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2 de dezembro de 2017

CONTO: Eritrofobia



Novatília era longínqua e praticamente perdida entre vales e montanhas repletos de flores raras, cujo perfume era extraído para a fabricação de colônias, produtos que os Novatilenses, em sua maioria, usavam como ganha - pão. Foi dessa forma que Eliezer Dasco, um viúvo casado pela segunda vez com uma manceba, enriqueceu e firmou propriedades invejáveis, tornando assim a própria vida invejável. Ele cultivava duas das espécies de flores mais fantásticas e pouco comuns da terra, extraindo dessa fonte a essência que lhe conferia muito dinheiro. Sua esposa, quase uma infante, fazia parte do tesouro conquistado por Eliezer, e todos que o conheciam possuíam a insaciável curiosidade de saber como foi que, num certo dia, o viúvo viajou e, menos de uma semana depois, regressou ao lado de Fiorella, então sua noiva aos catorze anos.
Na noite de vinte e um de abril, um acontecimento muito esperado aguardava uma vasta comemoração, que se estenderia por sete dias. A Igreja Católica, entre apertos e espinhos, conquistava cem anos de estabelecimento na cidade, onde setenta por cento dos habitantes mantinham uma formação religiosa protestante. O Centenário Da Igreja, assim batizado pelo bispo local Dom Teodoro Campos, foi cuidadosamente planejado pelas autoridades clericais de Novatília, pretendendo torná-lo o evento do século.
A preparação meticulosa não escapava da supervisão do rígido Dom Teodoro, naquela primeira noite do Centenário da Igreja. As beatas, os coroinhas e toda a porção de fiéis se desenrolavam nos ornamentos e cuidados finais, para que desse tudo certo nos sete dias em que os católicos daquela cidade tentariam responder à altura da maioria luterana.
Foi durante a cerimônia de abertura que o bispo apresentou às quase quinhentas pessoas que assistiam à missa inicial, no altar, o recém-formado em Teologia Guilherme Roffman, sobrinho de um falecido diácono, Dionísio Roffman. Rapaz de vinte e seis anos, moreno, ligeiramente corpulento, olhos castanhos cristalinos e uma cabeleira vasta mas não longa, de fios ondulados; era um jovem alto e sóbrio, mantendo-se concentrado o tempo todo nas palavras bastante inspiradas de Dom Teodoro. O bispo chegou a se emocionar enquanto contava as dificuldades experimentadas e vencidas naquele século, embora tivesse vivido somente onze anos dele. Breves lágrimas rolaram por sua face enrugada e aplausos ressoaram por toda a catedral.
Ao fim da celebração, três horas depois, Dom Teodoro conversou longamente com Guilherme. Esgotado pela viagem e pelo dia por si só fatigante, o rapaz pediu licença para se retirar e foi dormir. Entrou no dormitório paroquial, onde lhe haviam reservado um dos quartos, e tomou-se de espanto quando, ao abrir a porta, um padre punha fogo em tudo com uma tocha poderosa.
Guilherme ficou tão assustado que andou pra trás em cambaleios, sem saber como reagir àquele atentado inexplicável, principalmente com o tal padre a gritar “Vai-te, filho do demônio!”, enquanto incendiava o quarto. O fogo logo se alastrou pelo dormitório e os guardas que protegiam o lugar se dividiram para apagar as chamas e salvar os párocos, que acordaram atordoados.
Dom Teodoro não parava de se desculpar com os padres pelo triste incidente e, sobretudo, com Guilherme Roffman, ainda chocado com uma “recepção” tão “calorosa”; nem dissera coisa alguma, a não ser alguns monossílabos ou murmúrios, mortíssimo de sono.
— Não devíamos ter libertado o padre Estefano—lamentou o bispo, andando de um lado para o outro.—Sei que só estávamos agindo com compaixão pelo seu estado de loucura mas... foi horrendamente absurdo o que fez agora. Mandarei que o tranquem novamente na torre.
Guilherme, silencioso, acabava de entender que tivera seu quarto atacado por um padre vítima de loucura violenta. O padre Estefano havia sido trancafiado na torre da Catedral cinco anos antes, quando um médico o classificara de louco agressivo (isso explica ele ter xingado Guilherme de filho do demônio e ateado fogo no quarto). O bispo estava pagando uma promessa de dar-lhe liberdade pelo menos durante vinte e quatro horas no primeiro dia do Centenário da Igreja, só que não esperava que logo tão rapidamente ele fosse transgredir e provocar aquela situação feia e constrangedora. Sua punição foi o retorno à torre.
Ao despertar de seu semi-sono, Roffman percebeu que havia chegado um outro sujeito que não parecia ser do comando da igreja. Deparou-se pela primeira vez com Eliezer Dasco, o perfumista maior e mais endinheirado das redondezas. O homem entrou cheio de categoria, trajando um sobretudo preto contra o frio, camisa de algodão e calça cinza de linho. Roffman deu uma olhadela para sua aparência: Eliezer tinha os cabelos penteados para trás, muito pretos, brilhantes; seus olhos possuíam uma tonalidade mel puro, o rosto em geral denotava bom cuidado, embora não lhe tirasse a característica de ser um homem com mais de quarenta anos. A priori, qualquer um que o visse poderia lhe julgar um sujeito implacável e metódico, além de sarcástico. E não estaria errado em pensar de tal maneira.
— Estarei disposto a ajudar no que for preciso, senhor bispo—ofereceu-se Dasco, compadecido.
— Obrigado, senhor Dasco. A igreja agradece profundamente—disse Dom Teodoro, notando a preocupação de seu hóspede.— E quanto a você, meu jovem Guilherme, precisamos providenciar um abrigo para que descanse logo. Quero que perdoe nossa imprudência, isso simplesmente é vergonhoso.
— Mas isso não é mais um problema—resolveu o perfumista, lançando um sorriso ao teólogo.— Em minha casa há muitos lugares e penso que não seria demais hospedá-lo. Afinal, não é todo dia que enviados do Senhor nos dão a honra de uma visita.
— Faria isso, senhor Dasco?—admirou-se o bispo.
— Pois sim, com muito gosto. E digo mais: adoraria que o jovem Guilherme ficasse em minha casa por toda a semana do Centenário. Pelo que já ouvi falar dele, creio que sua intelectualidade me proporcionaria bons momentos de boa conversa, quero dizer, a mim e à minha amada Fiorella.
Dois dos padres que presenciavam a ocasião estremeceram ao ouvir o nome da esposa de Eliezer Dasco, uma ninfa encantadora de quinze anos, por quem aqueles religiosos já suspiraram tantas  e tantas vezes, chegando a se castigar com uma cinta de couro secretamente, e o curioso é que nenhum sabia do tormento do outro. Mas logicamente não era só com aqueles pobres padrecos que a mocinha mexia nos nervos. Muitos outros homens já haviam sido vitimados do secreto “Mal de Fiore”, conforme denominaram alguns cultivadores de ervas de Novatília.
— O que me diz, meu caro Guilherme?—Dom Teodoro deixou a decisão por conta do teólogo.
— Bom, não deixo de reconhecer que o convite não é digno de desfeita. Porém, acho melhor não dar trabalho ao senhor Dasco, ainda mais sendo quase meia-noite.
— Ora, meu prezado Guilherme, não é trabalho algum. Não se esqueça que a idéia partiu de mim mesmo— redargüiu o homem mais rico das redondezas.— A menos que não queira misturar-se com minha família...
Seguiu-se uma onda de gargalhadas ao comentário descontraído de Dasco, inclusive do célebre teólogo, que resolveu deixar-se convencer. Naquela noite mesmo partiu em companhia do homem mais invejado de Novatília.

Assim que chegaram ao casarão de Eliezer Dasco, foi dada a ordem de que o visitante fosse imediatamente hospedado num bom quarto. A mansão não fazia menção à fortuna presumidamente inacabável do proprietário. Ela era velha, tinha uma aparência medieval devido à sua arquitetura de traços góticos e paredes de um tom escuro fantasmagórico. Havia sido pertencida à família que levou os primeiros sinais do catolicismo para Novatília.
Eliezer despediu-se de Roffman e desejou-lhe boa noite, fazendo votos de que no outro dia pudessem travar uma boa conversa e tomar um licor de pêssego.

