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25 de agosto de 2016

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 3x10: A CONSTANTE



(Sávio)


Quando decidi que ia investigar Ivan Castro, por pura cisma com a cara dele, havia um motivo claro: proteger minha melhor amiga das garras de um possível mau-caráter. Depois disso, veio o encontro que tivemos no restaurante-bar que ele tem, onde ele se mostrou um chantagista de primeira linha, o que me acendeu o alerta vermelho. Bom, por mais que agora as coisas entre Mile e eu estejam feito pó soprado e espalhado pelo vento, não desisti da empreitada investigativa.
O relógio marca uma e dez da manhã. Aluguei um carro para dar prosseguimento ao que eu acredito que será a última aplicação do meu plano. E confesso que estou bastante confuso com tudo o que vim descobrindo. Tive de segui-lo a duas cidades diferentes no interior, além de também ter me embrenhado em bairros extremamente distantes da cidade em que moramos. Agora, observando-o com meus binóculos, discretamente de um ponto onde ninguém suspeitaria, vejo-o de mãos dadas com uma garota de longos cabelos pretos, provavelmente escorridos à chapinha, que sorri para ele toda encantada.
Enquanto continuo no encalço de Ivan, sinto uma alfinetada na mente: agora que minha amizade com Milena se acabou, o que farei com essas informações coletadas ao longo de vários meses?
Seria um desperdício imperdoável não fazer nada com isso. Mas não quero ser baixo e escandaloso. Quero fazer algo que me pareça justo. Porém, se Milena e eu não temos mais qualquer relacionamento, por que insisto em estar aqui? Por que não deixo Ivan Castro simplesmente seguir a vida enganando a Milena e todo mundo? Eu deveria realmente me importar?
Ele acaba de se despedir da moça com um beijo na boca, bastante caloroso pelo que dá pra notar. Não estou surpreso. Ele fez a mesma coisa com as outras quatro e, tristemente, devo ressaltar que Milena não está incluída neste número. Como é que esse safado consegue dormir à noite?
Ivan vai caminhando até seu carro, enquanto apanha o celular no bolso. Provavelmente está enviando alguma mensagem para uma de suas garotas, talvez até mesmo para Milena, alimentando esse mundo ilusório que construiu para ela. Contudo, aqui no mundo real, onde posso avistá-lo, ele sorri como um vitorioso, um canalha cujo pescoço pesa de tantas medalhas ganhas nessa modalidade de sacana enganador.
Ele parte, cruza com meu carro, mas está tão absorto em seu papel bem desempenhado que decerto não suspeitou da presença do meu carro estacionado a alguns metros da casa. Ligo o meu automóvel e resolvo segui-lo mais uma vez, só para me certificar se ele já completou o itinerário de conquistador de hoje. Espero que sim, porque esse cara tá me dando uma canseira. Mais física do que psicológica.


“E então ele ficou de boca aberta porque, aparentemente, eu sou a única médica que tem uma letra fácil de entender”, Anna está terminando uma de suas histórias de consultório, rindo logo em seguida.
Eu a acompanho no riso. Ou melhor, tô forçando uma risada. No começo, as historinhas sempre tinham um ar cômico, mas agora soam enfadonhas. Não vou negar que algumas me fizeram quase ter um ataque do coração de tanto rir, como o caso da mulher que estava tão aflita porque seu filho estava com anemia, sendo que na verdade o garoto andara apenas se masturbando “além do limite”. E como descobriram isso? Simples: Anna achou estranha a tremedeira no braço do guri durante uma das consultas e quando o confrontou indagando-lhe se estava depenando o sabiá, a resposta do garoto foi um par de olhos esbugalhados e a tremedeira parando na mesma hora, seguindo-se a isso um rosto vermelho que nem tomate maduro e a expressão de quem fora pego no flagra do ato libidinoso. Hormônios adoram torturar garotos de quatorze anos.
“Você tá muito distraído, Sávio”, já é a terceira vez que ela reclama. “O que é que tá acontecendo? Aconteceu alguma coisa bizarra na ANNA? Opa, peraí! É a primeira vez que eu noto como é estranho eu falar o nome da empresa que tem o mesmo nome que eu”.
“Pura metalinguagem”, respondo, mas sem me esforçar em parecer o oposto de distraído.
Anna sorri, virando-se e ficando de perfil, abrindo uma gaveta no armário de cozinha. Está vestindo uma blusinha branca que deixa notável a falta de sutiã, sua bermuda jeans curta não é muito justa e seu coque ruivo está quase desmoronando, charmosamente, deixando aqueles fios de cabelo sedutores atrás do pescoço que todo homem gosta. Estamos em seu apartamento e ela está pra lá e pra cá preparando um lanche para nós.
“Na verdade, tudo relacionado ao meu trabalho na ANNA é bizarro, então se tivesse acontecido algo bizarro, teria sido apenas um dia normal”.
“Ah, é? Então por que você tá assim? Sabe, eu percebi que você nem deu muita bola pro caso que eu te contei de hoje no trabalho”.
“Vocês, mulheres, têm um faro fino, hein!”
“Ou... Alguns de vocês, homens, não estão preocupados em disfarçar tudo”.
Acho que não preciso mais adiar. Na verdade, eu nem sei por que levara tanto tempo para eu resolver perguntar a ela:
“Como você conheceu o Ivan?”
Ela para o que tá fazendo, abruptamente. Percebo que ela não esperava por isso, apesar de com certeza já ter previsto que mais cedo ou mais tarde essa indagação viria à tona.
“Muito bem, senhor Sávio Miranda”, ela retoma a preparação do lanche. “Tem certeza que quer falar disso agora?”
“Você teve alguma coisa com ele?”
“Quê?! Não!!”, ela meneia a cabeça e sorri, como se afastasse uma ideia completamente insensata. Ou, pode ser que apenas esteja querendo fazer parecer isso.
“Então por que razão eu não iria querer falar disso agora?”, falo em tom de desafio.
Anna passa requeijão light numa fatia de pão de forma, aguardando que eu diga mais alguma coisa.
“Tá aguardando que eu diga mais alguma coisa?”
“É, mais ou menos, eu acho. Você vai dizer mais alguma coisa?”
“Anna, por acaso a gente tá começando um problema nesse exato momento pelo fato de você não querer me contar como conheceu o Ivan? Existe algo que você tá escondendo de mim?”
“Um cara contratou o Ivan para ajudar a me conquistar. Foi isso. Tem muitos anos, foi antes da minha viagem pro Canadá”, ela conta, nem um pouco abalada.
Engulo em seco por um momento.
“Nossa! É sério? Você foi uma ‘amandizada’, digamos assim?”
“É”, é tudo o que ela consegue responder porque gostou muito do meu comentário e está rindo. Porém, acrescenta: “O curioso é que... pelo que me lembro, fui o primeiro caso em que ele trabalhou. Isso não te lembra alguma coisa?”, agora ela demonstra uma fina ironia, e essa parte da narrativa não deixa de ser de fato um detalhe bastante curioso mesmo. Usando uma analogia matemática, Anna é a constante na equação que cruza as empresas opostas ANNA e AMANDA. Uma estranha coincidência. Chega a ser quase poético.
Apesar de agora isso não parecer necessariamente um problema, eu não estou achando graça. Enquanto isso, Anna agora tira cuidadosamente duas fatias de queijo de uma bandeja de isopor.
“E como você foi de ‘amandizada’ a amiguinha do Ivan?”, pergunto sem me importar em parecer tendencioso.
“Credo, Sávio!”, uma nuvem de irritação se forma em seu olhar. “Por que você fala desse jeito? Parece que Ivan e eu tínhamos uma gangue e fazíamos mil maldades por aí. Não é que eu seja amiguinha dele, eu apenas confiei que ele me ajudasse a... bom, você sabe. Te reconquistar. Eu já conhecia o serviço do cara, então apostei. Quando ele me ‘amandizou’, como você diz, ele usou uma abordagem diferente do que você faz na ANNA. Ele conhece a pessoa, conversa... É tipo aquele esquema de ensino médio, sabe? Quando a gente tem um amigo que ajuda a gente com aquela pessoa que a gente é a fim... Só que, no caso do Ivan, ele fazia isso profissionalmente”.
“Eu fui um ‘amandizado’ também”, concluo e suspiro, com certo desgosto.
“Eu, hein! Foi tão ruim assim reatar o namoro comigo?”
“Desculpa, eu... Não foi o que eu quis dizer... Desculpa, amor, por favor”.
Não estou muito no controle dos meus pensamentos e emoções ultimamente. Isso é um forte indicador de uma torrente de babaquices que pode acontecer nos próximos dias e semanas. Agora minha namorada está magoada, com certeza.
“Tá aqui o seu sanduíche”.
“Anna, por favor, me desculpa”, insisto.
“Já percebeu que nós dois temos algum tipo de envolvimento com as duas empresas? Só que, a meu ver, o seu é muito mais especial. Você é a única criatura nesse mundo que foi ‘amandizado’ e... sei lá, ‘annazado’. Não é legal? Quantas pessoas poderiam se vangloriar disso?”
Ela abre a geladeira, pega uma jarra de chá gelado e me serve num copo de vidro grande. E é assim que uma mulher te prova o quanto ela te ama pois, se sua namorada te serve uma quantidade generosa de comida ou bebida mesmo estando zangada, case-se com ela. Não que eu vá me casar, é apenas modo de dizer o quanto é preciso valorizar uma criatura assim.
“Só não fala mais sobre esse negócio de ser ‘amandizado’ ou eu te taco esse chá na cara, tá entendendo?”, e o coque enfim se desfaz quando ela acaba de vociferar essas palavras.
Bom, o amor tem algumas peculiaridades... Mesmo assim, fica mantido o “case-se com ela”, ok?
Seguro-me para não comentar que ela me lembrou muito a Milena ao me ameaçar desta forma, mas se com o clima que ficou ela já quer me atirar o chá nas fuças, imagine só o que não faria com a jarra se eu sequer insinuasse uma comparação com minha ex-melhor amiga.
Entretanto, o assunto Ivan está longe de acabar. Sinto muito.
“Em todo caso”, prossigo, “meu problema com o Ivan não é como vocês se conheceram. Quer dizer, talvez fosse, se vocês tivessem se conhecido em determinadas circunstâncias, mas eu fiquei sabendo de umas coisas muito feias sobre esse sujeito”.
Anna ainda está irritadiça, e abocanha o seu sanduíche de peito de peru com o olhar semicerrado, fitando-me. Entendo que é um sinal para eu parar de enrolar.
“Acontece que o Ivan Castro, senhor namoradinho perfeito, é um grande safado, um baita de um pilantra. Você sabia disso?”
“Ué, sei lá”, ela dá de ombros. “Por que é que você tá dizendo isso?”
“Investiguei o cara. Achei ele muito marrento e cheio de si, metido a dono da situação. Quando ele veio falar comigo pra marcar um encontro entre você e eu, me chantageou primeiro. Mas ele fez isso de forma estranha, eu diria até que foi meio maligno. Bom, um cara desse não deve ser muito confiável. E eu tenho certa dificuldade pra confiar nas pessoas. Portanto, ele merecia ser investigado”.
“Você investigou o Ivan, tá, e daí?”
“E daí que eu descobri que ele tá enganando a Milena. Ele roda a cidade de ponta a ponta, inclusive vai a cidades no interior, pra se encontrar com outras mulheres. Cinco, pra ser mais exato. A Milena seria a número seis. Isso não é de dar nojo?”
“E você viu ele beijando essas mulheres, alguma coisa assim?”
“Sim. E, como ele entrou na casa de algumas delas, deve ter feito mais do que beijar”.
Ela faz uma careta, como que rejeitando a informação extra.
“Entende agora a minha preocupação em saber como você o conheceu? Anna, o cara tem seis namoradas. Isso se não tiver mais, porque nem sempre dava pra ficar seguindo ele. O cara é um crápula!”
“Você pretende fazer o quê com essas descobertas? Ou só tá stalkeando pra matar o tempo?”
“Amor!”, exclamo, surpreso com a certa frieza dela.
Ela me encara. E então me dou conta, mas é ela quem fala:
“Você vai se meter no relacionamento do Ivan com a Milena? Por qual motivo? Você e ela já nem se falam mais há meses. Ela te tratou mal pra caramba na última vez que se viram na sede da ANNA, não foi? Não é sua culpa se ela se meteu com o Ivan e que ele tenha mil namoradas. Ás vezes a gente tem que deixar as pessoas quebrarem a cara sozinhas e cumprirem seu destino, amor”.
Fico pensativo.
“Vou te dar um conselho e gostaria muito que você seguisse”, continua Anna, em leve tom de súplica. “Não se mete nisso. Não é porque eu tenho uma certa amizade com o Ivan, mas é pro seu próprio bem. O resultado pode não sair como você espera e o clima entre você e a Milena já não tá legal. Melhor não arriscar. Por favor, Sávio!”
Encaro minha namorada, emudecido, sem resposta. Algo me cutuca na mente dizendo que ela está certa e que toda essa investigação foi um desperdício. Só me resta dar a primeira mordida no sanduíche e um gole no chá gelado de pêssego.
“Vamos mudar de assunto?”, sugere Anna.
De boca cheia, apenas assinto. Mas com uma pedra gigante de frustração que me sufoca o peito. Algo está errado. Sinto marteladas me incomodando a cabeça e ressoando por toda minha mente que algo está errado.
“Daqui a dois dias é o seu aniversário e já acertei tudo com a sua mãe pro jantar”.
“Hummmm...”, finjo interesse.
“Trinta anos, hein!!”, um sorriso se desenha em sua boca. “E pensar que você ainda parece aquele adolescente tão bobo que me conquistou no ensino médio”.
“O tempo não perdoa ninguém”, comento uma besteira qualquer, só para tentar disfarçar o desconforto.
“Eu amo você”, afirma ela, com uma seriedade que estranhamente me inquieta, acompanhado de um olhar sincero e apaixonado.
“Eu também amo você”.
Minha frase de retribuição, no meu coração, consegue soar mais inquietante ainda. E voltam as marteladas.


