um. Ah, não é mesmo.
No entanto, vou ser sincero. Apesar de estar numa posição que agora me proporciona muito prazer, ainda sinto que preciso avançar e ser melhor aproveitado nesse mundo. Eu sei que posso ir além. Tenho até uns sonhos secretos, pelos quais sinto imensa surpresa de ainda não tê-los revelado para todos. Sabe, a coisa toda dos “pensamentos orais”, meio que é difícil ficar escondendo segredos e informações confidenciais. 
Meu sonho mais secreto é lançar um livro de contos que eu venho escrevendo desde os quinze anos. Às vezes eu escrevo, quase sempre quando estou entediado ou triste. E nos últimos anos isso rolou com certa frequência. Eu guardo a sete chaves um pendrive com todos os 150 textos que eu já produzi. Obviamente que nunca vou colocar todos num livro, pois um autor que se preze precisa ter senso de seletividade. Graças a Deus que nem Glenda e muito menos Lucas sabem sobre isso. Glenda riria da minha cara por um dia inteiro e Lucas destruiria o pendrive a marretadas, na certa rosnando entredentes que não há espaço para mais uma estrela na família que não ele. 
Aí é que está: eu não quero ser uma estrela. Eu só quero ter meu livrinho, torná-lo real e palpável. Seria como ter um filho, uma cria gerada pela minha mente e minhas mãos, lançada para o mundo poder abraçar e adotar também como seu próprio filho. 
“Eu já terminei de ler tudo”, informa Rita, a única a quem tive a audácia de abrir essa porta da minha vida para alguém entrar. 
Estamos sentados num banco de praça, cada um segurando um desses sacos pequenos de amendoim com caramelo e canela. É fim de tarde e dá para ver pessoas praticando jogging, levando cães pra passear e alguns grupos de piquenique espalhados pelo gramado do lugar. Nosso banco é sombreado por uma árvore cujo nome eu desconheço, mas que atira pequenas flores amarelas ao vento. 
“Deu pra gostar de pelo menos uns dez?”, é a primeira coisa imbecil que me vem à cabeça, quando na verdade eu devia ter ficado surpreso por ela ter lido tudo em menos de 24 horas.
“Gostei de mais de dez, isso eu garanto”, ela diz, sorrindo. “Você tem um estilo próprio, Pokémon. Eu não conheço muito de literatura, mas o pouco que trabalhei naquela livraria me faz pensar que seu livro não faria muito sucesso com a galerinha mais descolada. Mas isso porque os seus contos realmente têm algum conteúdo, e a maioria dos leitores de hoje só querem historinhas batidas”.
“Amor, assim eu fico sem jeito”, derreto-me. “Tem algum conto que você gostou mais?”
“Ah, eu gostei daquele sobre o homem que acorda num mundo completamente diferente do seu e descobre que ele sempre foi um bug de computador que tinha raciocínio próprio, ou seja, por isso que ele era tido como estranho por todos ao seu redor, quando na verdade ele era o mais sensato”.
“Aaah, sim!! ‘A Ovelha Negra’. Esse também é o meu preferido”, respondo, muito satisfeito pela coincidência.
“Eu gostei mais desse porque me identifiquei muito com o Douglas”.
“Por quê? Você também se sente um bug de computador?”, brinco. 
“Não, Denner!”, ela começa a rir um tanto espalhafatosa. “Amor, às vezes você tem umas ideias bizarras, viu? Isso nem me passou pela cabeça”, ela faz uma pausa para apanhar uns amendoins no saco, põe na boca e continua a se explicar, entre mastigadas. “Eu tô falando do fato de ele gostar de escutar música rodando os discos de trás pra frente. De onde você tirou essa ideia? Achei o máximo! Sem falar que algumas letras de música ficam mil vezes melhores ao contrário. Recomendo ouvir ‘Faroeste Caboclo’, viu? Ouvida ao contrário, ela conta uma história maravilhosa sobre golfinhos que auxiliam a polícia a desvendar um caso complexo de assassinato. Pena que os golfinhos não conseguem ingressar na polícia. Ignorância!”
“Pra falar a verdade, eu não tirei de lugar algum. Foi uma ideia meio aleatória”.
“Apesar do que eu disse sobre os leitores de hoje, te dou o maior apoio pra você tentar mandar pra alguma editora, sei lá. Ou a gente poderia tentar publicar em Valpixia. Lá seria mais fácil de conseguir visibilidade e faria muito sucesso entre os valpixianos”.
“Obrigado, amor. Acho que eu vou pensar nessa história de editoras”.
“Isso, meu Pokémon lindo!”
Enquanto ela me ataca docemente com beijinhos lambuzados de caramelo e canela, vou ponderando o quanto não é muito animador saber que minhas histórias teriam sucesso garantido num planeta desconhecido (e muuuuito provavelmente fruto da imaginação da minha namorada). E sobre editoras, não sei se tô a fim de pensar nisso. Mas não posso negar que Rita e essa nova fase da minha vida estão me ajudando a ser mais confiante. Já posso imaginar meu nome numa caprichada edição luxuosa de capa dura, noite de autógrafos lotada, minha família testemunhando minha glória e...
Ah, Denner, vai devagar nas divagações... 
Humm... Esse trocadilho cairia bem num próximo conto...
“Adorei também”.
Eu olho espantado para ela, mas no segundo seguinte me toco. Pensamentos orais pairando ao redor.
Pego o telefone para rabiscar a frase magnífica que me ocorreu, para não correr o risco de esquecer, mas me distraio com a notificação recém-chegada. Sávio mandando mensagem no Whats: “Caso novo. Achei interessante você pegá-lo. Vou te mandar as instruções em alguns minutos”.


(Milena)

Ser gordinha é um mero detalhe quando você tem um gosto musical encantador, um namorado extraordinário, uma vida financeira confortável e um senso de empoderamento feminino que nunca precisou das militâncias nas redes sociais para perceber que sempre teve um lugar no mundo. Não querendo desmerecer as amigas feministas e as manas militantes, nada disso. Mas quando você se encontra imersa numa playlist regada a Travis embalando um trajeto de carro, você deixa a mente afrouxar um pouco, e nuvens de alívio e prazer caem sobre seus ombros, massageando-os, e te proporcionam o relaxamento necessário para um dia de muito trabalho.
A contramão de se trabalhar em favor da paixão tem suas complicações, e eu ainda tô pegando o embalo. Depois do meu primeiro caso, cuidei de mais três situações. Cada uma com suas esquisitices e singularidades, porém nada tão assustador. Segundo Ivan, eu estou indo bem.
O caso da vez é um tanto irônico. Como se o fato de trabalhar na AMANDA já não o fosse o suficiente, o cliente que estou atendendo atualmente é um empresário chamado Ricardo Beltrão, alguém de quem Sávio fez uma cliente da época em que eu ainda estava na ANNA se desapaixonar, a igualmente bem-sucedida empresária chamada Aurora Souto. E o cara está muito disposto a recuperar sua ex-namorada.
O problema é que Aurora tem sido negativamente incisiva quanto às minhas investidas. Já tentei fazer com que ela me recebesse, mas ela me contou que sabe que eu estou no “outro time” e não quer saber de qualquer contato a respeito de Ricardo. Devo reconhecer que Sávio deve ter feito um trabalho de excelência. Mas não posso desistir. Essa não é a Milena que eu construí. 
Todavia, Aurora que me espere um outro dia. Hoje eu já encerrei as atividades. Mereço um banho de princesa e um descanso de rainha.
Chego em casa, entro cantarolando o refrão de Flowers in the window e a primeira coisa que me ocorre é escrever no diário, tão empolgada eu estou. Fabi é digna de que eu lhe compartilhe um pouco das minhas conquistas. 
Entretanto, algo estranho acontece. Eu toco o diário e, pela primeira vez em anos, me bate uma melancolia. Essa companhia que sempre esteve presente em diversos momentos, bons e maus, agora me confronta de uma forma que eu jamais esperei. Mesmo tendo Ivan e sua presença que me abençoa com tanto amor, sinto-me praticamente uma fracassada por estar tão perto dos 30 e não ter o que a maioria dos mortais têm: um melhor amigo. Ou amiga, tanto faz. Não tenho alguém com quem fofocar sobre a vida, os altos, os baixos, nada. Alguém com quem se possa conversar de um jeito diferente de como se conversa com um namorado. Uma coisa tão banal, não? Pois é, e estou eu aqui, bestona, com o coração apertado sentindo falta. 
E agora, olhando para Fabi e suas tantas páginas com histórias marcantes, pareço uma menina estúpida com uma amiga imaginária que, por mais bonitinho que seja fingir que ela me escuta e me entende, não passa de uma atitude infantil. 
Bom, deixa pra lá. Que droga! Eu cheguei tão bem. Melhor colocar o diário no fundo de alguma gaveta, até eu recuperar um pouco a compostura. Certas coisas na vida morrem, mas você não consegue enterrar, por mais que queira. Se bem que, às vezes, não são elas que morrem, mas é a gente que mata. Porém, sinto agulhadas nos ouvidos gritando que parte da minha vida é uma grande mentira que eu venho contando a mim mesma.
Que pensamentos desordenados, que ideias confusas. Melhor procurar alguma comédia na Netflix. De preferência algo bem pastelão pra soltar o riso logo.