Um dos pensamentos da noite maravilhosa sob lençóis macios e perfumados da casa de Dasco, perpassando a mente de Guilherme Roffman, foi de como certas coisas na vida sofriam reviravoltas que podiam transpor qualquer ser humano de um lugar para o outro quase por acaso, e muitas vezes de forma inimaginável. Dormiu muito confortavelmente.
A manhã do dia seguinte começaria logo cedo, tendo em vista os eventos na Catedral, onde a presença de Eliezer Dasco e Guilherme Roffman seriam impreteríveis. Foi sabendo disso que, mal o galo cantou ao longe, fora das propriedades de Dasco, Roffman se levantou um tanto sonolento, esfregando os olhos para acordar de fato e ver que ao seu redor todo aquele luxo era verdadeiro. Desceu para a sala de jantar, onde o café da manhã posto lhe deixou impressionado pela indefectível presença do dono da casa à mesa, elegante e aparentando um rosto nada amarrotado pela noite de sono.
— Fiquei curioso em saber quem chegaria primeiro ao café: o senhor ou Fiorella—Dasco demonstrou mais uma vez seu bom humor afiado.— E então, senhor Roffman? Foi uma boa noite?
— Muito boa. Tem uma ótima casa, senhor Dasco.
— Obrigado. É o resultado de trabalho árduo e da mão poderosa de Deus. Ah, aí vem minha doce Fiore!— anunciou o anfitrião, erguendo-se de seu lugar.
Imitando o gesto de Dasco, Guilherme levantou-se da cadeira educadamente, observando o caminhar de princesa de Fiorella Dasco, completa e discretamente atônito ao constatar sua puerilidade, embora aquela qualidade não lhe devesse mais ser atribuída, dado seus quinze anos; era uma adolescente esplêndida. Seus olhinhos verdes e graúdos, fixos num rosto de alvura feérica, onde um nariz afilado e uma boca vermelha como morango davam o toque final de beleza única. Os cabelos escorriam pelos ombros, em cachos castanhos, indo acabar no meio do dorso, penteados com esmero de uma mulher vaidosa.
Foi um golpe fulminante e covarde contra o peito desprevenido de Guilherme. Ele teve certeza naquele momento, como nunca tivera na vida, de que aquela era a visão mais demoníaca e deslumbrante que já encontrara em seu caminho. Seu cérebro se turvara de um sentimento arrebatador, e ele chegou a visualizar aquela gazela correndo nua para seus braços, roçando-lhe os seios como pêssegos frescos (seriam deles que Dasco retiraria seu licor?, cogitou indevidamente o jovem). A inveja ia se apossando do coração outrora nobre de Guilherme Roffman.
— Olá, querida, dê bom dia ao nosso hóspede.
— Bom dia, senhor Roffman—cumprimentou Fiorella, estendendo a mão cortesmente para que o teólogo beijasse.
Com muito gosto, Roffman curvou-se e beijou a mão direita de Fiore, esforçando-se ao máximo para guardar na lembrança o gosto daquela pele suave.
Os três se sentaram e uma empregada os serviu. Após o chocolate quente, a serviçal levou suco de morango e Guilherme novamente teve um espanto. Fiorella gritou ao ver a jarra de suco, que exibia a cor viva do líquido.
Dasco fiou sobressaltado e, chateado, ordenou que retirassem a bebida da mesa e obrigou a esposa a se calar.
— Por favor, senhor Guilherme, queira desculpar Fiorella. É que ela tem um mal raro, uma doença psíquica chamada eritrofobia.
— Pavor à cor vermelha?— concluiu o hóspede, através de uma dedução etimológica.
— Exatamente—confirmou Dasco, dirigindo um olhar fuzilante à desconcertada Fiorella.—Queira comportar-se, Fiore! Já não agüento mais esses atos estúpidos. O que vai pensar o senhor Roffman?
— Por favor, não se importe, eu realmente não me incomodo com esse tipo de coisa. Aliás, é a primeira vez que ouço falar de tal “moléstia”, digamos assim.
O café da manhã foi recheado de delícias camponesas, entre frutas e pães, queijos frescos e sucos que não tivessem a mínima coloração púrpura. Sem falar que Guilherme Roffman foi alvejado com perguntas e mais perguntas sobre sua vida de teólogo, suas preferências, graças à grandíssima curiosidade de seu hospedador. Mas tudo que o rapaz dizia era atentamente ouvido por Fiorella Dasco, que vez ou outra lançava olhares enigmáticos a Roffman, em silêncio de menina obediente.

À tarde, horas depois das cerimônias do segundo dia do Centenário, Roffman pensou em tirar uma sesta costumeira depois do almoço. Adentrou seu quarto e deitou-se na cama macia de pano laranja de algodão. Virou-se de um lado para o outro, nada conseguiu. A recordação da pele angelical e do rosto inocente de Fiorella Dasco não lhe permitiam o descanso. Guilherme, na verdade, não queria mesmo dormir, temendo rudemente que a primeira visão da moça se perdesse de seu cérebro— o qual lhe bombardeava covardemente com pensamentos insanos de sexo e adultério, de carícias ousadas e mordiscadas no lóbulo do ouvido, beijos ensandecidos de línguas que se enroscavam e se perdiam num tonto universo de prazer proibido.
Roffman levantou-se suado, o coração palpitando. Balançou a cabeça como se, assim, fossem se apagar os devaneios voluptuosos. Contudo, o único pensamento do qual ele não queria se distanciar (até porque, talvez fosse um questionamento de Novatília inteira) era: por que tal deusa tinha de ser casada? E sendo tão menina, por que ser casada logo com um homem tão rigoroso (e relativamente velho) quanto Eliezer Dasco?
Sentiu-se à vontade para abrir a janela e, após fazê-lo, experimentou a suave brisa Novatilense que levava consigo um pouco do aroma das ervas que sustentavam o lugar. Eliezer bateu na porta do quarto, autorizado prontamente a entrar.
— Desculpe o incômodo, meu caro Guilherme, mas é que eu pensei... Bom, eu pensei que seria melhor lhe explicar algumas coisas. Sobre Fiorella. É que ainda não tivemos oportunidade de conversar sobre o assunto, por causa das cerimônias.
— Tem certeza de que é preciso?
— Sim. Eu não costumo falar sobre a doença dela, porém vejo que as circunstâncias me obrigam, quero dizer, é uma forma de eu desabafar minhas preocupações. Sabe, senhor Roffman, tenho muito medo de um dia precisar trancar minha amada esposa numa torre, tal como foi feito com o padre Estefano.
— E é tão sério assim? Bem, eu entendo que se preocupe que o problema de Fiorella pode piorar a ponto de... Mas, se me permite um comentário, ela me pareceu muito sadia.
— Sei. Na verdade, sua eritrofobia se deve a um trauma. Fiore viu a mãe morrer, derramar muito sangue. Isso foi quando ela era muito mais nova, e trouxe danos psíquicos à sua vida, como o senhor pôde ver durante o café. Fiore detesta ver a cor vermelha. É como se lhe enojasse e perturbasse. A nós, que não padecemos desse mal, soa estranho e até inconcebível uma fobia aparentemente patética.
— É verdade. Mas eu consigo compreender o quanto deve ser angustiante uma vida alheia a tantos meios de se deparar com o vermelho.
— Bom... Senhor Roffman, deixe-me lhe fazer uma confissão de homem para homem, sim?— Eliezer corou um pouco ao pedir a palavra— Enquanto o vermelho causa tanto estardalhaço mental em minha mulher... bem, em mim ele me causa excitação. Veja bem, peço que não me compreenda mal, o senhor é teólogo e, como eu, católico fervoroso, mas convenhamos que nós, homens, não devemos negar certas influências, por mais pecaminosas que sejam.
Guilherme forçou um sorriso de compreensão masculina e sentiu vontade de aproveitar a deixa do outro e confessar a ele que estava muito desejoso de pecar com sua esposa eritrofóbica.