16 de Julho. Trinta anos atrás, eu nascia numa noite quente de verão e trazia lágrimas de emoção aos olhos do meu pai e uma dor de parto excruciante para minha mãe. Essa palavra, inclusive (excruciante), é ela quem sempre faz questão de falar, o que me faz desconfiar que este é o único contexto em que mamãe a utiliza. Nasci em 1986 e passei a maior parte da infância nos anos 90. Fui fã inveterado da maioria dos desenhos animados que bombavam naquela época, além dos seriados japoneses que mesclavam ação, aventura e um tanto de comédia. Essa época foi tão marcante que dia desses, no supermercado, quase não resisti à vontade de tirar uma selfie com a mulher que passou minhas compras no caixa, só porque ela se chamava Patrine. Ora, qual a probabilidade de você se deparar com uma pessoa com um nome tão peculiar de uma heroína de TV? Essa foto teria gerado um falatório muito legal no Facebook. Os recém-chegados aos 30, como eu, devem se lembrar da Patrine e seu tokusatsu na TV Manchete.
Tive poucas festas de aniversário, embora tenha reinado por muito tempo como filho único. A “festinha” mais memorável foi quando, ao completar 12 anos de idade, mamãe e eu estávamos passeando pelo centro da cidade e ela havia precisado pagar uma fortuna numa conta e praticamente não sobrara nada para comemorar minha nova idade. Naquela época eu dava bastante importância a esse tipo de coisa. Então, ao passarmos em frente a um salão de festas onde coincidentemente estava rolando um aniversário de um menino, mamãe resolveu entrar mentindo que precisava ir ao banheiro. Ela estava grávida esperando o Dominique e ninguém negaria uma ida ao banheiro para uma distinta dama com um barrigão tão pomposo e uma forma tão... bem... intimidadora de pedir para entrar. No fim, acabamos nos misturando aos convidados e, apesar de descobrirmos mais tarde que se tratava de uma festa de quatro anos de idade com o tema dos 101 dálmatas (e eu supostamente era o “amiguinho mais velho, muito, muito mais velho”), na hora do “Parabéns pra você” mamãe fez questão de cantar baixinho no meu ouvido, me fazendo entender que aquela empreitada estapafúrdia havia sido um ato de amor. E, a bem da verdade, eu me diverti demais. No final, mamãe saiu amiga de umas três convidadas e com dois saquinhos de lembrancinhas, abarrotados de docinhos, salgadinhos e outros mimos temáticos. Dona Lola me tomou pela mão para irmos embora e, no fim do dia, foi como se tudo tivesse sido a coisa mais normal do mundo.
Entretanto, nos últimos 15 anos, nenhuma presença fora tão marcante e garantida nos meus aniversários quanto a de Milena. Por mais que não houvesse festas, jantares ou qualquer outro tipo de celebração, em vários dos meus aniversários a gente fez algo juntos. E, em outros vários, mesmo não juntos no sentido presencial, ela me telefonou ou mandou mensagem. Enfim, ela sempre esteve aqui. De um jeito ou de outro. E agora, que chego aos 30, uma idade tão significativa por alguma razão, ela não está. A pessoa com quem eu sempre contei que estivesse, aquela sem a qual eu jamais imaginei minha vida, simplesmente não está.
Eu estou morrendo de saudade da Mile...
Olho o celular pela 50ª vez, crente de que o sentimentalismo que permeia datas especiais tenha lhe tocado a alma e ela resolvera abrir mão, pelo menos por hoje, da mágoa que está sentindo. Mas não há nada. Quero dizer, não dela. Luto mentalmente contra a possibilidade de ela ter deletado meu número de seus contatos, mas a cada segundo que eu me forço a descartar essa ideia, mais ela cresce.
Estou novamente de olho em Ivan, que hoje está num encontro com Rosane. Sim, eu me fissurei tanto nessa investigação que já descobri os nomes das garotas. Imagino se alguma deles sequer suspeita que tá sendo feita de trouxa. Sei que não sou um grande exemplo de integridade, mas sinto que é um dever moral desmascarar esse cretino. Eu preciso dar um basta nessa palhaçada.
O celular descarrega. Porém, sem problema, eu já fiz um vídeo amador com imagem nítida o suficiente para incriminar Ivan. Só arredo o pé daqui depois que ele também for.
Mas, espere, não estou esquecendo de algo?
CACETE!!! São nove e meia da noite e eu estou a pelo menos quinze quilômetros de casa. Anna e minha mãe vão me matar. Hoje é o jantar em comemoração ao meu aniversário. Droga, droga, droga, cacete!!!
Olho para Ivan agindo todo carinhoso com uma de suas namoradas e me bate uma raiva por ter de sair daqui antes do previsto. Droga, esse jantar de aniversário não era necessário.
E, pra ser totalmente sincero, eu não quero ir. Eu nunca concordei com a ideia. Preferia, inclusive, que a coisa toda fosse uma surpresa, pois, se eu não chegasse a tempo, pelo menos teria a desculpa de que não sabia que tinham armado uma surpresa. Merda!
Dou a partida no carro, muito contrariado. E sigo, rumo a uma reunião familiar para a qual não estou nada animado. Enquanto dirijo e engulo a resignação, um pensamento se desenrola, como um emaranhado de fios que começam a se soltar, um a um. Não estou gostando muito da conclusão que vai se formando, mas já que estou com trinta anos agora, preciso pôr a maturidade em prática e encarar o que eu não gostaria. Passei muitos anos amargando o relacionamento malsucedido que tive com Anna Munhoz, e hoje nós estamos juntos de novo. No entanto, o sabor não é igual ao da época em que meu amor por ela fervilhava dentro de mim. É a mesma Anna, mas o sentimento é diferente, discrepante, desfigurado. É quase como se eu não gostasse dela tanto assim a ponto de sustentar um relacionamento em longo prazo. E se, no fim das contas, o desapaixonamento aplicado por Milena não tiver falhado?
Desligo o ar-condicionado e abro a janela do carro, para que a brisa noturna me ajude a afastar esses pensamentos. Mas o que a brisa faz é apenas jogar mais clareza sobre eles: então descubro que, em todos esses anos com Milena perto de mim, era a companhia dela que eu realmente queria ter neste 16 de julho. E vou mais longe: mesmo acreditando que meus sentimentos por Anna não tinham morrido e voltado para os braços dela, eu me acostumei com sua ausência, tanto que aparentemente não me empolga saber que neste exato momento ela está esperando por mim, com todo carinho, dedicação e afeto. É sem a Milena que eu não vou conseguir viver. Cara, dá pra entender o quanto isso é louco? E o quão tardiamente essa revelação veio me golpear?
Paro o carro no primeiro posto de gasolina que encontro. Estou afoito, agitado, desço do carro e vou até a loja de conveniências que eles têm aqui.
“Por favor, eu preciso usar o telefone. Vocês têm um telefone?”, pergunto, quase sem ar.
Um casal detrás do balcão se entreolha, certamente assustados. A mulher assente.
“Por favor, eu preciso usar o telefone, por favor!”, imploro.
“Sávio, o que você tá fazendo aqui?”, uma voz vem de trás de mim. Viro-me e vejo Rita Lina, com roupa de frentista. Mas não me surpreendo.
“Rita!”, abraço-a com toda a ternura possível.
“Sávio, se você veio até o meu trabalho pra se declarar pra mim, fique sabendo de duas coisas. Primeira: você teve seu tempo e sua oportunidade. Segunda: eu sou fiel ao Denner, e você também tem namorada, então vai cuidando de me soltar porque apesar de seu abraço ser muito gostoso e quentinho, isso não tá pegando bem”.
Solto-a. Estou rindo e chorando ao mesmo tempo.
“Caramba, você tá emocionado mesmo!”, diz ela.
“Você pode me emprestar o seu celular, Rita? Eu preciso ligar pra Milena”.