Estou olhando um filme há praticamente uma hora e já nem recordo mais o nome. Isso aí mesmo: olhando. Deitada sozinha, os olhos encaram a tela da TV, mas a mente, que é o que importa, vagueia. Como fui de alegre e maravilhosa com a vida à mulher adulta frustrada que finge que tudo está resolvido? 
“Milena, esse tempo todo você tem mentido...”, ouço uma voz tão idêntica à minha. Deve ser assim que soa a voz da consciência, só que ela tem notas sombrias no timbre.
Os pensamentos flutuam. Estou provavelmente prestes a pegar no sono. Quando eu menos der conta, estarei dormindo e...


(Denner)

O nome do cara é Pedro Bispo e exigiu que conversássemos em seu apartamento, num prédio de classe média, no centro da cidade. Sua paixão é uma loira de olhos azuis chamada Olívia. Irresistível, segundo ele. Olhei a fotografia que o Sávio me enviou e até agora não estou tendo dificuldades para resistir a ela. Motivo do desapaixonamento: Pedro já tem esposa e não quer correr o risco de que Olívia passe de mero colírio para os olhos a aventura com graves consequências. Ei, eu disse colírio para os olhos? Uau, isso foi bem redundante. Não posso cometer esse tipo de asneira nos meus textos. Falando nisso, acabo de me tocar que alguns dos meus escritos precisam ser revisados...
O apartamento é o 815, no sétimo andar. Toco a campainha, aguardo.
Pedro atende a porta. Ele é um sujeito completamente careca, branco como leite e está bem-vestido até demais pro meu gosto. 
“Bom-dia, Sr. Bispo!”, cumprimento-o, mantendo meu profissionalismo num tom formal, à moda do Sávio.
“Você é o Denner?”
“Exatamente”.
“Ah, que legal. Bom-dia, vai entrando. Não repara a bagunça”, ele demonstra genuína simpatia, enquanto repete os clichês que a maioria das pessoas diz.
Apesar de “não repare a bagunça” ser quase uma frase-feita que nem sempre condiz com uma bagunça de fato preocupante, este lugar está um caos e é impossível não notar a desordem. Preciso disfarçar o olhar de reprovação. Meu Deus, tomara que ele não esteja ouvindo isto. Caramba, Denner, cala a mente!
“Algum problema?”, ele nota que não estou confortável.
“Não, não, tá tudo bem”. Ufa, pelo visto ele não escutou nada.
“Escutar o quê?”, ele indaga, como alguém que acaba de entrar numa conversa e não tem a mínima ideia do que se trata.
“Por favor, Sr. Bispo. Você realmente não precisa se preocupar. Vamos só tratar de negócios mesmo, ok?”
“Hum!”, ele meio que resmunga, entortando ligeiramente a boca. “Bem, já que falou, então vamos direto ao ponto. Pode vir, Olívia!”
“Olívia?!”, repito, como alguém que degusta uma comida nova cujo sabor não lhe é estranho. Ué, Olívia não é a pessoa de quem ele quer se desapaixonar?
Ela aparece na sala, igualmente bem-vestida, com um terninho preto de ótimo caimento. Olhando pessoalmente, parece mais bonita: tão ou mais branca que Pedro, loira de olhos azuis vívidos, postura firme e voz bem cadenciada. No entanto, ainda é razoavelmente resistível. Só que isso está longe de ser a grande bomba deste momento. O mais esquisito nisso tudo é a arma que ela está apontando pra mim.
“Bom-dia, Denner! Não faça nenhuma bobagem, e eu não precisarei usar isto”, é assim que ela se apresenta. “Como você já sabe, meu nome é Olívia. Olívia Dantas, pra ser mais exata. E tem outra forma de me impedir de usar essa arma: você cooperar com a gente”.
De repente me deu uma vontade abrupta de dizer que meu nome é Afonsim e errei o endereço. Não sei se tô pronto para lidar com outro absurdo envolvendo meu trabalho na ANNA. 


(Milena)

Estou com minha mãe no carro. Ela veio me buscar no colégio. Seu rosto denuncia uma alegria típica, o que dá pra notar mesmo com ela ocultando o olhar com os óculos de sol. Põe sua música favorita no toca-fitas, uma canção francesa chamada Tous les garçons e les filles. E vai cantando junto, enquanto dirige. Do alto dos meus dez anos de idade, finjo que odeio a música, adotando uma carinha azeda, mas só por pirraça mesmo. Ora, não quero parecer que curto essa “música de velho”. Para arrematar, silêncio é fundamental nesta receita. A melodia é uma gracinha e me lembro de já ter espiado a tradução que mamãe tinha anotado em uma agenda velha. A letra era bem depressiva, porém com um lampejo de esperança no final.
Embora eu ame muito minha mãe, eu nem sonho com as reviravoltas terríveis que virão em nossas vidas.

Tous les garçons et les filles de mon âge
se promènent dans la rue deux par deux
Tous les garçons et les filles de mon âge
savent bien ce que c'est d'être heureux

Et les yeux dans les yeux et la main dans la main
Ils s'en vont amoureux sans peur du lendemain
Oui mais moi, je vais seule par les rues, l'âme en peine
Oui mais moi, je vais seule, car personne ne m'aime

“Como foi a aula hoje, filha?”, ela dá um tempo na cantoria para interagir.
“Normal”, eu sou bem chatinha, percebe?
“Nada diferente?”
“Bom, mais ou menos. Hoje a Emiliana sentou na fileira das janelas. Ah, o Teodoro espirrou umas dezesseis vezes na aula da professora Idalina. Tá todo mundo com medo de gripar. Fora isso, tudo igual”.
“Uau!”, exclama ela. “Parece que essa escola precisa de um pouco de emoção, né?”
“É”, respondo dando de ombros. No momento, não sou exatamente uma caçadora de emoções. 
“E o cursinho de inglês?”
Eu suspiro. O curso de inglês é uma tortura ainda maior, mas não por alguma provável chatice ou falta de emoção. Minha tortura tem nome: Alderico Villas-Boas. É um riquinho boa-pinta, cheiroso a colônia de marca e filho de pais ricos. Além de ter “rico” no nome, o garoto tem sobrenome de família bacana. Meu problema com Alderico é ser gamadérrima nele, pra variar. Minha mãe sabe, ela viu minha caixinha cheia de bilhetinhos trocados entre Alderico e eu. Fiquei morta de vergonha quando ela descobriu, pois era descarado, pela grafia das cartas, que eu mesma escrevia, inclusive, os bilhetes de Alderico. Com direito a bizarras declarações com apelidinhos duvidosos. 
“What about Alderico, how is he?”
Reviro os olhos para minha mãe tentando falar inglês comigo. Ela fez um curso em alguma época dourada de sua vida e fica me pressionando a me comunicar com ela nessa língua, sendo que minhas notas no cursinho de inglês são uma lástima e eu ainda troco diversos pronomes e enfio o verbo to be em inúmeras situações desnecessárias e equivocadas.
“Mãe, não quero falar do Alderico, tá?”
“Milena”, ela fala meu nome sorrindo, provavelmente me achando uma coitadinha ingênua. “Você tá muito nova pra sofrer por amor, sabia? Quer dizer, amor não. Uma paixonite. Um crush, como dizem em inglês. Me diz o seguinte: o Alderico é tão gatinho assim?”
Por que as mães tentam parecer descoladas? 
“Ai, mãe, por favor. Dá pra ser apenas mãe? Uma mãe normal, sem ficar me perguntando essas coisas. Não prefere saber da prova horrível de matemática que eu fiz?”
Ela ri. E retruca:
“Ué, Milena, mas eu tô sendo uma mãe normal. Ou você acha que eu preciso ser chata de galocha? Não, senhora. E pra te mostrar como sou uma mãe legal, vou te ajudar a não ficar sofrendo tanto por essa paixonite pelo Alderico. Você pensa muito nele?”
“Mãe!”, eu berro, na tentativa de censurá-la. Mas tudo que ela faz é apenas se divertir.
“É sério, filha”.
Hesito. Ela não vai desistir.
“Mãe, eu não quero falar disso, não tô a fim”.
“Pois quando você for pensar nele da próxima vez”, ela me ignora e segue, “imagine o Alderico sentado no vaso sanitário, se esforçando pra caramba pra fazer o número dois e...”
“Meu Deus, eu não acredito!”
Tudo que dá pra fazer agora é dar graças a Deus que só estamos nós duas no carro. E ela continua rindo. A música francesa continua rolando, totalmente desconexa com essa conversa estranha.
“Eu tô rindo, mas você vai ver como isso funciona. Alderico vai deixar de ser um príncipe inalcançável e vai se tornar um menino normal. Olha, te digo mais: se você se dedicar, dá até pra desgostar dele fazendo isso. Pode confiar”.
“Mãe, volte a cantar a sua música”.