Um dos piores acasos pouco antes do anoitecer do terceiro dia do Centenário, na mansão de Eliezer Dasco, foi o proprietário ter necessitado sair, imprevisivelmente,  e deixar que Roffman fizesse companhia a Fiorella.
A sala de estar do casarão, além de decorada com móveis de luxo e quadros pintados por renomados artistas, exibia no centro uma mesa de cedro onde um único elemento se fazia presente: a harpa de Fiorella, instrumento que ela tocava com maestria e paixão. Mas ele não estava sobre a mesa, estava nas mãos da doce e sempre pesarosa moça, que, sentada sobre uma poltrona de estofado de couro, dedilhava as cordas de olhos fechados; abriu-os e não se espantou com a presença de Roffman, olhando-a extasiado.
— Senhor Roffman— disse Fiorella, encerrando sua atividade e abrindo meio sorriso.— Minha música o estava incomodando?
Fingindo não perceber o decote hipnótico da blusa rosa-iogurte da musa, Roffman sinalizou que não estava incomodado. Atravessou a sala até chegar ao cantinho perto da janela, onde ela permanecia.
— A senhora toca muito bem, senhora Dasco. Música própria?
— Não. Só toco minhas composições quando estou inteiramente sozinha.
— Ah!— fez Guilherme Roffman, atormentado ao ouvir a última palavra dita por ela, pois esse vocábulo lhe sugeria momentos íntimos cheios de tesão— E sobre o que são suas composições?
— Sobre amor, ódio, tristeza. Sentimentos simples e universais. Gosto de imaginar melodias que possam me dar alguma fuga. E o senhor? Além de entendido em Deus, tem alguma paixão artística?
— Já tive. Cheguei a vender quadros para me sustentar nos tempos de faculdade, os quais eu mesmo pintava. Meus pais morreram quando eu tinha sete anos e, portanto, não havia quem pudesse me bancar os estudos. Meu tio Dionísio estava recluso na Itália, mandando algum dinheiro sempre que podia, já que era diácono.
— Que pena!— comentou ela, amargamente— Eu entendo perfeitamente sua dor. É dessa forma que eu componho. Então não tem esposa, filhos?
— Não.
— Pretende usar batina, então?
— Oh, não, não, senhora Dasco!—riu-se Guilherme— Ainda sou muito jovem e pretendo organizar minha vida primeiro.
Ela baixou a cabeça por um instante e ele aproveitou para espiar o relevo de seu par de pêssegos maduros, sentindo um frio percorrer-lhe os nervos, uma vontade voraz de avançar naqueles frutos empinados. Desviou o olhar quando Fiorella ergueu a cabeça e se lamentou:
— Meu marido brigou muito comigo. E eu queria me desculpar por tê-lo assustado, senhor Roffman, com meu ataque. Imagino que ele já deve ter lhe dito sobre minha doença estranha.
Roffman ficou em dúvida se contava ou não sobre a conversa do dia anterior com Eliezer. Talvez Fiorella não fosse se zangar, posto que ela demonstrava ser tão adulta. Talvez as circunstâncias da vida a tivessem obrigado a envelhecer mentalmente depressa.
— Bem, ele me disse algo. Mas não se preocupe com isso, eu não tenho porquê ficar me aborrecendo. E a senhora não tem culpa de sua mente ter se traumatizado com as atrocidades que lhe ocorreram.
Fiore deixou a harpa cair, estupefata com o que ouvira de Roffman, levantando-se agitada da poltrona.
— Meu marido lhe contou?!
— Hã... Ele... sim, ele... —atrapalhou-se Roffman, percebendo que cometera alguma falha.— Perdão, eu juro que não queria lhe chatear. O que houve?
— Ele não deveria ter lhe dito, senhor Roffman. Esse tipo de segredo só cabe a nós dois. Esse segredo é tão íntimo. Sinto-me envergonhada que esteja a par desse assunto.
— Perdão, senhora Dasco. Com licença.
Guilherme fez menção de sair, e Fiorella o segurou pelo braço, fitando-o com desespero.
— Senhora Dasco...
Ela o abraçou de repente, com força, como se o jovem fosse um abrigo seguro e fiel. Os nervos de Roffman foram ao delírio e ele correspondeu àquele amplexo, enlaçando-a firmemente também. Notando que seu membro começava a se intumescer numa velocidade tremenda, o teólogo tentou afastar-se um pouquinho a fim de não deixar suspeitas à púbere.
— É tão horrível, senhor Roffman. É tão nojento e traumatizante passar pelo que passei. Ver meu próprio sangue jorrando aos montes, manchando minha pele e meus lençóis...
Guilherme esquecera de sua vontade ardente ao ouvir aquilo. Do que estaria ela falando? Não havia sido traumatizada por ver a mãe morrer? Que história era aquela de “meu sangue jorrando aos montes”?
— Senhora Dasco, por favor...— preocupou-se Roffman, meio constrangido em sentir às suas fuças o perfume dos cabelos de Fiore— Não há necessidade de se deixar entristecer e... seu marido pode chegar e interpretar mal essa situação de nós dois.
― O senhor... tem medo de meu esposo?
Fiorella continuou abraçada a Guilherme Roffman, entretanto inclinou-se um pouco para trás e mirou seus olhos cor-de-folha-seca, e naquele minuto ele leu, dentro daquelas pérolas verdes da menina, que havia uma cumplicidade naquela pergunta, uma espécie de desafio: “o senhor tem medo do meu esposo?”
Guilherme quis fugir como uma criança temerosa, ao mesmo tempo em que queria atacá-la com ósculos quentes e carinhos sem culpa, abraçá-la ternamente ou até mesmo como uma fera faminta. Ele viu nos olhos dela, teve certeza que Fiore não lhe fizera aquela indagação à toa. Ela tinha se oferecido e ainda por cima o enfrentou. Tentação do inferno!
— Responda-me, senhor Roffman—insistiu ela, como uma moleca cheia de curiosidade.— Tem medo de que meu marido nos veja abraçados, em plena troca de experiências? O senhor me entende, eu o entendo. Somos parecidos, não somos?
— É melhor evitarmos qualquer coisa. O Senhor Dasco deve ser um homem ciumento e eu não quero parecer audacioso. Para ser sincero, nem eu mesmo entenderia se visse minha esposa abraçada a um hóspede que eu mal conhecesse. Principalmente uma esposa tão bela.
Fiore se soltou de Roffman e continuou a esquadrinhar seu rosto, levando sua mão à face esquerda do rapaz, acariciando-a afavelmente; Roffman tremeu como um inseto abatido.
— Então o senhor Roffman me acha bela!? É isso mesmo, senhor Guilherme Roffman? Acha-me mesmo bela?
— Sim, senhora Fiorella. Admito que sim. E não é nenhum segredo, a senhora bem deve saber. Novatília inteira pensa o mesmo.
— Mas o senhor me acha bela como os outros acham? Ou...?
— Chega, senhora Dasco. Dê-me licença, acho que preciso ler um pouco. Se não se importa, essa situação está me deixando encabulado, eu realmente me intimido muito facilmente.
Ela mais uma vez o segurou pelo braço, novamente o desafiando. Guilherme esqueceu-se completamente de sua condição ali; o leão voraz em seu peito parecia ter escapado da jaula e estava pronto para investir contra sua presa. Guilherme Roffman puxou a manceba para si e, fitando-a a ponto de explodir, sucumbiu ao desejo pulsante, beijando-lhe e sugando sua língua molhada. Ele estava certo quanto a ela estar lhe provocando, pois permitia livremente que aquele pobre tentado fizesse o que bem queria.
— Eu sabia, eu sabia—murmurou ela, com voz abafada e também extasiada de paixão.
— A senhora é uma grande puta, senhora Dasco. E das mais saborosas.
Roffman já nem se lembrava de quem era Deus (se bem que, de fato, era de quem mais queria esquecer) e arrancou a blusa de Fiorella com um só puxão, sendo presenteado com os dois pêssegos de bicos rosados que se desvendaram, nus e saudáveis; a silhueta dela e suas curvas de moça formada, adolescente cheia de vitalidade, com um tronco bem-arquitetado feito estátua grega.
— Agora sei que não tem medo, senhor Roffman. Nem se meu marido entrar por aquela porta destrancada, não é? O que tem a perder? Está apaixonado por mim?
— Eu quero devorá-la inteira, Fiorella. Meu peito pulsa de lascívia por seu corpo, por suas curvas, suas ancas arredondadas e suculentas. Eu chego a tremer de paixão desde nosso primeiro encontro, Fiorella. Quero fazer amor dentro de ti. AGORA!
Fiorella despiu-se de resto e deitou-se de bruços no assoalho, deixando os quadris ligeiramente empinados. Guilherme tirou suas vestes feito louco e pulou na direção do corpo ofertado pela ninfa sedutora. O teólogo entregou-se à armadilha daquela carne vistosa com gosto, e fez amor dentro dela como confessara, na aventura de serem flagrados, e a janela aberta perto deles, deixando entrar a brisa de ervas frescas. Era um brinde à consumação proibida.