Devem ser quase onze da noite quando eu chego em casa. Anna, mamãe, Dominique e uma garota de cabelos pretos encaracolados e óculos que eu suponho ser a namorada dele estão sentados na sala. Sabe quando você aparece num lugar onde todo mundo sabe que você faz alguma idiotice? Existe aquele silêncio perturbador que diz mais do que se o ambiente estivesse apinhado de pessoas. É como entrar numa caverna que acumulou os ecos daqueles que gritaram por anos do lado de fora, só que você escuta os ecos dentro de você.
“Meu amor, o que aconteceu?”, indaga Anna, preocupada, amorosamente me dando uma chance de me explicar (ou de inventar uma desculpa qualquer).
“Que dinheiro é esse em cima da mesa de centro?”, é a primeira coisa que me ocorre.
“A gente tá tentando te ligar desde as oito, Sávio”, Anna vai revelando uma tensão.
“Mamãe e eu apostamos o que teria acontecido a você”, explica Dominique. “Por acaso você foi assaltado e levaram seu celular e por isso ficou incomunicável?”
“Não, meu celular só descarregou”, respondo, sombrio e desinteressado, sacando o celular do bolso e exibindo a todos.
“Perdi”, diz Dominique, entortando a boca.
“Eu também”, suspira mamãe, me olhando decepcionada.
“Eu ganhei. Sabia que ele tinha ficado sem bateria”, a garota cujo nome não me recordo dá um pequeno gritinho de comemoração, apanhando a grana de cima da mesa.
“Vocês apostaram sobre o que tinha acontecido comigo?!”, pergunto, incrédulo. “E quem ganhou foi uma garota que eu nunca vi em toda a minha vida??”
“Ah”, Dominique bate na testa, recordando-se de algo. “Essa é a Bianca, a minha namorada. Eu já te falei dela. Eu a convidei pro seu... jantar de aniversário”.
Bianca dá um tchauzinho tímido, apresentando-se. Eu só ergo o queixo em sua direção.
“Com licença, gente!”, Anna se dirige a eles, levantando-se do sofá. Em seguida, vem até mim e me pega pela mão. “Vamos aqui fora um instantinho? A gente precisa conversar”.
Vou com ela para o pátio, onde só agora eu noto a faixa contendo os dizeres “Feliz AniverSávio”. Um turbilhão de emoções me invade por conta desse trocadilho que eu aprendi a amar. Mas tô sem cabeça pra saborear o momento.
“Quer me contar o que aconteceu?”, inquire ela.
“Eu tô com um pouco de dor de cabeça”.
“Ok, ok. Mas antes eu acho que preciso de uma explicação, certo?”
“Eu... Eu fiquei preso num caso da empresa...”
“Um caso da empresa...”
“É sério”.
“Não consigo entender. Você é seu próprio chefe. É tão simples arranjar tempo pra comparecer ao seu próprio jantar de aniversário!!”
“Nem sempre é tão simples, Anna”.
“Mas... mas... sua mãe e eu fizemos tudo com tanto carinho. Você sabe que eu ainda tô começando a me dar bem com ela, né?”
Passo a mão no rosto, sentindo-o áspero e suado. O dia foi cheio. E, psicologicamente falando, foi o dobro de cheio.
“Anna”, eu vou ter de lhe contar a verdade. “Eu tava atrás do Ivan de novo. E me esqueci do jantar. Quando me lembrei, já eram mais de nove horas e eu tava longe. Foi isso que aconteceu. E, sim, eu sou um otário irresponsável. Bora, pode jogar na minha cara”.
“Sávio...”, ela está com um olhar de profunda reprovação. “Mas eu te pedi pra não fazer mais isso. E você fez. A troco de quê, hein, Sávio?”
“E não foi só isso que eu fiz”, continuo, deliberadamente desviando do questionamento dela. “Eu também liguei pra Milena. Emprestei o celular de uma pessoa e liguei pra ela”.
Ela prefere ficar quieta, analisando-me com a boca aberta e o olhar entre apreensivo e furioso.
“Foi uma atitude imbecil da minha parte”, assumo. “Ela me tratou muito mal, o tempo todo foi super seca comigo e no final ficou parecendo que eu tinha ligado pra implorar por um ‘feliz aniversário’ dela, o que ela acabou me dando, é verdade. Só que ela me parabenizou como se eu fosse um estranho, um cara que nunca significou nada pra ela”.
Estou chorando. Estou derramando lágrimas que não dão a mínima previsão de que vão cessar.
“Foi minha mãe que fez essa faixa aí, né?”, comento, limpando o rosto com a costa da mão esquerda. Mas Anna não confirma. “Bom, eu sei que foi a minha mãe porque... esse trocadilho foi a Milena que inventou quando eu fiz vinte anos. E a minha mãe adorou...”
“Por quê?”
“Bom, sei lá, acho que é um trocadilho legal e...”
Anna segura as minhas mãos com veemência e eu entendo que ela não está se referindo à história da faixa. De cabeça baixa, ela torna a perguntar:
“Por quê?”
Com as lágrimas ainda rolando, sinto um medo me devorar a alma. Estou diante daquela que eu sempre julguei ser o amor da minha vida, a responsável por crises e crises existenciais, a pessoa na qual boa parte das minhas aspirações românticas foi projetada, aquela que teve um impacto tão violento na minha existência que gerou legados incríveis (como a empresa da qual sou dono), a mulher que praticamente definiu minha vida em antes dela e depois dela. A minha constante.
“Apenas me diga o porquê, Sávio”, insiste Anna.
Deixando a língua livre para pronunciar as palavras, declaro, num tom suave e mais verdadeiro possível:
“Porque a Milena é a minha verdadeira constante”.
Não sei de onde saiu isso, mas é uma afirmação tão cristalina e iluminada.
Anna me encara nos olhos, praticamente sem piscar. Obviamente não está entendendo o que eu quis dizer com a minha resposta, mas ela deve ter capacidade interpretativa suficiente para ver que isso não lhe favorece. Eu quase consigo ouvir sua alma se partir e espatifar, porque a dor fica perturbadoramente visível em sua face. Há um manto de escuridão caindo sobre ela e, mesmo que eu queira, não consigo removê-lo.
“Me perdoa”, balbucio, baixando a cabeça de tanta vergonha e, secretamente, alívio.
Dez ou vinte segundos depois, ela se move. Deve estar arrasada. Consegui estragar o único agrado que iria ter neste aniversário de trinta anos.
“Eu tô indo embora, tô muito cansada”, ela decide, suspirando e sem olhar para mim. “Eu só queria que você ficasse com uma coisa. É uma surpresa que eu tinha trazido”.
Eu concordo com a cabeça, embora ela não esteja me vendo fazer isso. Anna tira do bolso uma caixinha bem pequena e me entrega. Dá um sorriso sem graça e me diz:
“Tô com um pouco de vergonha de entrar, sabe. Será que você poderia pegar minhas coisas?”
“Anna, eu não tive a intenção de...”
“Será que a gente pode continuar essa conversa outro dia?”, ela desvia novamente o olhar, provavelmente segurando o choro.
“Tá”, respondo.
Mas antes, abro a caixinha de presente, que na verdade é uma dessas caixinhas de joias, aveludada. Dentro, um anel.
“Meu Deus!”, exclamo, assustado e constrangido. “Anna, você ia...”
“Por favor, pegue as minhas coisas. Agora, tá?”, ela me interrompe.
Examino a joia por um longo tempo, caindo na real de que o que eu acabei de causar à minha namorada foi maior e mais doloroso do que eu poderia supor. Anna ia me pedir em casamento esta noite.
Para não piorar ainda mais a situação, vou lá dentro pego as suas coisas, entrego-lhe e, antes de partir, tomo suas mãos e, outra vez, peço:
“Eu preciso que você me perdoe”.
“Outro dia a gente termina essa conversa”, ela resolve se libertar e deixar o choro aparecer. Talvez esteja se permitindo deixar a emoção fluir porque está de saída.
Eu a puxo para mais perto. Nós nos abraçamos, mas não nos beijamos. É como um acordo silencioso de que um beijo não caberia aqui, neste instante tão delicado. E isso é tudo para que não restem dúvidas de que Anna Munhoz realmente me ama.
Observo-a partir. Meu coração não parece o de um homem de trinta anos. Ele parece mais velho e cansado, arrebentado e perdido, sem saber como se preparar para as durezas que estão por vir. O que será que vai acontecer?

