Anna selecionou In the end, do Linkin Park, para tocar
no disc-man. Era a única banda de
rock que ela vinha curtindo, por influência de Sávio. Preferia os poperôs (como
dizia sua mãe) que tocavam na Transamérica, como Christina Aguilera, Britney ou
N´Sync, mas simpatizara pela banda
americana, até mesmo a ponto de comprar uma camiseta deles. Camiseta, aliás,
que estava usando naquela ocasião.
A chuva e o aspecto cinzento das
paisagens davam o tom daquele dia, no qual ela sabia que as coisas não estavam
normais. Na verdade, Anna vinha gastando muito tempo ponderando sobre as coisas
mais recentes, e o quanto elas tinham pouco ou quase nada de normalidade.
Precisava avaliar situações e tomar decisões. O CD do Linkin Park, naquelas
circunstâncias, era uma mera distração, e mal estava cumprindo seu papel.
Sua mente continuou longe durante
todo o trajeto no carro do pai. Estava indo se encontrar com Sávio para verem
algum filme no cinema. Entretanto, ela sabia que aquele encontro se tratava de
muito mais do que isso.
“Você tá bem, Anna? Mal falou comigo durante o filme todo”,
preocupou-se Sávio.
“Oi? O quê? Desculpa, amor, você disse alguma coisa?”, ela despertou
de algum devaneio, perdida na conversa que o namorado tentava iniciar.
“Tá vendo só? Você não tá legal. Isso me deixa preocupado”.
“Desculpa, não é nada, eu... Não é nada”, ela forçou um sorrisinho,
desses que não enganam sequer um cego.
“Iiiih!! Eu conheço você, Anna. Alguma coisa séria aconteceu, e nem
adianta vir dizer que não é nada porque...”
“Eu te traí, Sávio”.
Foi tão rápido que ele ficou com
a sensação de que alguma pessoa invisível passara por ali e lhe dera um soco na
boca do estômago. Por um milésimo de segundo, Sávio aguardou que a namorada
começasse a gargalhar e anunciar que estava lhe pregando uma peça (de péssimo
gosto, mas ainda assim uma brincadeira). Muitos milésimos de segundos se
passaram, e o rosto de Anna apenas se revelou mais abatido.
“Que história é essa?”, Sávio manteve a calma, mas as palavras saíram
atropeladas.
“Eu ia desmarcar o cinema, mas... achei melhor vir pra poder...”,
ela parou para respirar fundo e finalmente falar: “pra poder te dizer que eu quero terminar com você”.
“O QUÊ??”, ele desistiu de manter a calma, atraindo certa atenção
das pessoas para o momento dos dois.
“Eu te traí, Sávio, e eu não quero mais ficar com você. Eu acho melhor
a gente terminar o namoro. Não quero mais. Me perdoa.”
“Anna, se isso for uma brincadeira, foi a pior ideia que você teve
hoje. Me explica agora essa conversa de traição. Me traiu com quem, quando? Por
que você fez isso? Caramba, eu não acredito que você fez isso. O que foi que te
deu na cabeça? Isso não é sério, né? Fala pra mim que não é sério”.
“Não importa nada disso, Sávio. O que importa é que, de qualquer forma,
você ia terminar comigo por eu ter te traído. Então eu tô facilitando seu
trabalho. Você merece uma pessoa melhor do que eu”.
“Eu não acredito que tô ouvindo isso, Anna”.
“Tchau, Sávio. E me perdoa.”
Ela se levantou da mesa onde
estavam na praça de alimentação, e foi caminhando rumo à saída. Sávio
permaneceu estático, pálido e nervoso. Seu mundo virara de cabeça para baixo
tão bruscamente, que ele ainda não havia se dado conta do quanto estava zonzo.
Só tinha consciência de que havia algo queimando por dentro. Seria ódio?
Levantou-se um tanto atrapalhado,
derrubando algumas cadeiras, correndo atrás da ex-namorada (ou ainda era namorada? Ele não havia concordado com o
rompimento, mas isso significa alguma coisa?). Quando a alcançou, pôs-se à sua
frente e a enfrentou com o olhar. Anna estava com as bochechas úmidas, sinal de
lágrimas recém-enxutas. Ela era linda, mesmo assim.
“Me explica, Anna. Eu mereço uma explicação”, exigiu ele,
segurando-a pelos braços e, apesar da raiva, tentava não machucá-la.
“Sávio, por favor, não torna isso difícil”.
“Quem é o cara, Anna? Fala pra mim!! Quem é o cara?”
“Sávio, não!”
“Foi aquele otário do Vinícius Martins? Foi ele, Ana??”