Após um jantar bem-humorado em que Eliezer narrou a emergência que o tirara de casa durante a tarde, todos tomaram vinho. Guilherme adoraria que fosse licor de pêssego, contudo contentou-se com a “dose extra”, na ausência do hospedador, provada da própria fonte embutida no tronco da jovem adúltera. 
— Fiore, vá deitar-se!—ordenou Dasco, taxativo.
Ela o obedeceu e despediu-se do amante, lançando-lhe um olhar que confirmava que teriam um encontro rápido na madrugada, enquanto Eliezer dormisse, para mais uma dose do “licor”. Só de pensar nisso, Roffman sentia o membro enrijecer.
— Como foi a tarde, senhor Roffman? Acredito que entediante.
— De modo algum. Tive a oportunidade de ver e ouvir a senhora sua esposa tocar harpa, que, aliás, lhe rende um talento fantástico.
— Ah, sim, claro. Herança da mãe. O talento artístico e a paixão pela música erudita. Devo confessar que além dos atributos naturais de minha querida Fiore, este seu dote foi de grande importância para que me encantasse perdidamente.
— E eu percebi outras semelhanças entre os dois, que decerto não se resume apenas a gostos. Sem dúvida formam um bonito casal, apesar da diferença etária, já que também possuem certos traços físicos semelhantes.
— O senhor acha mesmo?— admirou-se Eliezer, interessado— Nunca notei, se bem que não me olho muito no espelho. Detesto enxergar as primeiras rugas. Mas com toda certeza posso lhe afirmar que Fiorella e a falecida mãe têm os mesmos olhos verdes e expressivos.
— Diga-me, senhor Dasco, isto é, se não for incômodo... Chegou a conhecer a mãe de Fiorella antes da tragédia?
— Sim— respondeu Eliezer com educado pesar na voz.— E creia, meu caro: Fiore tem os olhos idênticos aos da mãe. Às vezes olho para ela e me lembro da pobre mulher. Que triste destino! Depois desse fatídico acontecimento, minha querida precisou arrancar forças do nada para suportar a dor, e se desmancha em lágrimas toda vez que se recorda da perda. E do sangue se espalhando pelo chão... O que deixou uma seqüela terrível, como a que o senhor pôde constatar com os próprios olhos: a eritrofobia.
— Humm... Porventura há médicos especializados nesse tipo de neurose?
— Há estudiosos do assunto. Discípulos de Sigmund Freud, entusiastas que não me convencem o suficiente. Fiorella é o primeiro caso que muitos deles ouviram falar.
Guilherme deu um suspiro, sorveu o último gole de vinho da taça e deu “boa noite” a Eliezer Dasco, retirando-se da mesa para dormir. Lá pelas tantas da madrugada, a cama usada por Roffman ganhou uma temperatura febril, e balançou freneticamente, molhando-se de suor e saliva por horas a fio, até esgotar as energias de ambos os transgressores.  Num quarto não muito longe dali, Eliezer Dasco roncava feito um inocente.

A semana do Centenário ia se esvaindo e, no exato sexto dia, ainda embriagado de amor pelos dias anteriores nos quais Fiore dava algumas escapadas de minutos para lhe servir “licor”, Roffman já tinha notado que muitas vezes ela parecia estranha e cada vez mais se revelava apaixonada—o que possuía a irritante dualidade de ser perigoso e maravilhoso. No entanto, Roffman ia desconhecendo o perfil de sua criança amada. Guardava dúvida a respeito do que ela dissera sobre seu próprio sangue. Será que o milionário Dasco se olvidara de algum detalhe da história da morte da sogra? Será que por alguma razão ele omitira o pormenor que, conforme os lamentos de Fiorella, seria a verdadeira causa de sua eritrofobia? Mas por quê?
Engenhoso, Roffman aproveitou que os mais influentes de Novatília haviam ido a um almoço cristão com o bispo Dom Teodoro (Eliezer e Fiorella também, obviamente), esgueirou-se para o quarto do casal, determinado a procurar algum indício que lhe resolvesse as indagações. Algum jornal da época da morte, algum diário, alguma carta, alguma fotografia, qualquer coisa. Então Guilherme Roffman, já perdido e sem sequer repudiar seu comportamento de ultimamente, mexeu cauteloso pelos pertences dos Dasco, em cômodas, guarda-roupas, sob a cama, onde quer que fosse. Encontrou papéis, mas nenhum lhe dava qualquer luz, qualquer idéia. Não dispensou nem a Bíblia e meteu a mão entre suas tantas páginas, até tatear um papel que, ao tirá-lo, constatou ser um documento antigo.
Deu uma rápida olhada. Era uma certidão de nascimento. Lendo assustadoramente rápido e agoniado, Guilherme Roffman caiu prostrado e boquiaberto ao descobrir um horrendo fato. Pensou ter visto o próprio satanás no quarto, sarcástico e satisfeito em assisti-lo respirando arfante.

Quando a madrugada chegou e Fiorella percebeu que o marido roncava como um porco, saiu nas pontas dos pés para o aposento de Guilherme, que a aguardava ansiosíssimo, afinal ela mesma decidiu que, sendo aquela a noite da despedida, haveria capricho e dedicação quase mortal no leito.
Mal entrou, Fiore foi recebida com uma reprimenda do amante, que confessou saber do pavoroso segredo daquela mansão. Ela quis recuar, assustada, atordoada, porém Roffman trancou a porta, exigiu que ela fizesse silêncio e ordenou que lhe admitisse a verdade.
Aos prantos, encolhida no chão frio, Fiorella abriu o coração:
— É verdade. Você descobriu a verdade. Por favor, liberte-me desse sofrimento.
— Desgraçado! Infame! Torpe! Miserável, hipócrita, pervertido!— enfureceu-se o teólogo, mas em voz baixa, doido de raiva de Eliezer Dasco.
Agachou-se perante sua ninfeta amada, enxugando-lhe as lágrimas e consolando-a.
— E ele ainda guardava isso na Bíblia! É um despautério daquele cretino imoral! Foi ele que matou sua mãe, não foi? Aquele mentiroso... Diga-me, meu amor, ele matou a esposa pra ficar com a filha, não foi?
Fiorella consentiu com a cabeça e o rosto banhado em lágrimas, seus braços foram ao encontro do corpo de Guilherme, seu protetor naquela hora angustiante. Tanto tempo tendo que engolir os atos vis e imundos do próprio pai. Sim, pai, essa era a realidade familiar do casal Dasco. E ela contou toda a história entalada durante anos, em que Eliezer abusava de sua inocência e a estuprava longe dos olhos da mãe. Sua eritrofobia não se devia ao sangue da genitora, mas do seu próprio, quando perdera a virgindade à base da brutalidade de um homem dissimulado e perverso, daquele em quem ela deveria confiar, que lhe ensinavam na escola a respeitar e amar, que lhe ensinavam na igreja a honrar, que lia nos livros que contavam os atos heróicos dos pais. Todavia, o seu não era assim. O seu era infernal, violento, sanguinário e cafajeste. Matou a mãe trabalhadora de Fiorella, sua real mulher, quando essa descobriu sua canalhice. Depois encheu a pobre menina de ameaças e a coagiu a tornar-se sua nova esposa, num plano perfeito de aparências que todo bom religioso hipócrita era capaz de pôr em prática. 
— Então é por isso que o canalha nunca mencionou sobre seu pai, só sobre sua mãe. E é por isso que os achei parecidos. Maldito! Cretino!
— Mate-o, senhor Roffman! Liberte-me desse martírio. Mate-o e fujamos juntos o quanto antes.
Roffman fixou a vista lânguida no rosto molhado da amante e lhe jurou:
— Sim, meu amor. Será morto. E você será minha, e livre.

O plano diabólico era de, durante o café da manhã, já que após servir à mesa os criados se encarregariam de outros afazeres, Roffman apunhalaria Eliezer e, em silêncio, carregria o corpo para o quarto do homem. Posteriormente, ele e Fiore fugiriam escondidos, prontos a embarcar no primeiro navio que os levasse para longe de Novatília.
— Eu sugiro que bebamos agora um pouco de licor de pêssego— comentou Guilherme.— Tendo em vista que não encontrarei um tão bom quanto este da sua casa, senhor Dasco.
— Sim, como não?— aprovou Dasco— Vou mandar que nos sirvam já. E você, Fiore, não vai beber nem um gole. Sabe que não é para uma mulher que se preze.
— Como quiser, senhor meu marido.
Enquanto saboreavam a bebida, calados e se observando, Roffman verificou a faca que ele deixara preparada desde que descera àquela manhã, pousada sobre a mesa, cuja lâmina selaria o fim da vida sórdida de Eliezer Dasco.
—Parece tenso, senhor Roffman— avaliou Eliezer, nem vendo a esposa/filha apanhando a harpa e apoiando-a sobre o colo.
— Se me permitem, meus homens— disse ela, com voz etérea e dedilhando as cordas do seu instrumento—, quero lhes mostrar essa melodia que eu compus para esta ocasião.
— Fiore, vá guardar isso. O que pensa que está fazendo?
— Pensei que só tocasse suas composições quando estivesse plenamente sozinha, senhora Dasco—balbuciou Roffman, vendo que Fiorella ia atrasar o plano.
— Desta vez não, amado senhor Roffman. É uma ocasião que precisa de trilha sonora.
— Mas de que ocasião está falando, ó menina tola?— esbravejou Eliezer, sentindo sufocar-se e o ar lhe ser escasso— E que intimidade é essa... com o senhor... Roffman?
— Eu amo o senhor Roffman. Eu o odeio, papai. Amo minha música. Mas só posso executá-la pra mim, porque só eu me entendo, só eu basto pra minha vida.
Eliezer trocou um olhar de ódio com Roffman, descobrindo tardiamente que os dois mantinham um romance sob seu teto.
—Ingrato!—mal gritou Dasco, levantando-se agitado e furioso. Mas não resistiu e caiu fulminado sobre o tampo da mesa, de olhos abertos e mãos tremendo.
Guilherme Roffman olhou para Fiorella atrás de uma explicação. E ela, interrompendo sua música, falou:
— Não quero ver sangue, senhor Roffman. Odeio o vermelho, lembra-se? Por isso mudei os planos por minha conta. Desculpe se não o avisei. Vá, mas saiba que o guardarei em meu coração. Para sempre.