O trocadilho é excelente, mas hoje não foi um Feliz AniverSávio. 

6 de agosto de 2016

DESAPAIXONANTE --- EPISÓDIO 3x09: ALGUNS DEDOS DE CORAGEM



(Denner)


Não quero fazer disso uma narrativa de terror, muito menos ajudar a cultivar a sementinha da paranoia em mentes de pessoas que apresentam tendência a se sentirem perseguidas. O caso é que, há alguns dias, venho experimentando essa estranha sensação de estar sendo seguido. Não por uma espécie de espírito ou algo parecido, mas por um ser bastante real. A primeira vez rolou no banheiro de um teatro, onde eu fui obrigado a ir por conta de uma droga de peça infantil estrelada pelo Lucas, o pequeno megero que mora lá em casa. Quer saber? O banheiro estava mais divertido do que a apresentação do meu irmão caçula. Havia paz, calmaria e quem entrava lá apenas procurava fazer sua parte e pronto. Nada de tentar impressionar ninguém ou de fazer um exibicionismo tolo cheio de canastrice e dramaticidade exagerada. Olhando assim, Lucas parecia um projeto de Jim Carey em pleno desenvolvimento.
Só que a paz parou de reinar quando eu tive a impressão de estar sendo seguido. Muito mais do que isso, na verdade. Observado. Isso, isso. Era essa a verdadeira impressão. Olhei para a janela na parte mais alta do banheiro, que não passava de uma pequena vidraça um tanto embaçada pelo ar noturno. Baixei a cabeça mirando o vaso sanitário, enquanto dava meu jeito de “acelerar as coisas”, se é que você me entende.
Numa outra ocasião, enquanto fazia um trabalho para a ANNA, caminhava por uma longa calçada, investigando o objeto de paixão de um cliente, e aquela pulga atrás da orelha insistia em coçar. De vez em quando eu olhava para trás, mas não via nada suspeito. No entanto, se eu estivesse sendo realmente seguido, provavelmente a pessoa não seria uma amadora. Ela não se deixaria ser pega nem mesmo como um vulto.


Fui convidado para finalmente conhecer os pais de Rita. O problema gigantesco nisso é que os pais dela insistiram em fazer uma grande reunião da família, o que se configuraria num baita desastre para mim. Mesmo eu tendo dado umas desculpas para evitar esse encontro, não foi o suficiente para dissuadir Dona Túlia e Seu Laerte. Talvez eu devesse ter dito que minha família é cheia das mesquinharias e que eu não sou exatamente o filho mais amado, e que mesmo eu levando uma namorada e seus pais para eles conhecerem, eles não dariam muita importância. Em vez disso, insisti que meu pai arrota sem pudor algum após as refeições, não importa quem esteja por perto. Sei lá, a possibilidade de estarem expostas a cenas nojentas geralmente melindram pessoas decentes.
“Ah, mas não tem o menor problema”, respondeu Dona Túlia na ocasião, levantando-se e desaparecendo da cozinha, como quem fora buscar algo.
Quando ela retornou, segurava uma medalha e a estendeu diante de mim, dizendo, com ares de orgulho e nostalgia:
“Eu já ganhei uma competição de arrotos na oitava série”.
“Mamãe arrotou o Creio-em-Deus-Pai inteirinho nesse dia”, explicou Rita. “Foi imbatível”.
“Tá vendo, Denner?”, manifestou-se o Seu Laerte. “Parece que não iria faltar assunto pra conversar com a sua família”, concluiu ele, trocando um olhar com a esposa.
“E depois disso eu aperfeiçoei o arroto do refrão de Galopeira”, Dona Túlia acrescentou.
“Mentira, mãe!!”, Rita se surpreendeu, com um sorriso excitado.
“Pois te juro de pés juntos. Pena que não teve mais competições, então só apresentei essa performance duas vezes para alguns amigos. E pro seu pai, é claro”, ela lançou um olhar afetuoso para o marido, que retribuiu com um sorriso de orelha a orelha.
O fato é que a história dos arrotos do meu pai era mentira, e eu tinha visto meu pânico crescer, pois acabara de descobrir que os pais de Rita não poderiam tocar naquele assunto quando as duas famílias se reunissem. Nada contra eles, mas se fossem ficar tão à vontade assim com seus relatos e medalhas, eu estava correndo um grande perigo de meus parentes me caçoarem pro resto da vida. Afinal, se a família da minha namorada tem alguém em casa capaz de vencer competições de arrotos e não se reservam sobre o assunto, o que podem a respeito de flatulências? Não quero descobrir.
No entanto, o problema que mais me aflige é ainda não ter criado ousadia suficiente para enfrentar a maneira como eles me tratam, de me impor. Só preciso de um empurrãozinho, alguns dedos de coragem. Um pequeno incentivo e eu conseguirei deixar de me afetar com a falta de consideração que eu sofro naquela casa.