Acordo. Estou me sentindo sedada na cama. Que horas são?
Quando alcanço o celular na mesinha ao lado da cama, ele acaba tocando. É Ivan.
“Bom-dia, meu amor”, ele soa radiante.
“Oi”, eu soo seca. 
“Milena, você tá bem? Já são mais de onze da manhã. Você não vem trabalhar?”
“Ai, caraca!”, eu me ajeito para ficar sentada sobre o colchão, desacreditada do tanto que eu dormi. “Desculpa, Ivan, eu... Nossa! Eu dormi pesado. Mas vou me arrumar rápido e já apareço aí”.
“Aconteceu alguma coisa?”
“Não, é que eu... Sei lá... Eu acordei meio assustada”.
“Pesadelo?”
“Não. Mas eu tive um sonho muito esquisito”.
“Que sonho?”
Respiro fundo. Agora que o mundo está voltando a fazer sentido para mim, a consciência retomando o que é a vida real.
“Na verdade, eu tô assustada porque foi a primeira vez que isso me aconteceu. Ivan, você já teve um sonho que na verdade não era bem um sonho, mas sim uma memória muito vívida? Como se você estivesse assistindo a uma cena do jeitinho que ela aconteceu”.
“Eita!”, ele se impressiona. “Até onde eu me lembro, nunca passei por isso. Alguns sonhos podem reproduzir coisas muito semelhantes à vida real, mas desse jeito que você tá dizendo, nunca ouvi falar”.
“Pois é... Eu sonhei com a minha mãe... Digo, eu me lembrei dela, de um episódio que aconteceu quando eu tinha dez anos. Nossa! Tudo igualzinho, igualzinho...”
Ivan fica mudo. Certamente está esperando por mais detalhes.
“Bom, enfim, vamos deixar pra lá”, concluo. “Daqui a pouco tô chegando aí”.
“Tudo bem, meu amor. E pra te dar um gás, tenho uma ótima notícia: Aurora vai te receber lá no prédio da TechnoCorp”.
“Sério??”, fico exultante num piscar de olhos. “Nossa, até que enfim aquela mulher resolveu ceder”.
“Vem pra cá que eu te passo maiores informações. Te amo!”
“Te amo também. Me espera!”
Levanto-me motivada, abro o guarda-roupa para separar o que vestirei, acabo precisando abrir a gaveta onde o diário está guardado. E então, quando ponho os olhos nele, absorvo a mesma sensação de melancolia de ontem. Nunca cheguei a comentar com ninguém, mas o diário foi um presente de minha mãe. Ela me deu porque teve um igualzinho quando era adolescente. Com sua capa de um papel bem macio ao toque, repleto de flores e planetas desenhados (uma combinação que sempre me intrigou por aparentemente não ter nada a ver, então talvez justamente por isso sempre me atraiu). Apesar da sensação um tanto amarga que estou tendo agora, abro-o e, sorrindo, apanho uma caneta da mesma gaveta onde o deixara, e escrevo numa folha em branco:

Bom dia, Fabi. 
Hoje vai ser um belo dia para arrasar, sabia? Me deseje sorte.

Deixo a anotação sem data. Fecho o diário, devolvo-o para o fundo da gaveta. Cerro meus olhos, mentalizo um dia maravilhoso e sussurro:
“Obrigada, mãe!”


(Denner)

Estamos Pedro e eu sentados, enquanto Olívia se mantém de pé, mas sua arma está abaixada. 
“Tudo bem, o que é que vocês querem de mim?”, disfarço o nervosismo o máximo que eu posso, mas algumas palavras saem gaguejadas, atropeladas. 
“Só precisamos que coopere conosco, Denner”, Olívia repete o que ela já havia anunciado quando me apontou o revólver minutos atrás. “Precisamos de você para cumprir uma missão”.
“Então”, volto-me para Pedro, “você não vai usar o serviço da empresa, né?”
“Não, não”, ele responde mexendo a mão em sinal que parece desprezo. “Já sou desapaixonado pela Olívia desde que nos conhecemos. Digamos que ela não faz o meu tipo.”
Tá explicado por que eu não a achei tão irresistível assim.
“A verdade é que mulher nenhuma faz o tipo do Pedro, mas enfim...”
“Então que missão seria essa?”, interesso-me, sentindo uma gota de suor brotar na minha testa.
“Pedro, pega um pouco de água pro rapaz. Ele tá claramente com muito medo da gente”.
“Isso não é de todo ruim”, comenta ele, levantando-se e se dirigindo para a cozinha. “Mas fique sabendo que eu só vou pegar água porque eu também acho que ele precisa, não porque você mandou”.
Olívia não replica. Dá pra ver que eles vivem nessa tensão. 
“Tensão faz parte”, ela me faz perceber que outro pensamento oral vazou. “Somos apenas parceiros profissionais, não existe necessidade de montar um clubinho da amizade. Assim, fica tudo mais prático”.
Eu mexo a cabeça, assentindo. Pedro volta com a água, eu bebo. Só agora noto que eu estava precisando disso mais do que eu pensei.
“Obrigado”.
“É o seguinte, Denner. Precisamos de você para recuperar algo importante. Fomos contratados por uma pessoa muito rica. Só que essa pessoa não concorda muito como nossos... métodos”, ela explica, indicando a arma. “Então, precisamos que você convença sua namorada a ir embora conosco”.
“Quê?! A Rita Lina?!”
“Por acaso você tem mais de uma namorada?”, Pedro banca o babaca por causa da minha reação.
“Sim, a Rita Lina”, confirma Olívia, com uma paciência que soa falsa. “A pessoa que está nos pagando nos fez jurar em um contrato que não usaríamos de violência contra a moça. Então, a mim pareceu razoável usar outra forma de chegar até ela. E aqui está você. E no contrato não diz nada sobre usar violência com terceiros”.
“E pra onde vocês estão querendo levar a Rita embora? Quem contratou vocês?”
“Sinto muito, mas não podemos responder nada”, diz Pedro, em tom enigmático, triunfando sobre a minha ignorância. 
“Vamos levá-la de volta pra casa”, Olívia contraria o colega.
“Sua vaca!”, Pedro se chateia. 
“Como assim ‘de volta pra casa’? A casa dela é aqui”. 
Ouve-se o som de um celular tocando.
“Essa música é da abertura de Arquivo X?”, constato, admirado do quanto isso fica cada vez mais esdrúxulo. 
“É o meu celular tocando, eu gosto de Arquivo X, ué!”, Pedro se afasta um pouco para lidar com o telefone, mas faz isso tão rápido que deve ter simplesmente recusado a chamada.
“Meu Deus!”, exclamo, com os olhos esbugalhados. “Agora eu entendi tudo. Vocês são valpixianos!”
Eles se entreolham, intrigados.
“Val quê?”, Pedro me encara como se eu fosse um lelé bêbado.
“Valpixianos! Os alienígenas que abduziram a Rita uma vez. Droga, sei lá o que eu tô falando. Nem sei se essa história é verdadeira. Ah, dane-se! Vocês são ETs ou não são?”
Já que é pra perder as honras, vamos rolar ladeira abaixo sem previsão de levantar depois que chegarmos ao final. 
“Que tipo de maluquice é essa, Denner?”, irrita-se Pedro, certamente ofendido por eu ter insinuado que ele é um extraterrestre. 
“Percebeu o padrão?”, Olívia indaga Pedro.
“Sim”, confirma ele, meio contrafeito, mas ainda assim fomentando alguma informação que continua nebulosa pra mim.
“Dá pra vocês pararem de falar desse jeito misterioso? Eu não tô entendendo nada”.
“Infelizmente, Pedro e eu somos tão humanos quanto você, Denner. E pra cumprirmos essa missão, você não precisa entender mais do que já lhe foi explicado”.
“O problema de vocês é que tentaram me explicar, mas deixaram mais buracos na minha cabeça”.
“É a vida”, Olívia se expressa com a frieza de um psicopata. Essa mulher está me dando arrepios.
“Peraí! Eram vocês que vinham me seguindo esses tempos?”
“Você viu a gente?”, Pedro fica impressionado.
“Não, mas... Eu tive a sensação de estar sendo seguido”.
“Estávamos sondando”, esclarece ele.
O pior de tudo é que não posso sequer tentar bolar um plano para lidar com esses dois, por receio de escapulir mais um dos meus pensamentos. 
“E se eu não quiser ajudar?”, desafio-os.
Olívia respira fundo, enfim resolve se sentar. Pedro analisa cada movimento dela. E observa como eu reajo a cada um deles. Ela dá o ultimato:
“Só existe um pequeno probleminha, Denner. Você não tem escolha. Ou você ajuda ou morre”.
Eu mencionei arrepios agora há pouco? Esqueça. Olívia e Pedro estão me fazendo conhecer a real sensação de pânico iminente. 