Roffman caiu estatelado sobre a superfície da mesa, tal como seu rival, o veneno do licor fazendo efeito instantâneo em seu organismo. E Fiorella, egoísta, tocando sua composição macabra, melancólica e finalizadora. Se um quarto personagem ali estivesse (e vivo), poderia jurar que sua face macilenta exibia um breve sorriso de alívio. 

28 de outubro de 2017

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 4x11: O PLANO LAURA PALMER



(Denner)

Luzes se acendem. De repente, estou acordado, os olhos se acostumando à claridade, porém um dos cantos do quarto se mantém escuro, estranhamente. A cama e os outros objetos sumiram, e eu estou sentado numa poltrona de couro preto, bastante confortável. Estou de terno, o que é muito incomum, já que eu nem sequer tenho um. Meus cabelos estão molhados, penteados pra trás, como eu mesmo jamais vi. Um cheiro paira no ar. Café? Além disso, há outro aroma, algo mais frutado, delicado.
Por algum motivo desconhecido, sei que este é o meu quarto, mas estou tão lúcido que nem me sinto num sonho. Tudo ao redor está diferente; o chão, as paredes e o teto estão pintados de listras brancas e pretas, ajustadas em ziguezague, sobrepondo-se umas às outras.
Ao lado da minha poltrona, identifico o que atrai meu olfato. É café mesmo. Quentinho, com a fumacinha cheirosa subindo da xícara farta. E tem um generoso pedaço de torta, com uma cara apetitosa. Parece com aquela torta de cereja que eu experimentei na casa do Hektor Casanova...
Num crescendo, um som característico de lambada invade o ambiente. É impossível não saber que se trata de “Chorando se foi”, daquele antigo grupo Kaoma, só pelos acordes iniciais. Mas quem é que sonha com lambada? Bom, sonhos não fazem sentido.
E o tal canto que estava escuro ganha luz, como se um holofote só para ele tivesse sido aceso. Uma curiosa figura de baixa estatura está dançando a lambada, com graciosidade e... hã... um certo esforço de sensualidade, talvez? Pelo menos essa deve ser a intenção da pessoa. Já vi essa anãzinha antes. O nome dela é Borsana. Outro suposto holofote se acende a mais ou menos um metro de distância dela. Seu irmão gêmeo Bóris é quem está assumindo o vocal da performance, com igual entusiasmo (e um surpreendente grave na voz bem gostoso de ouvir). Eu estou sorrindo, não sei o porquê. Assisto a tudo no estado mais pleno de paz. Arrisco até a dizer que estou tendo um momento muito divertido, balançando a cabeça levemente enquanto me deixo apossar pelo ritmo envolvente da lambada.

Chorando estará ao lembrar de um amor
Que um dia não soube cuidar...

Do mais profundo das minhas lembranças, me vem uma conversa que tive pouco tempo atrás com Bóris, e me recordo dele me indagar se eu gostava de lambada. E agora, me deparo com isso. Como as duas coisas podem estar conectadas? Sonhos não fazem sentido, mas o ruim é quando eles fazem ainda menos sentido ao trazerem referências que nem na realidade a gente entendeu.

Canção, riso e dor, melodia de amor
Um momento que fica no ar...

Por que estou sonhando com os anões serviçais de Hektor? Eu tenho trauma de anões, todo mundo conhece a história; a julgar por essa referência, o mais correto seria dizer que estou num pesadelo. E por que isso parece tão real? Como é que eu sou capaz de saber que isso é um sonho?
Bóris para de cantar e engata um solo admirável de saxofone, apesar de eu ter a vaga lembrança de que na versão original da canção isso não existe. E Borsana se acaba dançando, suando tanto, mas desenvolvendo a atividade como se fosse seu último dia no mundo.
A apresentação dos irmãos termina. Sinto vontade de aplaudir, mas do nada o clima fica tão solene que nem parece que agora há pouco o quarto estava mergulhado em uma alegria caliente. Mas isso é um sonho, não é? Os sonhos não se preocupam em seguir a lógica, muito menos de construir alegrias num momento, só para detoná-las num instante seguinte sem a menor pena.
Borsana sobe com certa dificuldade numa poltrona perto de mim, enquanto Bóris vem caminhando em passos lentos e meio desengonçados, carregando o saxofone com ambas as mãos, encarando-me sério. Ele está usando um paletó vermelho, com uma camisa vermelha por baixo e uma calça― adivinhe!― vermelha também.
Bóris, por sua vez, diferentemente de sua irmã e eu, não se senta numa poltrona, mas num sofá de três lugares. Assim como eu, tanto ele quanto Borsana têm café e torta de cereja à disposição. Não dá pra mensurar o tempo com precisão aqui, mas um longo tempo se passa enquanto Bóris me encara, pensativo. Borsana apenas come torta e beberica café, cantarolando  “Chorando se foi” baixinho, alheia à qualquer coisa.
“Áh sopmet êcov oãn aimrod oãt meb missa, Denner”, sibila Bóris, de trás pra frente.
“Se eu estou dormindo, como consigo sentir tudo tão... intensamente?”, respondo-lhe com outra pergunta, o que é surpreendente, pois eu entendo o que ele diz sem o menor esforço. É como se eu tivesse habilidades especiais neste universo delirante. “Meus sentidos estão totalmente ligados e minha consciência e percepção das coisas também”.
“Sues soditnes oãtse sodagil iuqa euqorp êcov asicerp seled, sam on onalp ‘laer’, rop missa rezid, ues oproc átse me odnuforp odatse de otnemaxaler, omoc êcov mev odnasicerp áh said. Outse otrec, oãn?”
Com um gesto quase ensaiado, apanho a xícara da mesinha ao lado da minha poltrona, levo-a até as narinas, deixo o cheiro agradável do café atravessar os meus sentidos.
“É”, concordo com Bóris. “Dormir não tem sido fácil”.
“Amoc ad atrot”, ele mexe o queixo em direção ao meu prato.
Não havia um garfo ao lado do prato de torta segundos atrás, mas como isto é um sonho, então não é com a materialização repentina de um garfo que eu vou me preocupar.
“Está gostosa , como da outra vez”, elogio, mastigando a primeira garfada.
O olhar fixo de Bóris esquadrinha meu rosto. Me encabulo. Por um momento fico me sentindo como um experimento científico, onde a qualquer minuto vou demonstrar reações previamente esperadas devido a estar comendo da torta e bebendo do café.
“Por que eu estou aqui?”
“Met azetrec ed euq é ossi euq êcov reuq ratnugrep, Denner?”
Claro que eu tenho certeza, ora. Não tô acostumado a entrar tão fundo num sonho a ponto de interagir com as pessoas de forma tão vívida, quase como se... não fosse realmente um sonho. Peraí, não tem como não ser, o contexto todo é exagerado demais, não há a menor chance de eu ter marcado um encontro com esses dois numa sala misteriosa (que eu agora não sei dizer com certeza se é o meu quarto ou não) e não me lembrar disso. Ainda mais com um histórico como o meu envolvendo anões.
“Sohnos oãn masicerp res sanepa sasioc ueq someviv san sasson setnem”, filosofa Bóris, finalmente se servindo do café. “Sa sasioc ueq somezaf mun ohnos mecnetrep eleuqà odnum, oãtne é odacilpmoc ragluj euq sale majes siaerri ós euqrop somavátse odnimrod an oãisaco”.
“Isso é muito confuso pra mim”.
“O euq reuq ratnugrep, Denner?”
Ele esfrega as mãos após colocar um pouco de torta na boca, sem usar o garfo; o prato repousando em seu colo, como uma criança que vê TV e faz um lanchinho ao mesmo tempo.
Por que ele me oferece a oportunidade de fazer uma pergunta com esse ar misterioso incessante? Por acaso ele guarda todos os segredos do universo e está se gabando disso?
E se eu lhe perguntar, por exemplo, quando será a data da minha morte? Não, não, não, talvez algo mais urgente. Quem sabe se eu perguntasse o que devo fazer com Pedro e Olívia e encontrar uma maneira de fazê-los deixar a mim e, consequentemente, Rita em paz? Ou, indo mais além, e se eu perguntasse a ele como erradicar efetivamente a corrupção no Brasil? Ou, sendo mais abrangente e tentar obter a resposta que não deixa o mundo literário dormir: Capitu traiu Bentinho?
Bóris e Borsana começam a rir. Droga, será que me ouviram? Nem no sonho eu deixo de ter pensamentos orais?
Suas risadas são pavorosas. À medida que riem, a luz do ambiente fica mais baixa, tremeluzindo como se ameaçasse ir embora mas não vai. Uma sombra assustadora perpassa o rosto de cada um dos irmãos, até que a luz se restabelece de vez e Borsana simplesmente volta a comer sua torta. Bóris remove o prato do colo e o devolve à mesa. Em seguida, levanta-se com certa dificuldade em alcançar o chão facilmente, e vai andando até uma cortina de veludo vermelha. Por que esse sonho tem tanto vermelho?
Bóris dá meia-volta, exibindo um sorriso malicioso. Me olha com apenas metade do corpo direcionado pra mim e pergunta:
“Airatsog ed recehnoc Laura Palmer?”
Emudeço. Conhecer Laura Palmer?? De todas as coisas absurdas que se pode esperar acontecer num sonho, ficar frente a frente com uma personagem de livro é bastante invejável.
“Sim, por favor”, aceito sem a mínima hesitação.
O anão vai para trás da cortina e some. Perto de mim, ouço Borsana sussurrar uma música que não conheço.
Alguns segundos depois, Bóris sai detrás da cortina vermelha, de mãos dadas com uma mulher de cabelos tão loiros que chegam a ser quase brancos, amarrados como rabo-de-cavalo. Ela está elegantemente vestida; com um terninho preto estilo executivo, saia também preta, sapatos pretos de saltos baixos. Felizmente, Laura Palmer é mais bonita do que minha imaginação prévia concebera.
Não cheguei a fazer a tal pergunta a Bóris, mas por alguma razão ele sabia―melhor que eu, aliás―, que uma das questões que vem martelando e me matando por uma solução é justamente essa: como ajudar Hektor Casanova a se desapaixonar de uma personagem que ele mesmo criou? E então ele me traz Laura Palmer, o próprio objeto de paixão do meu cliente, para diante dos meus olhos. Como isso pode ser possível? Não há como desprezar a grandiosidade deste momento.
Bóris se senta de volta em seu sofá de três lugares; Laura se posiciona no mesmo sofá, mas na extremidade oposta à de Bóris, ficando um vão entre eles. Agora entendi porque havia esse sofá aqui.
“Muito prazer, senhorita Laura Palmer. Eu sou muito seu fã”, declaro.
Ela abre um sorriso lentamente; sua feição carrega uma melancolia opressiva, que, por mais que um par de lábios semiabertos tentem disfarçar, os olhos escancaram desesperança.
Sinto que eu deveria, por educação, me levantar para cumprimentá-la, mas é como se eu não tivesse o menor controle das minhas ações aqui. Domínio zero das minhas vontades. Algo me impede de sair do conforto desta poltrona.
“Você é o desapaixonador?”, indaga ela.
Ufa! Pelo menos ela fala as palavras na ordem normal.
“Sou um agente do desapaixonamento, pra ser mais exato”, esclareço, escondendo a surpresa de como é que ela sabe disso. Quero dizer, ela é uma personagem, um produto da imaginação de outra pessoa. Se bem que, eu sabendo dessas informações e nós estando no meu sonho, acredito que ela deva ter acesso à qualquer coisa relacionada a si mesma. Ainda bem que eu nunca fui como esses nerds pervertidos que se masturbam pensando em gente fictícia. Já pensou na vergonha que eu estaria passando agora?
“Aroga êcov edop ratnugrep à airpórp Laura Palmer omoc ale odep raduja êcov moc a aus edalucifid, Denner”.
“Nossa!”, me admiro, meu olhar certamente exprimindo alegria por enfim encontrar uma maneira de cuidar  do caso do Hektor, por mais absurda que essa maneira tenha se apresentado. “Eu só não imaginei que eu teria um sonho só pra me ajudar com isso”.
“Sam són oãn somatse on ues ohnos, Denner”, revela Bóris, voltando o olhar com doçura para Laura. “Somatse on ohnos aled”.
Me sinto afundar na poltrona ao constatar que o anão não está no menor clima para zoeira, e então a sala (que agora eu sei que não é mesmo o meu quarto) gira lentamente. Não há a menor lógica no que vou concluir agora, mas neste exato momento tudo parece fazer mais sentido. E, ao mesmo tempo, não faz sentido algum.