Enquanto esse dia do almoço não chega, estou envolvido em um novo caso. Eu fiz de tudo para que a reunião das famílias fosse um jantar. Você sabe, um jantar acontece à noite, então, depois de comer, as pessoas não gastam muitas horas batendo papo, pois o avançar das horas as desencoraja a gastar muito tempo em casa alheia. Claro, isso é mais comum entre pessoas que não se conhecem direito, e era com isso que eu estava contando. Entretanto, um almoço oferece a chance de uma eternidade de conversas banais que podem desencadear nos dois lados um relaxamento, fazendo-os ficarem à vontade, o que é justamente o oposto do que aconteceria num jantar. Ou vai ver que eu só estou conjecturando coisas que aconteceriam diferentemente do que eu estou imaginando, apenas pelo desconforto que esse encontro vai me proporcionar. Em suma, procurando desculpas para evitar o inevitável. Eu não tô preparado.
Para completar, meu “estágio” na ANNA acabou e desde então eu tenho cuidado sozinho dos meus casos. Embora eu tenha pedido a supervisão do Sávio para este novo caso em particular, ele foi bastante enfático em dizer que não seria possível, pois está cuidando de “algo importante”. Impossível ser mais misterioso do que isso. Porém, se eu estou querendo ganhar doses consideráveis de coragem, preciso me virar por contra própria.
Meu atual cliente é um bombeiro chamado Gregório Martins e ele achou de se engraçar por uma stripper de um clube de luxo, a Giselle. Estou há dois dias de olho nela e atento aos seus passos, mas até agora nada de anormal a seu respeito (exceto o fato de ela ser uma stripper, o que, por mais que eu não tenha nada a ver com suas escolhas profissionais, me faz imaginar como alguém pode se sentir à vontade se despindo por dinheiro).
O lance entre Gregório e Giselle é que ele a conheceu pouco depois de ter se divorciado, e como ela era diferente de todas as suas ex-namoradas e ex-esposas, vidrou na moça com uma intensidade ferrenha. Todavia, segundo ele, não aguentará carregar o fardo de ter uma namorada que trabalha dançando e tirando a roupa para vários homens sedentos por um entretenimento adulto. Bastante justo. Suponho que, se você tem uma namorada linda, já deve dar um trabalhão lidar com os caras que faltam devorá-la com os olhos na rua, então imagine isso acontecer porque ganhar olhares faz parte do ganha-pão dela. É um pepino e tanto, meus amigos!!
Passo numa lanchonete especializada em comida vegetariana e peço um hambúrguer de soja e dois quiches de espinafre para viagem, além de suco de abacaxi com hortelã. Não sou muito fã da comida daqui, mas a melhor lanchonete da cidade que serve comida para o meu gosto fica do outro lado da cidade, então me conformo.
“O senhor pode escrever suas críticas e sugestões para a melhoria da comida e colocar na caixa de sugestões, senhor”, informa-me o atendente, com um ar de sério e atencioso, provavelmente muito bem treinado para lidar com os fregueses.
Dou-me conta de que tive mais um pensamento oral, sorriso sem jeito e murmuro “desculpa”, retirando-me com a minha comida o mais rápido que posso.
Estou num carro alugado. Ainda não tenho condições de comprar meu próprio automóvel, mas já é um baita alívio poder sair em missões da ANNA motorizado. A boate de luxo na qual Giselle trabalha fica a três quadras daqui, o que explica eu ter preferido parar por perto e fazer um lanche. Dirijo até o clube noturno e permaneço no carro, comendo.
A primeira coisa que chama a atenção é o letreiro em neon, com letras vermelhas e roxas exibindo o nome do lugar: Sensation. Observo as pessoas que chegam. Ou melhor, os homens. Apesar de haver muitas mulheres no mundo que gostem de mulheres, não vi uma sequer. Não sei como funciona para uma lésbica, mas os homens sempre foram mais chegados a ficarem horas apenas contemplando mulheres se exibindo e rebolando com pouca ou nenhuma roupa. O fato de um homem ser atraído por uma beleza feminina que lhe cai à vista pode ser avassalador.
Sem algo melhor para fazer (já que fui informado que Giselle só chega às onze da noite, e ainda são dez e meia), vou imaginando histórias para cada homem que chega. É bom dar uma exercitada na criatividade.
Porém, não vai ser divertido se eu não chamar Rita para participar. Então resolvo telefonar para ela:
“Oi, amor! Você não vai adivinhar onde eu tô”, digo assim que ela me atende.
“Hummm... Dentro de um cofre espionando o objeto de paixão de um cliente?”
“Palpite bastante imaginativo, mas não. Tenta de novo!”
“Ah, meu Pokémon... Eu sou tão ruim nisso... Mas deixe-me ver... Escalando um prédio de vinte andares só pra colher uma informação bombástica pra ajudar um cliente”.
“Hummm... É... Não! Enfim, deixa pra lá. Eu tô num carro que aluguei, são e salvo, aliás. Espiando umas pessoas entrarem numa casa de strip-tease”.
“Caraca, sério?”, ela se impressiona. “Que lugar louco pra se estar. Jamais imaginaria”.
Rio concordando.
“Mas então, amor, eu te liguei pra gente fazer uma brincadeirinha. O objeto de paixão do meu cliente trabalha aqui, é uma stripper. Mas ela só chega daqui a meia hora. Enquanto isso, vamos criar histórias sobre os homens que estão entrando no local? Que tal?”
“Adorei!!”
“Tem um homem mais ou menos da minha idade entrando com outros dois amigos, mas um deles parece bem mais velho. E aí, o que você acha que pode ser?”
“Acho que é um repórter de TV e dois estagiários fazendo uma dessas investigações escondidas. Você sabe, pra expor como é o submundo das profissionais do nude”.
“Profissionais do nude?!”, respondo. Jamais ouvi falar desse termo.
“Bom, sei lá como é o nome. Mas meu palpite é esse, porque é assim que eu chamaria”.
“Pra mim, é um pai que veio trazer os filhos virgens para a primeira noitada”.
“Mas aí é um bordel também?”
Acabo de notar que eu não sei exatamente a diferença entre uma casa de strip e um bordel. Nunca estive em um antes, nem jamais conheci alguém que já estivera.
“E aí, Pokémon? Chegou mais alguém?”
“Um careca meio parrudo tá chegando, parece ter uns 40 anos, chegou num carrão. Acho que ele é cliente fiel do lugar e, se duvidar, é tipo um cliente VIP, com direito a todo tipo de regalias. Quem sabe ele até tem uma carteirinha”.
“Uau!! Sim, sim”, concorda Rita, entusiasmada. “Mas ele é muito mais do que isso. Ele é um cara mau e controla um cartel de drogas recém-chegado na cidade, então os donos do clube são meio que forçados a deixá-lo ser cliente VIP, senão vão ter problemas com ele, porque têm dívidas com o pessoal do tráfico”.
“E o pessoal do tráfico só tá esperando um movimento em falso pra botar fogo no lugar com todo mundo dentro, seguindo as ordens do careca”, complemento.
“Esse cara deve se chamar Heinsenberg”, Rita coroa a história com a melhor piada.
Com isso, seguimos boa parte do telefonema rindo e acrescentando outros detalhes esdrúxulos.
“Amor”, interrompo nossa sessão de risadas, avistando mais um cliente. “Tá chegando mais um cara. Mas você não vai acreditar na figura. É um sujeito magricela e cabeludo e tão baixinho que dá vontade de atirar o resto do meu quiche pra ele comer, tadinho! Sem falar que tá usando um terno amarelo. Rita, definitivamente eu tô olhando pro cara que pega dicas de moda com o Didi Mocó”.
“Hahahahaha!! Amor, que maldade! Não subestime o magrinho. Ele na verdade é o cara mais rico do clube, mas não pode dar muito na vista, porque não sabe que tipo de gente pode encontrar na noite. Só quer ser discreto e passar despercebido. Além do mais, se aí também for um bordel, ele tem que aproveitar que pode pagar pra ter uma garota”.
“O careca do tráfico mastigaria esse magrinho com apenas dois dentes, sabia? Meu Deus! Nunca vi alguém tão magro. Com todo o respeito, amor, você também é bem magrinha, mas esse cara precisa abrir os braços para não cair pelo ralo quando tá tomando banho”.
Rita ri da minha piada, embora eu saiba que ela já conheça essa. Que, a propósito, não foi inventada por mim.
“Peraí, que eu vou tirar uma foto desse cara, só pra você ver que eu não tô exagerando”.
Discretamente, tiro a foto com o celular como prometido e envio instantaneamente. Rola uma pausa na ligação e, depois, Rita volta a falar comigo, rindo mais ainda.
“Nossa, é verdade!! Eu demorei a falar porque ele é tão magro que eu não tava encontrando na foto”.
E seguimos rindo. É cruel fazer bullying das condições físicas das pessoas, mas confesso que isso está me desestressando. O que também não justifica, mas... Eis que, um pouco antes do previsto, Giselle também está chegando.
“Rita, ela já tá aqui. Vou ter que desligar”.
“Tudo bem, Pokémon! Eu também já ia desligar. Hoje até que tá calmo aqui. Quero dizer, ninguém ligou até agora dizendo que quer se matar. Mas, se for o caso, tô bem preparada. Boa sorte, meu Pokémon! Te amo!!”
“Pra você também. Salve vidas, meu amor. Beijo, te amo!”
Giselle desaparece pela porta de entrada e me dói na alma quando vejo que não há mais para onde correr. Terei de adentrar esse território desconhecido.