(Milena)

O prédio tem cinco andares e um bonito letreiro gigante, prateado, anunciando “TechnoCorp”. Aurora Souto ganhou seu primeiro milhão ao vencer um reality show chamado “Tá pouco ou quer mais?”, onze anos atrás. Em vez de seguir uma carreira de subcelebridade e talvez virar meme na Internet, posar para uma revista masculina ou protagonizar novelas, ela preferiu meter o nariz em coisas mais “sérias”, como essa empresa que cuida da segurança de diversas outras empresas. Ainda assim, continuo vendo Aurora como uma mulher de gostos duvidosos e prestes a cuspir fogo contra qualquer pessoa. Ou até pior. 
Da outra vez em que tive contato com ela, tive de passar o caso para o Sávio assumir, e ele nunca me contou muitos detalhes. Lembro-me de que deixei por isso mesmo, já que ele tinha alcançado sucesso. Mas agora seria maravilhoso ter um relato mais completo sobre Aurora e suas esquisitices. Prevenção.
Ora, Milena, será que você precisa mesmo disso? Não, não, não. Sem facilidades. Vá, encare o desafio e dê o seu próprio show. Até porque você não é mais uma amadora. Você se preparou para esse caso. Você vai conseguir.
“Boa tarde, Aurora! Como tem passado?”, exalo simpatia assim que me aconchego numa cadeira em frente à sua mesa. Simpatia é o melhor cartão de visita. 
“Boa tarde, Milena! Eu estou bem. Felizmente não passo temporadas na Ilha dos traidores, sabe?”
“Uau! Você tá bem afiada, hein. Por que esse ódio todo pelo Ricardo?”
“Queridinha, eu nem comecei a me referir àquele verme. Esse negócio de ilha dos traidores é uma indireta pra você. Ou melhor, agora é uma direta mesmo. Como pôde mudar de lado?”
“Isso não vem ao caso, Aurora. E gostaria de ser respeitada como profissional”.
“Então você acha que pode ajudar o Ricardo a me reconquistar?! Que piada! O Sávio, seu ex-sócio, já fez um bom trabalho ao abrir meus olhos sobre aquele canalha”.
Fico desconfortável com essas comparações. A cusparada de fogo começou antes do que eu imaginava. Mas estou determinada a ir até o fim.
“Interessante isso, Aurora. Abrir os olhos. Tô vendo uma questão de perspectiva aqui. Talvez você vá gostar de conversar comigo, eu posso te proporcionar outra perspectiva a respeito do Ricardo”.
Ela me encara, incrédula. Abre a boca para cuspir mais palavras flamejantes, mas é interrompida por uma ligação da recepcionista.
“Sim, sim, diga pra ela entrar”, ela encerra o contato, desliga o telefone.
Eu não tenho ideia do que está acontecendo. Parece que, mesmo ocupada comigo, ela vai atender outra pessoa. Droga, que chatice! Se alguém precisar testar os limites de paciência de um monge tibetano, Aurora seria a indicação perfeita para o trabalho. 
Uma senhorinha de uns 60 anos, rechonchuda, com os cabelos pintados de acaju e sardas espalhadas pelo rosto e pescoço, entra na sala de Aurora Souto.
“Milena, essa é a dona Francisca. Mas todos a chamamos de dona Chica. Boa tarde, dona Chica, como vai a senhora?”
“Um pouco cansada, Aurora”, a tal dona Chica responde, abrindo um estojo de couro e tirando dele os óculos de grau, um troço espalhafatoso gigantesco que mais parece um item de fantasia de carnaval. “Olá, minha jovem!”, ela acena para mim.
Eu sussurro um “olá” acrescido de um sorriso sem sal. 
“A senhora está pronta, dona Chica?”
Ela balança a cabeça, garantindo, enquanto puxa fôlego. Diante desta cena, eu diria que ela está pronta sim. Para ir para a terra dos pés-juntos. 
“Milena, acompanhe-nos!”, ordena Aurora.
“Acompanhar pra onde, Aurora? Eu vim aqui pra resolver um assunto com você. Aqui no seu escritório, lembra?”
“E é por isso mesmo que estou te chamando. Pra resolvermos esse assunto”.
“Mas...”, contraponho-me, olhando para a senhorinha, pois ela não tem a ver com meu trabalho nem com a questão a ser tratada. 
“Vamos”, Aurora é taxativa. 
Que raiva que eu tô dessa mulher! Tô odiando isso profundamente. 
Só me resta segui-la. Quase caio pra trás quando, depois de Aurora apertar um discreto botão na parede, surge a porta do que parece um elevador particular. Como eu tô muito a fim de solucionar essa situação, não hesito em entrar, juntamente com ela e a velhinha.
O elevador sobe. Entretanto, um fato curioso me intriga. Há um oito brilhando quando o elevador para. A porta se abre, pondo diante de nossos olhos um corredor silencioso, um tanto soturno, que me fez recordar um pouco de O iluminado. Não aparecendo as irmãs Grady, pra mim, tá beleza. 
“O que é isso, Aurora?”, questiono. “O seu prédio não tem apenas cinco andares?”
“Cinco andares oficiais e três camuflados. Este é o oitavo. Venham comigo, vocês duas!”
“Ainda mais essa agora”, eu me queixo.
“Minha filha, você reclama pra cacete, hein!”, a dona Chica me alfineta. Ela foi tão inesperada que eu mal consigo balbuciar algo em resposta. 
Aurora abre a única porta que existe neste misterioso oitavo andar. Há dois homens muito fortes e altos à espera, mudos feito postes. De terno e gravata, supostamente são seguranças. Mas... por que eles estão aqui?
Dona Chica é a primeira a entrar. Eu sou detida pelos brutamontes.
“Que que foi, cara?”, falo diretamente a um deles. “Dá pra me dar licença, por favor?”
“Um momentinho, Milena”, Aurora se aproxima, numa doçura que me dá ainda mais raiva, porque é um fingimento além do que se pode aguentar. E ela sabe isso, então faz de propósito. “Você precisa entregar a sua bolsa pro Reginaldo e pro Pardal. Principalmente se o seu celular estiver dentro dela”.
“Eu? Mas de jeito nenhum. Não sei quem são esses caras. Por que eu tenho de entregar minhas coisas pra eles?”
“É a única forma de podermos resolver o nosso assunto”, retruca ela, com seu sorriso diabólico.
Estou ponderando firmemente largar esse caso.
“Prometa que vai ser rápido, Aurora”.
“Isso não depende de mim, meu amor. Depende de você”.
Um pequeno vão entre os dois postes de terno me deixa ver a dona Chica sentada de boa numa poltrona, com as pernas esticadas e folheando uma revista.
“Isso tá muito estranho, Aurora”, volto a reclamar, tirando minha bolsa e me livrando de meus pertences e colocando nas mãos dos seguranças. “Pronto. Dá pra sair da frente agora, coleguinha?”
Reginaldo e Pardal abrem caminho, sem dar um pio. Entro no que parece ser um pequeno apartamento misturado com escritório. E, assim que dou três passos, a porta se fecha num estrondo e tão rapidamente, que me assusto. 
“Ei! Ei! Aurora!! Aurooooraaa!!”, bato insistentemente na porta, ao mesmo tempo em que aumenta a revolta por não estar entendendo do que se trata tudo isso.
“É inútil, minha filha”, manifesta-se a velha.
“Essa mulher é louca? Por que trancou a gente aqui?”, torno-me para dona Chica, pelo visto mais por dentro do que eu.
Agora que eu realmente preciso que ela dê algum pitaco, dona Chica resolve se fazer de surda.
Começo a andar pelo lugar. Está todo arrumado. Tem sofá, frigobar, uma mesa, uma televisão e outras tralhas. Porém, não há uma janela sequer. Por outro lado, está repleto de câmeras. Faço as contas e não quero aceitar a verdade tosca de que Aurora Souto quer fazer de mim e desta senhora vítimas de uma espécie de reality show
“Meu Deus, essa mulher é doente”, declaro. 
De repente, sinto a pele congelar. Totalmente do nada, começa a tocar uma música. E a melodia vai preenchendo o ambiente, mas o efeito sobre mim mais parece um golpe desferido sem piedade contra o meu coração. Tous les garçons et les filles, a música que sempre considerei a minha favorita, porque era a favorita da minha mãe. Aurora não tinha como saber disso. Ninguém sabe.
Dirijo-me a uma das câmeras, enfurecida:
“Muito bem, Aurora, agora você foi longe demais. Brincadeira tem limites. E eu não tô gostando nada disso. Como foi que você descobriu sobre essa música? Aurora!! Aurora!! Responda, Aurora!! Eu quero ir embora desse lugar. Auroooraaa!!!”
Como que para debochar de mim, a música fica mais alta. E eu mais aflita.
“Você tá tão nervosa assim por causa de uma música?”, diz uma voz vinda das sombras, que não pode ser a dona Chica, porque é uma voz de homem.
A voz vem de uma parte menos iluminada da sala. E é uma voz com a qual eu me acostumei por muitos anos. 
“Esse preto caiu muito bem no seu cabelo”, Sávio revela-se.
“Sávio”, murmuro, meio desnorteada, tonta e completamente confusa de tanta surpresa por reencontrá-lo num momento tão inoportuno.
“Oi, Milena. Bem-vinda à sala dos desafios!”
“Quê?”
“Esse lugar”, ele abre os braços, “é onde ANNA e AMANDA disputarão o coração da Aurora Souto”.
E foi assim que eu vim me meter numa das maiores e mais indesejáveis encrencas de toda a minha vida. 