“Como faço pra ajudar o Hektor a se desapaixonar de você, Laura?”
Com suavidade, ela cruza as pernas e solta os cabelos, que se espalham deslizando com graciosidade por seus ombros.
“Eu não quero mais estar aqui”, afirma ela, simplesmente.
“Mas... Ué! Desculpa, mas eu não entendo. Não quer mais estar aqui? Aqui no sonho?”
Seus ombros caem, e ela inclina o busto um pouco para a frente, parecendo reflexiva; Ambas as mãos sobre as pernas.
“Não quero mais estar aqui, no lugar onde eu estou, no lugar em que nasci. Tem sido tão... sufocante. Tem sido um fardo. Eu já não tenho mais necessidade de estar aqui. Você entende?”
“Não”.
“Você consegue enxergar a tristeza? Existe uma música triste no ar; tudo ao redor apenas confirma essa tristeza constante”.
Tudo que ouço é Borsana sussurrando ainda a mesma música de minutos atrás, a tal que eu desconheço. Seria essa a “música triste no ar”? Tem uma pegada meio caída mesmo, uma melodia trágica, mas também bonita.
“Você parece muito triste, é verdade”, observo.
“Tantos livros e tantas investigações”, ela diz, com cansaço e certa frieza. “O Hektor me usou e explorou de todas as formas que um autor poderia abusar de um personagem. Anos a fio tendo de me submeter a todo tipo de tramas e reviravoltas, mortes e romances, segredos e mentiras. Estou irremediavelmente cansada”.
Ela tem um jeito todo poético de se expressar. É natural, sendo criatura de Hektor Casanova, cuja prosa é toda entremeada de um lirismo primoroso. Mas Laura Palmer tem tanta vida própria pulsando e uma personalidade tão marcante, que começo a enxergar razões para Hektor ter se apaixonado por ela.
“E o que você quer então?”, encorajo-a.
“Eu quero ser liberta desse fardo, sr. Agente do Desapaixonamento. Eu preciso morrer”.
As luzes começam a piscar na sala, novamente o ambiente sendo coberto por uma aura soturna. Sinto frio. O ambiente estava ameno o tempo inteiro, mas agora está com um frio esquisito. A sensação é de que a mera menção à morte, num universo onírico, acabe atraindo a presença do horror para o nosso redor.
“Morrer?”, repito, tentando entender se Laura quis ser literal.
“Morrer”, reforça ela.
“E como isso vai fazer o Hektor se desapaixonar de você?”
“Por que a paixão prende as pessoas. Mas o amor não. Amar também é deixar ir”.
“Então, se ele entender que te ama, ele vai entender também que precisa matar você. É isso? Mas não matamos a quem amamos. Ou não deveríamos matar”.
“Sou uma personagem, Denner”, argumenta Laura. “Na mente fértil do Hektor ainda existe um lugar em que ele tem consciência de que eu não sou de carne e osso, e que matar um personagem importante também pode ser um excelente recurso narrativo, porque traz impacto para a história, e se for feito da maneira certa, traz honra ao personagem que precisou morrer, pois este morre como herói ou pelo menos como alguém que cumpriu uma missão relevante naquele universo. Além do mais, ao me matar, Hektor não vai mais precisar ter nenhum tipo de obrigação comigo, não vai precisar se martirizar pelo fato de estar apaixonado por mim, porque o problema todo aqui é o fato de eu estar viva na imaginação dele. É aí que eu preciso ser eliminada, porque é aí que eu existo”.
“Os fãs também te adoram. Você também está na imaginação deles”, retruco.
“Minha morte vai ter significado diferente para os fãs. A ligação entre Hektor e eu é muito mais pessoal e profunda. Minha morte é a única solução”.
“Uau!”, exclamo, ligeiramente incomodado na poltrona que outrora me fora tão aconchegante. “Eu sinceramente não sei se teria coragem de chegar pro Hektor e propor uma coisa dessas. Não consigo nem imaginar como eu iria começar. Bom, primeiro que eu nem ia comentar sobre esse nosso encontro”.
“Você tem medo?”
“Não, é que... Não é exatamente medo. É que eu sou fã do Hektor e também sou seu fã. Entenda, eu nunca passei por isso, esse é o caso mais surreal que eu já tive e vou ter nas minhas mãos, então não é fácil. E se ele ficar com raiva de mim por eu ir até ele com essa ideia de que ele tem de matar você? E se ele ficar com raiva de mim?”
Bóris pigarreia em seu lugar, insinuando que quer a palavra. Laura troca um olhar misterioso com ele. Eu, por minha vez, já estou preparado para a próxima surpresa.
“A oãn res euq ele esnep euq a aiedi iof dele”, conjectura o anão mordomo.
“Como assim?”, estou claramente confuso.
“Etsixe amu amrof licáf de rartne an etnem ed amu aossep. E són sodemop et raduja a resseca a etnem od rohnes Casanova sévarta sod sohnos”.
“Peraí, o quê?”, vou ficando abismado com o que estou entendendo. “Você tá falando de entrar num sonho dele, que nem aquele filme com o Leonardo di Caprio?”
Bóris e Borsana trocam uma risadinha cúmplice, dessas de irmãos que aprontam juntos longe dos olhos da mãe. A anã, até então inexpressiva, comenta:
“Esse emlif iof aiedi asson, a etneg avat on roíam oidét e íad somevloser racoloc asse aiedi an açebac od roterid od emlif. A etneg oiem euq siuq ridivid moc o odnum mu ocuop od osson ohniderges”.
“Se meb euq sele mararegaxe me samugla setrap, sam euq es aned, o emlif é siamed!”, complementa Bóris. “Mifne, o euq átse me ogoj iuqa é raduja osson oãrtap a se ranoxiapased e, ao omsem opmet, rarvil Laura Palmer essed odraf. E es rof êcov, Denner, iav res siam licáf eled ratiderca, euqrop êcov recerapa mun ohnos eled, iav res omoc mu lanis”.
Laura Palmer me olha, esperançosa. Sou sua única e última aposta. E ela também é a minha, já que até então eu vinha devorando novamente a série dos Detetives da Noite em busca de indícios que eu pudesse apontar como elementos desapaixonantes. Todo esse tempo falhando consideravelmente, mas agora tenho uma arma inesperada. Tudo bem que não me alegra muito o fato de receber um spoiler tão arrasador como esse, ainda mais de uma fonte tão fidedigna. Um presente dos sonhos, com trocadilho elevado à centésima potência.
“Eu quero fazer isso então”, decido. “Como é que eu faço pra entrar nos sonhos do Hektor Casanova?”
“Axied moc a etneg”, Bóris esfrega as mãos e sorri outra vez com malícia, como quem tem um plano infalível, e se levanta do sofá. Borsana também se retira de sua poltrona.
Os dois fazem sinal para que eu os siga e caminham rumo à mesma cortina de onde Laura Palmer saiu. Finalmente tenho controle das minhas vontades e posso me erguer de minha poltrona, embora esteja um pouco tonto e com muita informação a processar. Antes de eu seguir na direção que Bóris e Borsana tomaram, Laura Palmer faz um sinal com uma das mãos espalmadas para mim. Ela dá a entender que precisa me passar um recado ao pé do ouvido, então me abaixo um pouco. Após escutar suas palavras, só posso dizer que, apesar de falar em português claro e na ordem convencional, me parece algo enigmático. Levanto o corpo, minhas sobrancelhas estão franzidas, mais confuso com o que ela acaba de me contar do que com toda essa situação que estamos vivenciando.
“Na hora certa você vai saber a quem repassar essa mensagem”, ela me deixa totalmente sem pistas.
“Você não vem com a gente?”
“Não. Vou ficar aqui, no meu mundo, torcendo pra que esse plano dê certo”.
“O plano Laura Palmer”, invento um nome na hora.
Ela pisca, aprovando o nome.
“Foi um prazer, senhorita Palmer”.
“Por favor, sr. Agente do Desapaixonamento! Certifique-se de que esse homem me mate. O prazer foi meu”.



