Odeio pegar ônibus pela manhã. Levo mais de quarenta minutos para chegar ao trabalho, aquele escritório entediante e cheio de gente falsa. A decoração da minha sala (ou melhor, meu cubículo) é deprimente. Já reclamei tantas vezes para a Mária de Fátima dar um jeito naquele papel de parede tom pastel, tão ridículo quanto o salário humilhante que eu ganho.
Entretanto, nada me aborrece mais do que a quantidade abundante de idosos que sempre embarcam no coletivo. Eu os odeio do fundo da alma, porque obrigam as pessoas a adotarem uma postura de solidariedade ao abdicarem de seus bancos. Ora, ninguém tem culpa se estão com os dias contados, quem mandou terem nascido séculos atrás?
O ônibus percorre essa cidade sem-graça e, por ser horário de pico, o inferno é ainda maior: parece que a viagem dura o triplo do tempo. E os malditos velhotes de todas as espécies continuam surgindo. Pergunto-me o que tanto tem pra fazer todas as manhãs, por que não ficam em casa criando galinhas ou sentados em frente a suas casas vendo os carros passarem. Viver o tédio em que se transformaram suas vidas.
Alguns dos velhos gargalham, fofocam coisas sem sentido algum pra mim, falam alto e demonstram uma vivacidade estranha, incompreensível. Alguns, por outro lado, mantém sua normalidade, suas faces abatidas ou rabugentas, cansadas ou... Ah, velhos! E eu ainda gasto tanto tempo ponderando sobre eles...
Tiro o celular do bolso, preciso ligar para avisar que vou chegar atrasado outra vez. Tenho uma mão segurando a barra do ônibus (já que estou de pé, graças a algum velhote frágil, sem firmeza nos músculos). A outra mão está ocupada discando para o escritório. Chama. Alguém atende. Falo em bom tom, discretamente, para não chamar a atenção dos outros, diferente do que os velhos sem-noção fazem.
Um rapaz me olha, me encara. Preferiria que a moça morena ao lado dele me encarasse. Ela é linda. Finalmente começo a me distrair, a esquecer dos seres jurássicos que transtornam a viagem de ônibus. A moça morena está ouvindo música. O que será que ela ouve? Dependendo, poderíamos qualquer dia desses iniciar uma conversa sobre sua banda preferida, que poderia também ser a minha banda preferida. Um belo pretexto por um belo objetivo. E então, por causa da moça morena, começo a ficar deprimido. E, por algum motivo, os velhos fanfarrões tem culpa disso.
O rapaz ainda me encara. Sorri sem mostrar os dentes, não resiste e indaga: "O senhor gostaria de se sentar aqui?"
Eu aparento ficar desconcertado. Acabo concordando com a oferta. Mas que fique bem claro que é só por causa da moça morena.

7 comentários:
Me deu dó de saber que tem gente que pensa isso deles.
Idosos merecem todo o nosso respeito. Quero ver se essas pessoas que dizem que "velhos são imprestáveis" vão se matar na meia-idade só pra não amadurecerem mais e não terem o mesmo comportamento que tanto criticam nos mais experientes.
Esse post me lembra a segunda feira.
E, você vai ser um desses velhos um dia. Aproveite...
Gostei do blog, acompanharei. :D
Gostei muito da crônica.Confesso que quando li o título imaginei algo meio moralista tipo novela da Globo. Quando comecei a ler o post fiquei meio assustada com a indisposição contra os idosos. Mas o final da crônica foi surpreendente. Um texto reflexivo às avessas. Parabéns!
A velhice está no espírito, e o personagem descobre isso no fim da crônica, enquanto os idosos riem e demonstram vivacidade, ele só reclama e resmunga como um velho.
Adorei!
Beijos
Bom, tu é simplesmente foda escrevendo né Marvin, e eu achei fantástico o fim. Ninguém pensaria em algo melhor. Abraço
Final surpreendente! Putz, gostei de mais... ficou lindão! Parabéns
A Roda gigante da vida né?! Texto bem escrito que me deixou com raiva,mas no final arrancou uma boa risada demim rsrsrs Beijos Marvin!
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