Obrigado pela leitura e nos vemos em 2017, para a temporada final. Grande abraço do autor Marvin Cross :)



25 de agosto de 2016

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 3x10: A CONSTANTE



(Sávio)


Quando decidi que ia investigar Ivan Castro, por pura cisma com a cara dele, havia um motivo claro: proteger minha melhor amiga das garras de um possível mau-caráter. Depois disso, veio o encontro que tivemos no restaurante-bar que ele tem, onde ele se mostrou um chantagista de primeira linha, o que me acendeu o alerta vermelho. Bom, por mais que agora as coisas entre Mile e eu estejam feito pó soprado e espalhado pelo vento, não desisti da empreitada investigativa.
O relógio marca uma e dez da manhã. Aluguei um carro para dar prosseguimento ao que eu acredito que será a última aplicação do meu plano. E confesso que estou bastante confuso com tudo o que vim descobrindo. Tive de segui-lo a duas cidades diferentes no interior, além de também ter me embrenhado em bairros extremamente distantes da cidade em que moramos. Agora, observando-o com meus binóculos, discretamente de um ponto onde ninguém suspeitaria, vejo-o de mãos dadas com uma garota de longos cabelos pretos, provavelmente escorridos à chapinha, que sorri para ele toda encantada.
Enquanto continuo no encalço de Ivan, sinto uma alfinetada na mente: agora que minha amizade com Milena se acabou, o que farei com essas informações coletadas ao longo de vários meses?
Seria um desperdício imperdoável não fazer nada com isso. Mas não quero ser baixo e escandaloso. Quero fazer algo que me pareça justo. Porém, se Milena e eu não temos mais qualquer relacionamento, por que insisto em estar aqui? Por que não deixo Ivan Castro simplesmente seguir a vida enganando a Milena e todo mundo? Eu deveria realmente me importar?
Ele acaba de se despedir da moça com um beijo na boca, bastante caloroso pelo que dá pra notar. Não estou surpreso. Ele fez a mesma coisa com as outras quatro e, tristemente, devo ressaltar que Milena não está incluída neste número. Como é que esse safado consegue dormir à noite?
Ivan vai caminhando até seu carro, enquanto apanha o celular no bolso. Provavelmente está enviando alguma mensagem para uma de suas garotas, talvez até mesmo para Milena, alimentando esse mundo ilusório que construiu para ela. Contudo, aqui no mundo real, onde posso avistá-lo, ele sorri como um vitorioso, um canalha cujo pescoço pesa de tantas medalhas ganhas nessa modalidade de sacana enganador.
Ele parte, cruza com meu carro, mas está tão absorto em seu papel bem desempenhado que decerto não suspeitou da presença do meu carro estacionado a alguns metros da casa. Ligo o meu automóvel e resolvo segui-lo mais uma vez, só para me certificar se ele já completou o itinerário de conquistador de hoje. Espero que sim, porque esse cara tá me dando uma canseira. Mais física do que psicológica.