Acordo suado, são mais de oito e meia da manhã. Meu Deus! Estou atrasado para ir pra ANNA. O colchão sob minhas costas encharcado de suor. O ar condicionado funcionando normalmente, no entanto eu despertei morrendo de calor. Não me pergunte o porquê, mas minha primeira reação é olhar minhas mãos, meio que pra ter certeza de que eu sou eu e que meu corpo é o meu corpo. Só depois é que faço reconhecimento visual do ambiente ao redor. Sem dúvida, dessa vez é o meu quarto. Posso ouvir pessoas tagarelando ao longe, vulgo meus familiares.
Testo o paladar: um sabor acentuado de cereja, e um pouco mais pro fundo, café. Como pode? Que espécie de sonho foi esse? Eu estava mesmo no sonho de Laura Palmer ou no meu?
E o que aconteceu depois, quando segui os anões para trás daquela cortina? A mim pareceu que naquela mesma ocasião iríamos invadir o sonho de Hektor e plantar a ideia da morte da Laura Palmer. Entretanto, não consigo recordar de um detalhe sequer sobre o desenrolar disso. Será que algo deu errado no meio do caminho?
Aconteça o que acontecer, não posso comentar isso com ninguém. Nem mesmo com Rita Lina, e olha que ela é a pessoa que seguramente me encorajaria a encarar esse tipo de evento com naturalidade.
Depois de uma longa higiene matinal, volto pro quarto, toco no colchão e ele ainda está muito molhado. Vou ter de colocá-lo ao sol, esperando que meus pais não suspeitem que, depois de marmanjo, eu tenha voltado a fazer xixi na cama. Espero que seque antes do Lucas chegar. O sono dessa noite foi tão violento que nem deu pra escutar meu despertador, mesmo ele estando configurado pra tocar seis vezes (eu gosto de me prevenir). E, assim como Bóris deixou bem claro, meu corpo relaxou muito. Mas a cabeça está a mil, especialmente depois de tudo que eu “vivenciei” naquela espécie de sala branca e preta misteriosa.
Quando enfim pego o celular pra verificar, me deparo com uma mensagem de Sávio parecendo preocupado por eu ainda não ter chegado; Rita me mandou um gif de um cachorrinho comendo hot-dog (uma piada interna entre a gente, porque uma vez eu comentei com ela que um cachorro comendo hot-dog seria canibalismo semântico, mas eu nem sequer sei direito se esse tipo de colocação está correta, até mesmo como piada; portanto, não perca tempo tentando entender). E tem uma mensagem de Hektor Casanova, a qual eu abro com o coração mais tenso do que um aluno de 6ª série antes de fazer uma apresentação diante de toda sua turma.

Por favor, se puder, passe aqui. Tenho algo urgente pra te falar. É insano, então se prepare. Posso adicionar um extra ao serviço, mas por favor, preciso muito que você venha aqui ainda hoje.

Me encho de uma coragem improvável e digito uma mensagem para Sávio, informando que precisei comparecer a um compromisso importante envolvendo um cliente, por isso não fui hoje. Não é totalmente uma mentira, então a culpa nem dói.