Mal entro na boate e já me sinto zonzo. A iluminação do local é de deixar qualquer ser humano normal tontinho. Uma salada de luzes que se desloca pelo ambiente de um lado para outro, alternando cores. Não sei se com o tempo a gente se acostuma, mas no momento tudo em que eu consigo pensar é se tenho remédio pra náuseas em casa, porque decididamente vou precisar. O que se faz quando se entra num lugar desses? Não curto álcool. Não posso me aproximar do bar e pedir alguma coisa. Se eu pedir um refrigerante, vão pensar que sou virgem e é capaz até de pedirem um documento que comprove minha idade. Sem falar que isso atrairia atenção indesejada. Sou um agente da ANNA e, como tal, tudo que eu menos preciso é dar bandeira. Devia ter feito uma pesquisa prévia, uma lição de casa. Fico aliviado por essa missão não estar sendo supervisionada pois, do contrário, eu teria sido reprovado no quesito preparação.
“Afonsim!”, ouço uma voz a alguns passos. Apesar da proximidade entre a pessoa que fala e eu, o que ouço é um grito, por conta da música que está tocando, um funk americano.
O cara, um louro magro com camisa azul-marinho, vem em minha direção. Ele está segurando uma garrafa de cerveja long neck. Seu semblante demonstra uma estranha alegria, que não deve estar sendo causada só pela bebida.
“Eu num botava fé que tu vinha, rapaz”, ele dá uma porrada forte no meu ombro. O sujeito fala com forte sotaque nordestino.
“Desculpa, amigo, eu não sou quem você tá pensando que eu sou. Você tá me confundindo”, digo, o mais afável possível.
“Mas, moço, deixe de história! Tá parecendo um fresco falando desse jeito, Afonsim”.
“É sério, cara. Meu nome não é Afonsinho. Foi mal, mas não te conheço”.
Visivelmente embriagado, o maluco escancara a bocarra e começa a rir como se não houvesse amanhã. Depois que termina com o ataque de gargalhadas, faz um sinal pro DJ da festa, que abaixa a música na mesma hora. Pelo visto, o louro nordestino tem alguma autoridade aqui dentro.
“Olha só, galera!”, berra o louro, ganhando atenção de boa parte dos presentes. “Depois de anos sem botar os pés aqui na Sensation, o nosso cabra favorito resolveu dar as caras. Uma salva de palmas para o nosso maravilhoso e amigão do peito... Afonsim!!!”
E aponta as mãos para mim, seguido de uma saraivada de aplausos e gritos de “uhuuu”. E, pasme, o sujeito volta a se aproximar, só que desta vez evidentemente emocionado, com os olhos vermelhos lacrimejando e tudo mais.
“Dê cá um abraço, meu amigo”, suplica ele.
“Mas... Mas, eu...”
“Oh, Afonsim coração de pedra, meu Deus!”, o louro me pega e abraça à força. “Você num perde esse seu jeito durão, né mesmo? Larga isso de mão, Afonsim!”
Excelente! O que foi mesmo que eu disse sobre atrair atenção indesejada?
“Rapaz, eu tava morrendo de saudade de você, viu?”, ele cochicha, enquanto soluça de tanto chorar. “Hoje é tudo por conta da casa, tá? Não se avexe com nada, viu, Afonsim? Hoje a melhor mulher vai ser tua. Hoje eu vou te dar Giselle. A melhor da casa, pro melhor amigo que eu já tive. Agora me abrace, homi, me abrace. Vamos deixar as diferenças de lado. Hoje é um novo dia”.
E o DJ volta a tocar música, desta vez uma espécie de música latina, acho que reggaeton, com uma batida insistente e sensual. Mas a única batida que insiste em minha cabeça é a das seguintes palavras: isso não vai dar certo.