“E então ele ficou de boca aberta porque, aparentemente, eu sou a única médica que tem uma letra fácil de entender”, Anna está terminando uma de suas histórias de consultório, rindo logo em seguida.
Eu a acompanho no riso. Ou melhor, tô forçando uma risada. No começo, as historinhas sempre tinham um ar cômico, mas agora soam enfadonhas. Não vou negar que algumas me fizeram quase ter um ataque do coração de tanto rir, como o caso da mulher que estava tão aflita porque seu filho estava com anemia, sendo que na verdade o garoto andara apenas se masturbando “além do limite”. E como descobriram isso? Simples: Anna achou estranha a tremedeira no braço do guri durante uma das consultas e quando o confrontou indagando-lhe se estava depenando o sabiá, a resposta do garoto foi um par de olhos esbugalhados e a tremedeira parando na mesma hora, seguindo-se a isso um rosto vermelho que nem tomate maduro e a expressão de quem fora pego no flagra do ato libidinoso. Hormônios adoram torturar garotos de quatorze anos.
“Você tá muito distraído, Sávio”, já é a terceira vez que ela reclama. “O que é que tá acontecendo? Aconteceu alguma coisa bizarra na ANNA? Opa, peraí! É a primeira vez que eu noto como é estranho eu falar o nome da empresa que tem o mesmo nome que eu”.
“Pura metalinguagem”, respondo, mas sem me esforçar em parecer o oposto de distraído.
Anna sorri, virando-se e ficando de perfil, abrindo uma gaveta no armário de cozinha. Está vestindo uma blusinha branca que deixa notável a falta de sutiã, sua bermuda jeans curta não é muito justa e seu coque ruivo está quase desmoronando, charmosamente, deixando aqueles fios de cabelo sedutores atrás do pescoço que todo homem gosta. Estamos em seu apartamento e ela está pra lá e pra cá preparando um lanche para nós.
“Na verdade, tudo relacionado ao meu trabalho na ANNA é bizarro, então se tivesse acontecido algo bizarro, teria sido apenas um dia normal”.
“Ah, é? Então por que você tá assim? Sabe, eu percebi que você nem deu muita bola pro caso que eu te contei de hoje no trabalho”.
“Vocês, mulheres, têm um faro fino, hein!”
“Ou... Alguns de vocês, homens, não estão preocupados em disfarçar tudo”.
Acho que não preciso mais adiar. Na verdade, eu nem sei por que levara tanto tempo para eu resolver perguntar a ela:
“Como você conheceu o Ivan?”
Ela para o que tá fazendo, abruptamente. Percebo que ela não esperava por isso, apesar de com certeza já ter previsto que mais cedo ou mais tarde essa indagação viria à tona.
“Muito bem, senhor Sávio Miranda”, ela retoma a preparação do lanche. “Tem certeza que quer falar disso agora?”
“Você teve alguma coisa com ele?”
“Quê?! Não!!”, ela meneia a cabeça e sorri, como se afastasse uma ideia completamente insensata. Ou, pode ser que apenas esteja querendo fazer parecer isso.
“Então por que razão eu não iria querer falar disso agora?”, falo em tom de desafio.
Anna passa requeijão light numa fatia de pão de forma, aguardando que eu diga mais alguma coisa.
“Tá aguardando que eu diga mais alguma coisa?”
“É, mais ou menos, eu acho. Você vai dizer mais alguma coisa?”
“Anna, por acaso a gente tá começando um problema nesse exato momento pelo fato de você não querer me contar como conheceu o Ivan? Existe algo que você tá escondendo de mim?”
“Um cara contratou o Ivan para ajudar a me conquistar. Foi isso. Tem muitos anos, foi antes da minha viagem pro Canadá”, ela conta, nem um pouco abalada.
Engulo em seco por um momento.
“Nossa! É sério? Você foi uma ‘amandizada’, digamos assim?”
“É”, é tudo o que ela consegue responder porque gostou muito do meu comentário e está rindo. Porém, acrescenta: “O curioso é que... pelo que me lembro, fui o primeiro caso em que ele trabalhou. Isso não te lembra alguma coisa?”, agora ela demonstra uma fina ironia, e essa parte da narrativa não deixa de ser de fato um detalhe bastante curioso mesmo. Usando uma analogia matemática, Anna é a constante na equação que cruza as empresas opostas ANNA e AMANDA. Uma estranha coincidência. Chega a ser quase poético.
Apesar de agora isso não parecer necessariamente um problema, eu não estou achando graça. Enquanto isso, Anna agora tira cuidadosamente duas fatias de queijo de uma bandeja de isopor.
“E como você foi de ‘amandizada’ a amiguinha do Ivan?”, pergunto sem me importar em parecer tendencioso.
“Credo, Sávio!”, uma nuvem de irritação se forma em seu olhar. “Por que você fala desse jeito? Parece que Ivan e eu tínhamos uma gangue e fazíamos mil maldades por aí. Não é que eu seja amiguinha dele, eu apenas confiei que ele me ajudasse a... bom, você sabe. Te reconquistar. Eu já conhecia o serviço do cara, então apostei. Quando ele me ‘amandizou’, como você diz, ele usou uma abordagem diferente do que você faz na ANNA. Ele conhece a pessoa, conversa... É tipo aquele esquema de ensino médio, sabe? Quando a gente tem um amigo que ajuda a gente com aquela pessoa que a gente é a fim... Só que, no caso do Ivan, ele fazia isso profissionalmente”.
“Eu fui um ‘amandizado’ também”, concluo e suspiro, com certo desgosto.
“Eu, hein! Foi tão ruim assim reatar o namoro comigo?”
“Desculpa, eu... Não foi o que eu quis dizer... Desculpa, amor, por favor”.
Não estou muito no controle dos meus pensamentos e emoções ultimamente. Isso é um forte indicador de uma torrente de babaquices que pode acontecer nos próximos dias e semanas. Agora minha namorada está magoada, com certeza.
“Tá aqui o seu sanduíche”.
“Anna, por favor, me desculpa”, insisto.
“Já percebeu que nós dois temos algum tipo de envolvimento com as duas empresas? Só que, a meu ver, o seu é muito mais especial. Você é a única criatura nesse mundo que foi ‘amandizado’ e... sei lá, ‘annazado’. Não é legal? Quantas pessoas poderiam se vangloriar disso?”
Ela abre a geladeira, pega uma jarra de chá gelado e me serve num copo de vidro grande. E é assim que uma mulher te prova o quanto ela te ama pois, se sua namorada te serve uma quantidade generosa de comida ou bebida mesmo estando zangada, case-se com ela. Não que eu vá me casar, é apenas modo de dizer o quanto é preciso valorizar uma criatura assim.
“Só não fala mais sobre esse negócio de ser ‘amandizado’ ou eu te taco esse chá na cara, tá entendendo?”, e o coque enfim se desfaz quando ela acaba de vociferar essas palavras.
Bom, o amor tem algumas peculiaridades... Mesmo assim, fica mantido o “case-se com ela”, ok?
Seguro-me para não comentar que ela me lembrou muito a Milena ao me ameaçar desta forma, mas se com o clima que ficou ela já quer me atirar o chá nas fuças, imagine só o que não faria com a jarra se eu sequer insinuasse uma comparação com minha ex-melhor amiga.
Entretanto, o assunto Ivan está longe de acabar. Sinto muito.
“Em todo caso”, prossigo, “meu problema com o Ivan não é como vocês se conheceram. Quer dizer, talvez fosse, se vocês tivessem se conhecido em determinadas circunstâncias, mas eu fiquei sabendo de umas coisas muito feias sobre esse sujeito”.
Anna ainda está irritadiça, e abocanha o seu sanduíche de peito de peru com o olhar semicerrado, fitando-me. Entendo que é um sinal para eu parar de enrolar.
“Acontece que o Ivan Castro, senhor namoradinho perfeito, é um grande safado, um baita de um pilantra. Você sabia disso?”
“Ué, sei lá”, ela dá de ombros. “Por que é que você tá dizendo isso?”
“Investiguei o cara. Achei ele muito marrento e cheio de si, metido a dono da situação. Quando ele veio falar comigo pra marcar um encontro entre você e eu, me chantageou primeiro. Mas ele fez isso de forma estranha, eu diria até que foi meio maligno. Bom, um cara desse não deve ser muito confiável. E eu tenho certa dificuldade pra confiar nas pessoas. Portanto, ele merecia ser investigado”.
“Você investigou o Ivan, tá, e daí?”
“E daí que eu descobri que ele tá enganando a Milena. Ele roda a cidade de ponta a ponta, inclusive vai a cidades no interior, pra se encontrar com outras mulheres. Cinco, pra ser mais exato. A Milena seria a número seis. Isso não é de dar nojo?”
“E você viu ele beijando essas mulheres, alguma coisa assim?”
“Sim. E, como ele entrou na casa de algumas delas, deve ter feito mais do que beijar”.
Ela faz uma careta, como que rejeitando a informação extra.
“Entende agora a minha preocupação em saber como você o conheceu? Anna, o cara tem seis namoradas. Isso se não tiver mais, porque nem sempre dava pra ficar seguindo ele. O cara é um crápula!”
“Você pretende fazer o quê com essas descobertas? Ou só tá stalkeando pra matar o tempo?”
“Amor!”, exclamo, surpreso com a certa frieza dela.
Ela me encara. E então me dou conta, mas é ela quem fala:
“Você vai se meter no relacionamento do Ivan com a Milena? Por qual motivo? Você e ela já nem se falam mais há meses. Ela te tratou mal pra caramba na última vez que se viram na sede da ANNA, não foi? Não é sua culpa se ela se meteu com o Ivan e que ele tenha mil namoradas. Ás vezes a gente tem que deixar as pessoas quebrarem a cara sozinhas e cumprirem seu destino, amor”.
Fico pensativo.
“Vou te dar um conselho e gostaria muito que você seguisse”, continua Anna, em leve tom de súplica. “Não se mete nisso. Não é porque eu tenho uma certa amizade com o Ivan, mas é pro seu próprio bem. O resultado pode não sair como você espera e o clima entre você e a Milena já não tá legal. Melhor não arriscar. Por favor, Sávio!”
Encaro minha namorada, emudecido, sem resposta. Algo me cutuca na mente dizendo que ela está certa e que toda essa investigação foi um desperdício. Só me resta dar a primeira mordida no sanduíche e um gole no chá gelado de pêssego.
“Vamos mudar de assunto?”, sugere Anna.
De boca cheia, apenas assinto. Mas com uma pedra gigante de frustração que me sufoca o peito. Algo está errado. Sinto marteladas me incomodando a cabeça e ressoando por toda minha mente que algo está errado.
“Daqui a dois dias é o seu aniversário e já acertei tudo com a sua mãe pro jantar”.
“Hummmm...”, finjo interesse.
“Trinta anos, hein!!”, um sorriso se desenha em sua boca. “E pensar que você ainda parece aquele adolescente tão bobo que me conquistou no ensino médio”.
“O tempo não perdoa ninguém”, comento uma besteira qualquer, só para tentar disfarçar o desconforto.
“Eu amo você”, afirma ela, com uma seriedade que estranhamente me inquieta, acompanhado de um olhar sincero e apaixonado.
“Eu também amo você”.
Minha frase de retribuição, no meu coração, consegue soar mais inquietante ainda. E voltam as marteladas.