Chego à casa do meu escritor favorito. Toco a campainha e, com uma impressionante eficiência, Bóris vem me receber. Lanço a ele um olhar e um sorriso a fim de remeter à experiência amistosa do sonho da noite passada, mas o anão não devolve o agrado e se porta estritamente profissional e azedo:
“Bom dia, senhor Denner Corrêa! O senhor Casanova o aguarda em seu escritório”.
Enquanto atravessamos o jardim rumo ao interior da casa, dou uma de teimoso e faço uma nova tentativa de contato com Bóris:
“E aí, Bóris? O plano deu certo? Porque eu não me lembro de nada”.
“O euq ecetnoca son sohnos, acif son sohnos”, sibila ele.
Agora, não consigo entender porcaria nenhuma do que ele diz. Perdi minhas habilidades especiais de tradução simultânea da linguagem reversa, que saco!
Borsana está espanando uma estante na sala, elevada em cima de um banquinho, fingindo não notar minha presença. Desisto de cumprimentá-la. Onde eu estava com a cabeça quando resolvi fazer as pazes com o mundo dos anões? Eles sempre ferirão meus sentimentos, não importa o quanto eu me iluda achando que serão legais comigo.
Antes de bater na porta do escritório, Bóris cochicha em tom de ameaça:
“Cuidado com esses seus pensamentos que saem pela boca”.
Apesar de eu não gostar do tom atrevido com que ele me tratou, preciso admitir que ele tem razão. Se algum pensamento oral escapar, sabe Deus quais seriam as consequências.
“É disso que eu estou falando”, reclama ele, balançando a cabeça negativamente.
O mordomo, então, bate na porta do escritório de Hektor, que abre em menos de três segundos, nitidamente ansioso pela minha chegada.
Já dentro do cômodo, Hektor nos tranca aqui. O laptop está sobre uma escrivaninha, virado para minha direção, aberto numa página em branco do Word.
“E então, Hektor? Estou aqui”, começo, colocando as mãos nos bolsos.
“Ótimo, ótimo, Denner! Fantástico!”, vibra ele, puxando uma cadeira para eu me sentar. “Meu Deus, eu estou tão nervoso, tão nervoso. Olha!”
E me mostra as mãos tremendo.
“Eu tô tentando escrever uma cena desde que acordei, mas as mãos não param de tremer”.
“É mesmo? O que aconteceu?”
“Eu tinha escrito um capítulo ontem e fui dormir às 2 da manhã, mas aí acordei de novo às 5, e daí não consegui mais dormir”.
Tô tentando pensar em patinhos enfileirados marchando numa rodovia, meu método prático para espantar qualquer possibilidade de um pensamento oral vazar.
“Você... você não vai acreditar no que eu vou te dizer. Nossa!”
“Estou ficando meio preocupado, Hektor. Você tá tão tenso!”
Ele pega uma garrafa térmica, provavelmente cheia de café preparado por Borsana, dá uma boa golada, respira fundo e diz:
“Sonhei com você”.
“Hum!”, resmungo, cada vez mais perto de constatar que, sim, a coisa toda aconteceu mesmo. “E o que aconteceu nesse sonho de tão estranho?”
“Bom, eu não me lembro de detalhes em geral, mas o mais importante e mais perturbador de tudo eu definitivamente lembro muito bem”.
Meu Deus, homem, por que você precisa fazer tanto suspense?
Nossa, que desprezível esse meu comportamento egoísta! Se tiver realmente acontecido a inserção da ideia da morte de Laura Palmer, preciso demonstrar um pouco mais de piedade e empatia, porque este homem deve estar com o coração em pedaços.
“Sabe, Denner”, Hektor continua, “eu acordei com essa sensação tão... tão poderosa no meu coração, como se eu precisasse colocar em prática o quanto antes, mas ao mesmo tempo que eu encaro isso como uma missão, eu tô sentindo tanto lamento, sabe? Uma tristeza pesada tomando conta de mim, como se eu estivesse prestes a dar adeus a um grande amigo”.
“Tô tentando entender”.
“Eu sonhei que você resolvia o meu caso, é isso. Quero dizer, essa foi a conclusão que eu tive ao acordar, porque não foi algo tão direto, entendeu? Você chegava na minha casa e dizia que eu não podia continuar apaixonado pela Laura porque ela estava...”
Essa pausa é a coisa mais dramática que ouvirei em dias, quem sabe meses. Estremeço levemente. Estou visualizando nossa empreitada tomando forma e se personificando na figura de Hektor Casanova sendo assolado por uma tristeza insuportável. O semblante dele despenca de tão abatido. Eu sei que se trata disso porque sei qual é a próxima palavra que termina a frase, a palavra maldita.
“... morta”, despeja ele, por fim.
“Caraca! Morta?”, emprego a falsa surpresa, uma atuação deplorável.
“Sim, Denner. Só que isso no sonho parecia tão verdadeiro. E você me dizia que foi bom eu ter matado a personagem no volume 9 da série, porque ela tinha morrido como uma personagem que cumpriu uma missão relevante pro universo da história, e que eu tinha de seguir em frente e isso seria bom pra mim e pra eu esquecê-la. E eu acordei completamente perturbado, com essa ideia fixa. E então eu entendi o significado do sonho: pra eu me desapaixonar da Laura, eu preciso sacrificá-la. Você ter aparecido no sonho foi um sinal claro de que é isso que eu tenho que fazer. Sério, Denner, foi como se você realmente tivesse estado lá. Geralmente os sonhos não fazem o menor sentido, mas dessa vez foi tão realista, tão racional. Nunca tive um sonho tão claro quanto esse”.
“Nossa!”, a garganta vai ficando seca.
“Eu disse que era insano”.
“Bastante”, concordo. “Então, você pretende fazer alguma coisa a respeito?”, me esforço pra não gaguejar. E pra manter os patinhos na rodovia.
Ele assente com a cabeça. Os olhos se enchendo de água.
“Eu já fiz um esboço e... Estou pronto!”
“Pronto pra...?”
“Pra escrever o capítulo em que ela morre”.
“Então você vai mesmo... matar a Laura?”, pergunto tão baixinho e com tanto medo que pareço o Denner da infância, que tinha medo de tudo e de todos.
Hektor respira fundo e, mais uma vez, confirma com a cabeça.
“Foi de um jeito muito louco que aconteceu, mas você me ajudou, Denner. Você surgiu no meu sonho e trouxe a solução pro meu caso. Então eu confio que vai dar certo”.
“Nem sei o que dizer”.
“Não precisa dizer nada”, Hektor puxa uma cadeira para si, coloca-a de frente para o laptop e, apontando para o objeto, me diz: “Eu te chamei aqui porque eu quero que você testemunhe. Como um leitor fiel e fã do meu trabalho, e além de tudo, como um colega escritor, eu quero que você seja a testemunha desse momento tão importante pra minha carreira literária”.
Estou tão nervoso. É óbvio que aceito de imediato; enquanto me sinto aos poucos mergulhar nesse momento que parece ser tão íntimo e pessoal para um escritor, estou desfrutando de tal honra. E controlando cada vão pensamento que cruza minha mente, com todo o cuidado para não estragar tudo. Meu Deus!! Eu realmente consegui implantar a ideia. Eu realmente consegui.
Hektor passeia com os dedos pela tecla como um hábil mestre da escrita. Fico imaginando se, junto com a ideia, eu também lhe passei dicas de como escrever essa fatídica cena. Mas realizo o tamanho da minha presunção e me recolho à simples tarefa de espectador. Porém, não deixo de saborear o fato de fazer parte dos dois lados da história: sou aquele que participou do plano da morte de Laura Palmer e o mesmo que acompanhou em primeira mão o processo de “assassinato”. Essa bizarrice é de proporções tão descomunais, que volta e meia me pego pensando se na verdade eu não fiquei preso no mundo dos sonhos.
Hektor está chorando. As lágrimas fluem com uma sofreguidão que deixam a minha  alma moída, mas os dedos dele não param, tão absorto ele está em executar esse que deve ser seu maior ato de coragem. Faço a decência de me levantar da cadeira e paro ao seu lado, tocando em seu ombro, como um amigo da família que consola alguém num funeral, à beira da despedida final de seu ente mais querido.
Hektor chora e chora como uma represa arrebentando para inundar uma cidade em minutos, causando uma grande catástrofe. Soluçando e gemendo igual a uma criança que se perdeu dos pais no meio da multidão. Ele está matando sua protagonista. Ele está livrando ela do fardo de ser uma personagem que precisa carregar o peso de um best-seller nas costas. Ele está sendo livre de estar fisgado numa paixão ilógica e irracional, rompendo um laço afetivo que não é incomum entre escritores e personagens; a diferença aqui é que Hektor ultrapassou os limites do impossível, assim como eu, quando invadi sua mente despreparada e o convenci de que isto era o necessário a ser feito. Mesmo que essa parte da história tenha sido apagada da minha memória.
E Hektor digita o ponto final do capítulo. Laura Palmer está morta.
“Está feito”, murmura ele, jogando pra trás os longos cabelos.
E volta a chorar, afundando o rosto entre as mãos, inconsolável. Sinto pena, sinto compaixão, sinto mais tristeza. E um pouco de remorso, pra ser bem sincero. Ninguém gosta de ser o responsável por um término ou uma perda, por mais que seja necessário.
Ainda com o rosto em prantos, só que em menor grau, ele olha para mim e diz:
“Obrigado, Denner”.


Bóris me acompanha até o portão quando vou embora. Insisti para Hektor ir descansar e deixar que o mordomo ficasse com essa parte de ir comigo até a saída. Mas na verdade foi uma estratégia para ficar a sós com o anão.
“Acho que eu mereço uma explicação, não é, Bóris?”
“Explicação sobre o que, senhor?”
“Cara, você não precisa ficar fingindo. O Hektor nem tá por perto. Dá pra parar com isso e conversar comigo sem fugir?”
Ele ergue as sobrancelhas, mas não diz palavra. Encaro como uma deixa para que eu prossiga, então vou direto ao ponto:
“Como é que vocês fazem isso? Como é que vocês conseguem passear nos sonhos das pessoas e fazer todas essas coisas, sei lá, sobrenaturais? Quem são vocês?”
Bóris me encara. Me analisa. Busca alguma coisa no meu rosto, no meu olhar. E então dá aquele sorriso malicioso que eu tanto odeio.
“Uma vez eu lhe disse que o senhor não sabia do que nossas tortas de cereja são capazes, senhor Denner”.
O tom como ele emprega e articula as palavras não deixa dúvidas de que está falando sério, apesar da droga do sorrisinho.
“Torta de cereja?!”
“Torta de cereja com café. Algumas coisas são agradáveis delícias de outro mundo, não acha? Passar bem, senhor Denner!”
E nem me espera reagir, simplesmente bate o portão na minha cara. Torta de cereja com café?? Então é esse o grande segredo?! Que explicação mais furada!!
Tomo o meu rumo, mas não vou para a sede da ANNA hoje. Como alguém que está aprendendo a omitir informações e tirando vantagem disso, decido que vou sair em busca de alguma atividade para relaxar a mente e desviar o foco para outras questões, antes que esse mundo me engula com esse tanto de loucuras que vêm pra cima de mim.
No entanto, não deixo de pensar no quanto seria proveitoso se eu pudesse desenvolver a prática de entrar nos sonhos das pessoas. Pedro e Olívia seriam as vítimas no topo da minha lista. Mas a vida não é tão fácil nem tão doce quanto uma torta de cereja, não importa o quanto eu deteste a veemente ironia nisso.