Qualquer que seja o santo que protege os caras encrencados em boates de strip-tease, este santo deve estar se apiedando de mim. Além de eu ter me livrado da companhia do louro bêbado, toda essa situação me deu um belo plano para prosseguir com minha investigação. Agora que estou num quarto aguardando por Giselle (o que também serviu para tirar minha dúvida se aqui também se praticava o meretrício), vou contar a ela que fui confundido com alguém e por isso vim parar aqui. Obviamente, não contarei o que realmente estou fazendo na casa, mas até lá terei engatado uma conversa que me forneça informações que possam me ajudar. Há males que vêm para o bem, como diz o ditado. Há mal entendidos com bêbados em clubes de strip que facilitam o trabalho de um agente do desapaixonamento.
Encontro um bom lugar para esconder o celular e deixá-lo filmando. Nenhum detalhe será perdido do que vai acontecer neste quarto, e terei evidências para fechar mais um caso para a ANNA. Tiro os sapatos e a camisa, só para manter a historinha e dar a parecer que estou à vontade. Vou manter as calças por enquanto porque, bem, eu não estou intencionando fazer nada, obviamente. E também porque não me sinto à vontade com desconhecidos me olhando seminu.
De repente, começa a tocar Girl on Fire, da Alicia Keys. A luz do quarto em que estou fica vermelha e Giselle entra, caminhando sensualmente pelo ambiente, com um olhar felino e penetrante. Cara, uma barra desce do teto, assim do nada, lentamente. E Giselle começa a praticar pole dance embalada pelo som da canção. A moça é bastante jovem, possui feições indígenas, e o corpo deve estar todo besuntado com óleo, a ponto de brilhar e refletir a luz rubra. Exageraram no óleo, porque tá brilhando pra caramba.  
Ela dança bem, devo admitir. Passo mais tempo enumerando quais detalhes dessa história eu vou deixar de fora quando for contar para Rita do que prestando atenção na garota, embora eu seja completamente inocente. Mas sabe como as mulheres são, né? Na época que eu era solteiro essas coisas não aconteciam assim, tão gratuitamente.
Decido esperar o espetáculo acabar e, assim que nosso contato se iniciar, abrirei o jogo. Só que, então, mais duas garotas entram, vestindo um robe e com as cabeças cobertas por um capuz. O robe está aberto e elas estão de peças íntimas. Não vou negar, são mulheres bastante atraentes. Onde é que um cara como o louro arranja tantas meninas bonitas para ganhar a vida em seu clube noturno? O que os pais dessas moças pensam que elas estão fazendo da vida?
Deixando a reflexão de lado, meu foco é no fato de que cada uma delas carrega duas velas acesas.
“Tem certeza que precisa disso, gente?”, pergunto, intrigado.
Sou ignorado, é claro. Isso deve fazer parte do que quer que esteja rolando aqui. Cada vela é posta num dos cantos do quarto. Da cama, assisto a tudo com um toque de preocupação. E Giselle continua dançando (eu achava que essa música era mais curta). Uma das garotas retira um vidrinho de perfume e espalha pelo piso do quarto. É uma essência bem gostosa, mas acho que ela derramou demais. A outra, por sua vez, chega a mim, sorrindo maliciosamente, pega um dos meus braços e o amarra à cabeceira da cama. Sua parceira repete o ato. Então noto que elas são gêmeas.
“É sério, eu só vim aqui fazer o básico mesmo”, tento me safar, ainda sustentando a mentira de que sou um cliente.
“Mariano mandou você ter o melhor tratamento”, diz uma delas.
Ah, então o nome do cara que confunde supostos grandes amigos é Mariano?
“Ele disse que é pra você ser servido como nos velhos tempos”, conta a outra.
“Pois é, mas é que essa parte de ser amarrado eu não curto mais”, alego.
“Shhhh!!!”, Giselle é quem me manda silenciar, fazendo biquinho e dando uma piscadela, abandonando o pole. Ela vem andando até a cama, sentando-se ao meu lado, e então as gêmeas se retiram.
“É o seguinte”, eu começo, e descubro que as meninas foram muito malvadas, atando meus braços muito rigidamente. “Giselle, não é? Olha só. Tá rolando um engano aqui. Eu não conheço o Mariano. Mas não quis ser indelicado com ele, sabe? Então por favor, se você puder me ajudar a sair daqui... Eu só vim beber e ver as meninas fazendo strip. Desculpa por tomar o seu tempo”.
Ela se posiciona de modo que fica com o corpo acima do meu, mas sem que eles se toquem. Sinto um pingo do óleo cair sobre meu peito. Ou pode ser suor, tendo em vista que ela se entregou pra valer no pole dance. Uma ereção inconveniente é tudo de que não preciso no momento. Amo minha namorada, amo minha namorada, amo minha namorada... Se isso não der certo, vou pensar no Amadeu, meu antigo cachorro que certa vez me arrancou um pedaço de carne da perna. Sempre funciona.
Ela me olha com cara de confusa.
“Se você ama tanto sua namorada, por que veio até aqui?”
Só tenho de ser cuidadoso pra esses pensamentos orais não me meterem em apuros. Já basta de confusão por hoje.
“Pois é, Giselle. Eu amo a minha namorada. Tô arrependido de ter vindo aqui, será que você pode me ajudar e desamarrar as cordas?”
Ela se levanta da cama, cruza os braços e percorre o quarto, pensativa e chateada.
“Hummm... Giselle? Será que você poderia...?”
“Quem dera eles fossem iguais a você”.
“Eles?”
“Os homens que frequentam esse lugar. Eu só continuo trabalhando aqui porque os clientes ricos do Mariano vivem pedindo por mim. E cadê que algum deles já teve essa atitude tão bonita que você tá tendo? Não!! Nunca!! Eles só querem prazer, prazer, prazer...”
“Ahn... É, é verdade. Escuta, você não precisa se preocupar com isso, porque eu vou dispensar esse prazer. Foi tudo um grande mal entendido, sabe. Então, se você puder me ajudar com as cordas...”
“O meu sonho mesmo é ser professora de educação infantil, sabia? Tive que trancar a faculdade de Pedagogia duas vezes por causa do Mariano”.
Droga!! Eu doido pra escapar dessa porcaria de “amarra sexual” e a mulher acha de fazer de mim um muro das lamentações justo agora. Ah, não!
“Eu sei o que você deve estar pensando”, continua ela, e agora começa a falar consigo mesma como se fosse eu: “Nossa, Giselle, mas por que você não pega seu rumo e pede demissão desse emprego baixo e humilhante onde você tem que dedar homens por quinhentos reais a hora?”
Fico me debatendo como um louco para atrair a atenção dela, quando paro abruptamente ao ouvir o que ela acabou de dizer:
“Quê que foi isso aí que você disse? Dedar?!”
“Ai, desculpa”, agora ela me vê, essa filha da mãe. “Você tá aqui por engano, eu me esqueci. É que os meus clientes vêm aqui pra ser dedados por mim. É do que eles gostam. Eu sou a única da casa que trabalha especificamente com isso. É pra isso que sou procurada. Tanto que meu nome de guerra é Giselle-dedinhos-sorrateiros”.
Sinto um arrepio nas proximidades do rego, que se transforma num crescente nojo.
“Então... Então o tal do Afonsinho gostava de uma dedada, é isso?”, sondo, ainda estupefato com a confusão da qual, graças a Deus, estou saindo ileso.
“Afonsinho? Não, não, querido! O nome dele é Afonsim mesmo”.
“É mesmo? Pensei que o Mariano falava Afonsim por causa do sotaque. Mas, enfim, ele curtia?”
“Aff!”, ela se aborrece. “Nunca atendi esse doido, não sou da época que ele frequentava aqui, mas pelo que ouvi falar, era um imbecil que cuspia nas meninas durante... você sabe. E ouvi falar que, além de cuspir, ele também beliscava e dava tapa na cara. Sendo que, na hora de pagar, ele não pagava o preço que incluía os tapas. O cara era um folgado desgraçado. Tá devendo uns vinte tapas pra Francine”.
“Certo. História legal, Giselle, mas eu realmente já tô ficando bem desconfortável. Eu definitivamente não estou aqui pra levar dedadas. Sem ofensa, tá? Se você é tão requisitada, provavelmente deve fazer um ótimo trabalho”.
Mano, o que é que estou dizendo? Será que a agonia já está derretendo meus neurônios?
“Mas você precisa me tirar daqui”, falo o que realmente importa.
Ela finalmente vem e me ajuda. Dá um certo trabalho, mas pelo menos estou sendo libertado. Ufa!
“O problema maior, na verdade, nunca foi o Mariano”, então ela torna a conversar como se eu fosse alguma amiga íntima. “Todo mundo sabe que quem manda de fato na Sensation é o Cabide, isso sim. E eu sou a droga da menina dos olhos dele. Pra ser sincera, é por causa do Cabide que eu não caio fora”.
“Quem é esse tal de Cabide?”
“Ele é um manda-chuva das drogas, e usa a boate pros negócios dele”.
“E ele é perigoso?”
E minha pergunta é respondida da pior maneira. Alguém dá um chute que arrebenta a porta do quarto, adentrando o cômodo com fúria no olhar. É o careca parrudo que vi pouco antes de entrar na boate. O cara que Rita apelidou de “Heinsenberg” e que, juntamente comigo, montou a história de que ele era um chefão de algum cartel de drogas. Como poderíamos sonhar que aquela brincadeirinha tivesse tanta exatidão?
Transtornada, Giselle pega uma das velas do quarto e ameaça:
“Tem certeza que quer encarar? Eu não tenho medo de usar essa vela, hein!!”
“Giselle, por favor, não faz nenhuma besteira!”, eu clamo, mais pelo medo do que possa acontecer à minha vida do que por qualquer outra razão.
“Heinsenberg” a encara, parado e respirando arfante. Só não entendo por que o chamam de Cabide. Bom, nem todo nome no mundo do crime faz sentido. Aposto que deve ter toda uma história por trás, um contexto que faz bastante sentido...
“Do que você tá falando, idiota?”, ele parece notar minha presença só então, após ouvir meu pensamento oral. E vocifera as palavras: “Eu não sou o Cabide!!”
E outra pessoa entra. Quando entendo o que está acontecendo, o cérebro dá um nó. O magricela de quem eu fiz troça também ao telefone com Rita está aqui no quarto, ainda com seu engraçado terno amarelo e também uns óculos escuros ornando a face esquálida. Só agora noto que no bolso externo do seu paletó há um girassol pregado. Era só o que me faltava: minha vida correndo perigo por causa do cosplay do Falcão.
“Valeu, Grande B. Obrigado por abrir a porta pro Cabide!”
Além de ter o timbre mais agudo que eu já ouvi, o cara fala de si mesmo na terceira pessoa. Essa noite só piora.
Cabide tira os óculos, tentando ser pomposo nos gestos, mas só parece um cara muito desagradável. Ele me dirige um olhar avaliativo, depois se volta para Giselle:
“Cabide ouviu umas histórias, Giselle”, diz ele.
“Não são histórias”, retruca ela, agressiva. “Eu vou largar esse emprego, Cabide!”
“Você sabe que Cabide não gosta desse tipo de histórias, não sabe, Giselle?”
“Por favor! Ei! Ei, amigo!”, este sou eu, esforçando-me. Talvez eu possa fazer algo.
“Cala a boca!”, rosna o Grande B, aparentemente o capanga mais fiel de Cabide. Rita, a gente errou feio nessa. O que será que significa o B?
“Esse imbecil está no meio de um fogo cruzado e tá preocupado com o que significa o B do Grande B?”, diverte-se Cabide, voltando a olhar para mim.
“Nem chega perto de mim, Cabide!”, Giselle ergue a vela mais alto.
“Calma, gatinha! Cabide só quer conversar. Sabe, Cabide acha que você tá merecendo um aumento. Mas pra isso você tem que sentar e conversar com Cabide”.
Ele vai andando a passos lentos em direção a Giselle.
“O que você acha, Gi? Vai conversar com Cabide?”
“Não chega perto!!”
“Relaxa...”
“Não chega perto!”
“Cabide tem proposta boa pra você”.
“Eu tô avisando”.
“Cabide não quer te machucar...”
Mas que irritante essa estupidez de ficar se referindo a si mesmo na terceira pessoa. Chega a dar uma comichão nos ouvidos.
“O que você disse?”, Cabide se vira para mim, ouviu meu pensamento oral. Porém, ao mesmo tempo em que faz isso, seus pés vão para frente para ele poder virar todo o corpo na minha direção.
Quando Cabide dá esse último passo, não há tempo para pensar em mais nada. Completamente decidida, Giselle atira a vela contra o chão do quarto, que está cheio de uma quantidade suficiente de perfume para causar um estrago ao entrar em contato com a chama. Quanto a mim, não sei de onde me vem tanta confiança e bravura, e com a velocidade mais incrível e louca que eu já empreguei em minha vida, pego um dos meus sapatos e taco na cara do Grande B, que cambaleia e, apesar de não cair, se afasta o bastante para eu correr em direção à saída. Minha última visão foi um flash do fogo ganhando altura e se espalhando com veemência. Para trás, ficam gritos desesperados. Não tenho Giselle no meu campo de visão enquanto corro, mas ela também não estava mais no quarto quando fugi. Depois de descer algumas escadas, me deparo com o louro Mariano, balançando a cabeça espantado ao me ver de saída.
“Mas, rapaz, eu num acredito que tu já vai embora”, reclama ele.
“Sai da frente, doido!”, eu o empurro contra o balcão do bar, reduzindo um pouquinho a velocidade dos meus passos ao fazer isso.
“Ei!!”, grita ele, enquanto vou marchando para a saída. “Ei!! Tu tá ficando abestalhado, é, Afonsim? Oh, Afonsim!! Volta aqui, homi!”
“Fogoooo!!!”, ouve-se um berro pouco antes de eu atravessar a porta da boate. Um alvoroço dos grandes toma forma.
Já na rua, tenho o ímpeto de apanhar o celular no bolso da calça e ligar para a polícia e também para Gregório, já que ele é dos bombeiros. E fico profundamente irritado ao ver que ele ficou no quarto e, à altura do campeonato, já está sendo dilacerado pelo incêndio. Olho para o carro no qual vim até aqui, penso novamente no celular com toda a filmagem para me ajudar no caso, hesito. Minha vida em primeiro lugar. Entro no carro e dou o fora. Nesse momento, tudo que dá pra fazer é agradecer a Deus por eu ter continuado de calças.