16 de Julho. Trinta anos atrás, eu nascia numa noite quente de verão e trazia lágrimas de emoção aos olhos do meu pai e uma dor de parto excruciante para minha mãe. Essa palavra, inclusive (excruciante), é ela quem sempre faz questão de falar, o que me faz desconfiar que este é o único contexto em que mamãe a utiliza. Nasci em 1986 e passei a maior parte da infância nos anos 90. Fui fã inveterado da maioria dos desenhos animados que bombavam naquela época, além dos seriados japoneses que mesclavam ação, aventura e um tanto de comédia. Essa época foi tão marcante que dia desses, no supermercado, quase não resisti à vontade de tirar uma selfie com a mulher que passou minhas compras no caixa, só porque ela se chamava Patrine. Ora, qual a probabilidade de você se deparar com uma pessoa com um nome tão peculiar de uma heroína de TV? Essa foto teria gerado um falatório muito legal no Facebook. Os recém-chegados aos 30, como eu, devem se lembrar da Patrine e seu tokusatsu na TV Manchete.
Tive poucas festas de aniversário, embora tenha reinado por muito tempo como filho único. A “festinha” mais memorável foi quando, ao completar 12 anos de idade, mamãe e eu estávamos passeando pelo centro da cidade e ela havia precisado pagar uma fortuna numa conta e praticamente não sobrara nada para comemorar minha nova idade. Naquela época eu dava bastante importância a esse tipo de coisa. Então, ao passarmos em frente a um salão de festas onde coincidentemente estava rolando um aniversário de um menino, mamãe resolveu entrar mentindo que precisava ir ao banheiro. Ela estava grávida esperando o Dominique e ninguém negaria uma ida ao banheiro para uma distinta dama com um barrigão tão pomposo e uma forma tão... bem... intimidadora de pedir para entrar. No fim, acabamos nos misturando aos convidados e, apesar de descobrirmos mais tarde que se tratava de uma festa de quatro anos de idade com o tema dos 101 dálmatas (e eu supostamente era o “amiguinho mais velho, muito, muito mais velho”), na hora do “Parabéns pra você” mamãe fez questão de cantar baixinho no meu ouvido, me fazendo entender que aquela empreitada estapafúrdia havia sido um ato de amor. E, a bem da verdade, eu me diverti demais. No final, mamãe saiu amiga de umas três convidadas e com dois saquinhos de lembrancinhas, abarrotados de docinhos, salgadinhos e outros mimos temáticos. Dona Lola me tomou pela mão para irmos embora e, no fim do dia, foi como se tudo tivesse sido a coisa mais normal do mundo.
Entretanto, nos últimos 15 anos, nenhuma presença fora tão marcante e garantida nos meus aniversários quanto a de Milena. Por mais que não houvesse festas, jantares ou qualquer outro tipo de celebração, em vários dos meus aniversários a gente fez algo juntos. E, em outros vários, mesmo não juntos no sentido presencial, ela me telefonou ou mandou mensagem. Enfim, ela sempre esteve aqui. De um jeito ou de outro. E agora, que chego aos 30, uma idade tão significativa por alguma razão, ela não está. A pessoa com quem eu sempre contei que estivesse, aquela sem a qual eu jamais imaginei minha vida, simplesmente não está.
Eu estou morrendo de saudade da Mile...
Olho o celular pela 50ª vez, crente de que o sentimentalismo que permeia datas especiais tenha lhe tocado a alma e ela resolvera abrir mão, pelo menos por hoje, da mágoa que está sentindo. Mas não há nada. Quero dizer, não dela. Luto mentalmente contra a possibilidade de ela ter deletado meu número de seus contatos, mas a cada segundo que eu me forço a descartar essa ideia, mais ela cresce.
Estou novamente de olho em Ivan, que hoje está num encontro com Rosane. Sim, eu me fissurei tanto nessa investigação que já descobri os nomes das garotas. Imagino se alguma deles sequer suspeita que tá sendo feita de trouxa. Sei que não sou um grande exemplo de integridade, mas sinto que é um dever moral desmascarar esse cretino. Eu preciso dar um basta nessa palhaçada.
O celular descarrega. Porém, sem problema, eu já fiz um vídeo amador com imagem nítida o suficiente para incriminar Ivan. Só arredo o pé daqui depois que ele também for.
Mas, espere, não estou esquecendo de algo?
CACETE!!! São nove e meia da noite e eu estou a pelo menos quinze quilômetros de casa. Anna e minha mãe vão me matar. Hoje é o jantar em comemoração ao meu aniversário. Droga, droga, droga, cacete!!!
Olho para Ivan agindo todo carinhoso com uma de suas namoradas e me bate uma raiva por ter de sair daqui antes do previsto. Droga, esse jantar de aniversário não era necessário.
E, pra ser totalmente sincero, eu não quero ir. Eu nunca concordei com a ideia. Preferia, inclusive, que a coisa toda fosse uma surpresa, pois, se eu não chegasse a tempo, pelo menos teria a desculpa de que não sabia que tinham armado uma surpresa. Merda!
Dou a partida no carro, muito contrariado. E sigo, rumo a uma reunião familiar para a qual não estou nada animado. Enquanto dirijo e engulo a resignação, um pensamento se desenrola, como um emaranhado de fios que começam a se soltar, um a um. Não estou gostando muito da conclusão que vai se formando, mas já que estou com trinta anos agora, preciso pôr a maturidade em prática e encarar o que eu não gostaria. Passei muitos anos amargando o relacionamento malsucedido que tive com Anna Munhoz, e hoje nós estamos juntos de novo. No entanto, o sabor não é igual ao da época em que meu amor por ela fervilhava dentro de mim. É a mesma Anna, mas o sentimento é diferente, discrepante, desfigurado. É quase como se eu não gostasse dela tanto assim a ponto de sustentar um relacionamento em longo prazo. E se, no fim das contas, o desapaixonamento aplicado por Milena não tiver falhado?
Desligo o ar-condicionado e abro a janela do carro, para que a brisa noturna me ajude a afastar esses pensamentos. Mas o que a brisa faz é apenas jogar mais clareza sobre eles: então descubro que, em todos esses anos com Milena perto de mim, era a companhia dela que eu realmente queria ter neste 16 de julho. E vou mais longe: mesmo acreditando que meus sentimentos por Anna não tinham morrido e voltado para os braços dela, eu me acostumei com sua ausência, tanto que aparentemente não me empolga saber que neste exato momento ela está esperando por mim, com todo carinho, dedicação e afeto. É sem a Milena que eu não vou conseguir viver. Cara, dá pra entender o quanto isso é louco? E o quão tardiamente essa revelação veio me golpear?
Paro o carro no primeiro posto de gasolina que encontro. Estou afoito, agitado, desço do carro e vou até a loja de conveniências que eles têm aqui.
“Por favor, eu preciso usar o telefone. Vocês têm um telefone?”, pergunto, quase sem ar.
Um casal detrás do balcão se entreolha, certamente assustados. A mulher assente.
“Por favor, eu preciso usar o telefone, por favor!”, imploro.
“Sávio, o que você tá fazendo aqui?”, uma voz vem de trás de mim. Viro-me e vejo Rita Lina, com roupa de frentista. Mas não me surpreendo.
“Rita!”, abraço-a com toda a ternura possível.
“Sávio, se você veio até o meu trabalho pra se declarar pra mim, fique sabendo de duas coisas. Primeira: você teve seu tempo e sua oportunidade. Segunda: eu sou fiel ao Denner, e você também tem namorada, então vai cuidando de me soltar porque apesar de seu abraço ser muito gostoso e quentinho, isso não tá pegando bem”.
Solto-a. Estou rindo e chorando ao mesmo tempo.
“Caramba, você tá emocionado mesmo!”, diz ela.
“Você pode me emprestar o seu celular, Rita? Eu preciso ligar pra Milena”.