Durante meu encontro com Gregório, resolvo compartilhar tudo que aconteceu ontem. Ele está a par de várias coisas, pois sua unidade foi a responsável por ir apagar o incêndio na Sensation. Inclusive, ele me informa que o capanga Grande B sofreu queimaduras de primeiro e segundo graus, enquanto que Cabide está praticamente ileso, exceto por uma queda que levou enquanto tentava fugir. Nunca mais subestimarei um magrelo. Quanto a Giselle, ela também está bem, e quando indago a ele sobre como ela escapou, ele me diz:
“Ela me falou que, assim que atirou a vela, se pendurou na barra de pole dance e acionou o botão que sobe a barra na velocidade extra máxima. Ela disse que eles têm esse recurso pro caso de algum cliente quiser praticar alguma violência ‘além da aceitável’, segundo as próprias palavras dela”.
“Que loucura!”, declaro.
“Sinto muito pelo seu celular”.
“Nem me fale”.
“Mas você não conseguiu nada que pudesse me ajudar? Mesmo sem gravações nem nada, não conseguiu alguma informação que pode ser útil?”
Examino seu rosto e vejo pelo seu olhar que está disposto a acreditar nas minhas palavras, mesmo eu estando desprovido de provas. Sorrio e fico satisfeito por ver que eu não escapei de fogo e dedadas em vão.
“Bom, acho que você já constatou por si só quais são as implicações de se namorar a Giselle. Depois de ontem, agora que o Cabide não vai deixá-la em paz. Ou seja, além da garota ganhar a vida tirando a roupa e fazendo fio-terra em homens, tem um traficante perigosíssimo na cola dela. E pensar que ela só queria concluir a faculdade de Pedagogia e dar aula pras criancinhas”, suspiro ao final.
“Você tem razão”, concorda Gregório. “Mas, me diz uma coisa. Foi ela quem te falou sobre esse sonho de ser professora? Quero dizer, é sério que essa é a grande ambição da vida dela? Uma coisa tão comum. Até mesmo... bobinha”.
“Sim, ela me disse isso”.
“Pôxa”, ele parece muito desapontado. “Minhas ex-esposas são professoras. Minhas irmãs e minha mãe também. E só vejo elas frustradas e reclamando. Inclusive me separei da minha última ex porque ela vivia me avaliando e dando pontuações em tudo que eu fazia. Na sexta vez que fiquei de recuperação, chutei o balde”, relata ele.  “Eu pensei que a Giselle tinha aspirações de verdade na vida. Até te falei que ela era diferente das outras mulheres que eu tive na vida, mas não esperava por essa decepção. Sabe, eu podia lidar com o fato de namorar uma stripper, mas uma professora... Tinha que ser logo uma carreira tão desprestigiada?”
“A gente nunca está preparado pra esses golpes da vida”, ironizo.
Gregório me estende o cheque com o pagamento pelo serviço. Pego-o e nós apertamos as mãos.
“Obrigado, Denner. Vou indicar a ANNA aos meus amigos, com certeza”.
“Contanto que eles não estejam a fim das outras meninas da boate”, brinco, mas no fundo não poderia estar falando mais sério. Quero passar todos os próximos dias da vida longe daquelas proximidades.
Não me importa se o motivo para Gregório se desapaixonar seja baseado na opção de carreira com a qual Giselle sempre sonhara, tudo que eu quero é partir e não precisar mais me lembrar dessa situação.

“Acho que eu vou cortar uns dois dedos do meu cabelo”, Rita comenta, em nossa primeira vez juntos desde o ocorrido.
“Por favor”, rogo. “Não mencione dedos por um tempo, tá?”
Ela me olha e contempla o meu semblante com sombras de melancolia.
“Não fica assim, meu Pokémon”, ela me consola.
“Aquele celular tinha muita coisa importante, amor. Perdi um monte de fotos nossas e outros arquivos relevantes que eu tinha no cartão de memória”.
“Eu te avisei que era pra gente testar se eu podia fazer backup mental dos arquivos. Eu te falei que depois que os Valpixianos me reiniciaram, ganharia habilidades. Vai que essa é uma delas. Mas, não, você é teimoso”.
“Hum...”, resmungo e reflito ao mesmo tempo, lembrando-me do quanto fui corajoso para enfrentar o grandalhão do Grande B. Se eu tivesse pensado antes de lhe atingir com o sapato, não teria tomado essa atitude. Vendo por esse lado, no momento em que perdi algo, ganhei outro. Perdi um celular e ganhei mais autoconfiança. É como se fosse uma troca e uma espécie de equilíbrio tivesse sido mantido. Só espero que o grandalhão não seja vingativo e resolva me caçar.
“Confesso que eu gostaria de ter visto esse vídeo que você tava gravando pra mostrar ao cliente”, afirma Rita.
Levando em consideração que eu preferi poupar minha namorada de detalhezinhos como a presença das garotas seminuas de capuz e a dança de Giselle, realmente agora não resta a menor dúvida de que foi bom ter perdido o telefone. Independentemente do caldeirão de emoções confusas vividas nesses últimos dias, tenho a certeza plena de que as coisas estão como deveriam ficar. E é bem melhor assim.
“Tô a fim de dar uma volta. Vamos?”, sugiro para ela.
“Vamos! Mas... tem uma condição”.
“Já sei, já sei. A gente vai parar nas praças pra ver se você pode mover as árvores com a mente. Faz tempo que você tá me pedindo isso”.
“Ah, Pokémon!! É que eu sinto que a minha habilidade adquirida tem a ver com a minha mente. Eu tenho uma certeza tão grande, sabe? Eu tenho que tentar. Até conseguir”.
“Então vamos lá!”
Ela abre a boca como uma criança que recebeu a proposta para fazer seu passeio favorito. Rita me abraça com ternura e animação. Por mais que essas ideias malucas dela não façam muito sentido, o que importa? É isso que me faz ficar mais e mais apaixonado. E agora que eu sei que posso tomar iniciativas decisivas, bastando acreditar nisso, nada melhor do que brindar esse novo pensamento me cercando de coisas boas.



(Enquanto isso, a alguns metros do outro lado da rua...)


O casal se entreolha. Estão dentro de um veículo preto peliculado, sem chamar atenção. Ambos sabem que finalmente encontraram a pessoa certa.
“Qual é o próximo passo?”, indaga o homem, ajeitando o chapéu sobre a cabeça, trajando um terno cinza.
“Precisamos consertar o que eles fizeram”, responde a mulher, cabelos loiros presos num rabo-de-cavalo; seus olhos azuis mal se movem.
“Disso eu sei”, replica ele, irritadiço. “O que me chateia é que eu tinha um plano e você não gostou. Portanto, deve ter um melhor, certo?”
“Tenho sim”, ela é seca em suas palavras, indisposta para uma discussão. “Mas primeiro temos que encontrar uma forma de abordar o rapaz sem assustá-lo”.
“Então, é esse o próximo passo a que eu tava me referindo”, ele retruca, meio impaciente.
“Quando formos jantar, eu te explico melhor”.
Ele a encara com certa dúvida. Mas sabe que ela dificilmente falha em suas convicções. E que se abre um pouco mais quando está alimentada.
“Por hoje está bom”, ela parece exausta, dando a entender que devem ir embora.
O homem dá a partida no carro e eles vão para longe dali, atrás do tal jantar que ela mencionara. Denner e Rita continuam com o ar vívido e risonho lá fora, felizes. Nem imaginam que estavam sendo vigiados.