Devem ser quase onze da noite quando eu chego em casa. Anna, mamãe, Dominique e uma garota de cabelos pretos encaracolados e óculos que eu suponho ser a namorada dele estão sentados na sala. Sabe quando você aparece num lugar onde todo mundo sabe que você faz alguma idiotice? Existe aquele silêncio perturbador que diz mais do que se o ambiente estivesse apinhado de pessoas. É como entrar numa caverna que acumulou os ecos daqueles que gritaram por anos do lado de fora, só que você escuta os ecos dentro de você.
“Meu amor, o que aconteceu?”, indaga Anna, preocupada, amorosamente me dando uma chance de me explicar (ou de inventar uma desculpa qualquer).
“Que dinheiro é esse em cima da mesa de centro?”, é a primeira coisa que me ocorre.
“A gente tá tentando te ligar desde as oito, Sávio”, Anna vai revelando uma tensão.
“Mamãe e eu apostamos o que teria acontecido a você”, explica Dominique. “Por acaso você foi assaltado e levaram seu celular e por isso ficou incomunicável?”
“Não, meu celular só descarregou”, respondo, sombrio e desinteressado, sacando o celular do bolso e exibindo a todos.
“Perdi”, diz Dominique, entortando a boca.
“Eu também”, suspira mamãe, me olhando decepcionada.
“Eu ganhei. Sabia que ele tinha ficado sem bateria”, a garota cujo nome não me recordo dá um pequeno gritinho de comemoração, apanhando a grana de cima da mesa.
“Vocês apostaram sobre o que tinha acontecido comigo?!”, pergunto, incrédulo. “E quem ganhou foi uma garota que eu nunca vi em toda a minha vida??”
“Ah”, Dominique bate na testa, recordando-se de algo. “Essa é a Bianca, a minha namorada. Eu já te falei dela. Eu a convidei pro seu... jantar de aniversário”.
Bianca dá um tchauzinho tímido, apresentando-se. Eu só ergo o queixo em sua direção.
“Com licença, gente!”, Anna se dirige a eles, levantando-se do sofá. Em seguida, vem até mim e me pega pela mão. “Vamos aqui fora um instantinho? A gente precisa conversar”.
Vou com ela para o pátio, onde só agora eu noto a faixa contendo os dizeres “Feliz AniverSávio”. Um turbilhão de emoções me invade por conta desse trocadilho que eu aprendi a amar. Mas tô sem cabeça pra saborear o momento.
“Quer me contar o que aconteceu?”, inquire ela.
“Eu tô com um pouco de dor de cabeça”.
“Ok, ok. Mas antes eu acho que preciso de uma explicação, certo?”
“Eu... Eu fiquei preso num caso da empresa...”
“Um caso da empresa...”
“É sério”.
“Não consigo entender. Você é seu próprio chefe. É tão simples arranjar tempo pra comparecer ao seu próprio jantar de aniversário!!”
“Nem sempre é tão simples, Anna”.
“Mas... mas... sua mãe e eu fizemos tudo com tanto carinho. Você sabe que eu ainda tô começando a me dar bem com ela, né?”
Passo a mão no rosto, sentindo-o áspero e suado. O dia foi cheio. E, psicologicamente falando, foi o dobro de cheio.
“Anna”, eu vou ter de lhe contar a verdade. “Eu tava atrás do Ivan de novo. E me esqueci do jantar. Quando me lembrei, já eram mais de nove horas e eu tava longe. Foi isso que aconteceu. E, sim, eu sou um otário irresponsável. Bora, pode jogar na minha cara”.
“Sávio...”, ela está com um olhar de profunda reprovação. “Mas eu te pedi pra não fazer mais isso. E você fez. A troco de quê, hein, Sávio?”
“E não foi só isso que eu fiz”, continuo, deliberadamente desviando do questionamento dela. “Eu também liguei pra Milena. Emprestei o celular de uma pessoa e liguei pra ela”.
Ela prefere ficar quieta, analisando-me com a boca aberta e o olhar entre apreensivo e furioso.
“Foi uma atitude imbecil da minha parte”, assumo. “Ela me tratou muito mal, o tempo todo foi super seca comigo e no final ficou parecendo que eu tinha ligado pra implorar por um ‘feliz aniversário’ dela, o que ela acabou me dando, é verdade. Só que ela me parabenizou como se eu fosse um estranho, um cara que nunca significou nada pra ela”.
Estou chorando. Estou derramando lágrimas que não dão a mínima previsão de que vão cessar.
“Foi minha mãe que fez essa faixa aí, né?”, comento, limpando o rosto com a costa da mão esquerda. Mas Anna não confirma. “Bom, eu sei que foi a minha mãe porque... esse trocadilho foi a Milena que inventou quando eu fiz vinte anos. E a minha mãe adorou...”
“Por quê?”
“Bom, sei lá, acho que é um trocadilho legal e...”
Anna segura as minhas mãos com veemência e eu entendo que ela não está se referindo à história da faixa. De cabeça baixa, ela torna a perguntar:
“Por quê?”
Com as lágrimas ainda rolando, sinto um medo me devorar a alma. Estou diante daquela que eu sempre julguei ser o amor da minha vida, a responsável por crises e crises existenciais, a pessoa na qual boa parte das minhas aspirações românticas foi projetada, aquela que teve um impacto tão violento na minha existência que gerou legados incríveis (como a empresa da qual sou dono), a mulher que praticamente definiu minha vida em antes dela e depois dela. A minha constante.
“Apenas me diga o porquê, Sávio”, insiste Anna.
Deixando a língua livre para pronunciar as palavras, declaro, num tom suave e mais verdadeiro possível:
“Porque a Milena é a minha verdadeira constante”.
Não sei de onde saiu isso, mas é uma afirmação tão cristalina e iluminada.
Anna me encara nos olhos, praticamente sem piscar. Obviamente não está entendendo o que eu quis dizer com a minha resposta, mas ela deve ter capacidade interpretativa suficiente para ver que isso não lhe favorece. Eu quase consigo ouvir sua alma se partir e espatifar, porque a dor fica perturbadoramente visível em sua face. Há um manto de escuridão caindo sobre ela e, mesmo que eu queira, não consigo removê-lo.
“Me perdoa”, balbucio, baixando a cabeça de tanta vergonha e, secretamente, alívio.
Dez ou vinte segundos depois, ela se move. Deve estar arrasada. Consegui estragar o único agrado que iria ter neste aniversário de trinta anos.
“Eu tô indo embora, tô muito cansada”, ela decide, suspirando e sem olhar para mim. “Eu só queria que você ficasse com uma coisa. É uma surpresa que eu tinha trazido”.
Eu concordo com a cabeça, embora ela não esteja me vendo fazer isso. Anna tira do bolso uma caixinha bem pequena e me entrega. Dá um sorriso sem graça e me diz:
“Tô com um pouco de vergonha de entrar, sabe. Será que você poderia pegar minhas coisas?”
“Anna, eu não tive a intenção de...”
“Será que a gente pode continuar essa conversa outro dia?”, ela desvia novamente o olhar, provavelmente segurando o choro.
“Tá”, respondo.
Mas antes, abro a caixinha de presente, que na verdade é uma dessas caixinhas de joias, aveludada. Dentro, um anel.
“Meu Deus!”, exclamo, assustado e constrangido. “Anna, você ia...”
“Por favor, pegue as minhas coisas. Agora, tá?”, ela me interrompe.
Examino a joia por um longo tempo, caindo na real de que o que eu acabei de causar à minha namorada foi maior e mais doloroso do que eu poderia supor. Anna ia me pedir em casamento esta noite.
Para não piorar ainda mais a situação, vou lá dentro pego as suas coisas, entrego-lhe e, antes de partir, tomo suas mãos e, outra vez, peço:
“Eu preciso que você me perdoe”.
“Outro dia a gente termina essa conversa”, ela resolve se libertar e deixar o choro aparecer. Talvez esteja se permitindo deixar a emoção fluir porque está de saída.
Eu a puxo para mais perto. Nós nos abraçamos, mas não nos beijamos. É como um acordo silencioso de que um beijo não caberia aqui, neste instante tão delicado. E isso é tudo para que não restem dúvidas de que Anna Munhoz realmente me ama.
Observo-a partir. Meu coração não parece o de um homem de trinta anos. Ele parece mais velho e cansado, arrebentado e perdido, sem saber como se preparar para as durezas que estão por vir. O que será que vai acontecer?

O trocadilho é excelente, mas hoje não foi um Feliz AniverSávio.