“Não tem nada a ver com o Vinícius Martins”, ela negou. “Por favor, me deixa ir embora. Tá começando
a apertar meu braço muito forte. Por favor, não fica insistindo. Sávio!”
“Mas eu preciso saber a
verdade, Anna!! Você não pode simplesmente ir embora assim, droga!”
Deste instante em diante, eles
não estavam nem um pouco preocupados com o pequeno escândalo que aquilo se
transformara.
“A gente não deve terminar assim”, ele insistiu. “Mesmo que o nosso namoro acabe, a gente
precisa conversar. Eu tenho o direito de entender”.
“Eu transei com outro cara, Sávio. Não vale a pena ouvir uma palavra do
que eu tenho pra dizer”.
E ele, que até então não
imaginava que tal traição tivesse chegado àquele nível, soltou-a devagar, como
se a única mão que segurasse a beira de um precipício tivesse deslizado, já sem
esperanças para persistir. E, tal como após uma longa queda, tudo ficou preto
de repente.
Não era anormal uma garota de
dezesseis anos já não ser mais virgem em 2002. O imenso problema nisso tudo era
a lealdade que Sávio e Anna tratavam esse assunto, e de como essa lealdade fora
destroçada. Eles eram tão apaixonados que vinham planejando quando finalmente
passariam uma noite juntos.
“E eu tive que ver uma porcaria de um filme chamado “Um Amor Para Recordar”. Acredita? Eu deixei ela escolher o filme”,
queixou-se ele para sua amiga Milena.
“Eita! Logo um filme com um nome desses. Parece sacanagem do destino”.
“Não, não é sacanagem de destino nenhum. É sacanagem da Anna, isso sim.
Ela que brincou com a minha cara e... fez o que fez”.
“Sinto muito, Sávio. Você tá arrasado, né? O que tá pensando em fazer?”
“Tô me sentindo o cara mais idiota de todos os tempos”, confessou
ele, numa amargura quase palpável. “Não
consigo me concentrar pra nada. Vou me ferrar nesse semestre”.
“Amigo, calma! Você precisa se acalmar. Eu sei que deve ser difícil,
mas não pode comprometer toda sua vida por causa disso. Você é muito novo,
Sávio. Muita coisa ainda vai acontecer”.
Ele esbugalhou os olhos, dando a entender
que chegara a uma devastadora conclusão, deixando Milena ligeiramente
assustada.
“Milena, eu sou corno!”
“Agora que você se deu conta disso?”
“Não!! Não tô falando do óbvio de ser corno, tô falando de estar
vivendo essa verdade. Tipo, quando na minha vida eu imaginei que seria corno? É
aquele tipo de coisa que você nunca acha que vai acontecer com você”.
“Pena que é algo negativo, eu adoraria ser a primeira a te dar os
parabéns”.
“Não me avacalha”.
“Mas eu só tava dizendo a verdade”.
Calado, ele ficou fitando o chão
e ela ficou dividindo o olhar entre as várias carteiras da sala, enquanto
aguardavam o Professor Barbosa entrar para sua aula de História.
“Tá sendo uma barra difícil de aguentar, viu?”, ele tornou a se
comunicar.
“Eu sei, Sávio. Faz só três dias, talvez demore muito tempo pra você se
sentir melhor. Talvez até anos”.
“Milena, é sério: é assim que você tá tentando me ajudar?”
“Desculpa, não gosto de enganar ninguém”.
“O pior é que eu acho que você tá certa”.
“Ou...”
Ela pausou, esperando que sua
aparente introdução atraísse a atenção dele para algum tipo de possibilidade
esperançosa. E deu certo.
“Ou o quê?”
“Sabe, Sávio, eu acho que sou muito boa numa certa coisinha. E essa
certa coisinha pode te ajudar”.
“Não, não quero apelar pra violência”.
“O quê? Não! Que ridículo!! Eu já falei que aquela surra que eu dei na
Beth Bethina foi pura sorte, já que os reflexos dela são incrivelmente piores
que os meus. E foi na sétima série, Sávio, me poupe!”
“Se não tem a ver com você ir lá e defender a honra do seu amigo de uma
forma física e dolorida, como você pode me ajudar então?”
Milena sorriu como quem esconde
um brilhante truque de mágica do público.
“Se foi possível você se apaixonar pela Anna Munhoz do 2º Ano B, seria
impossível deixar de gostar dela?”
“Acho que não. Mas como você mesma disse, poderia levar anos. E eu não
sei se tô a fim de esperar tanto”.
“Se o que eu estou pensando em fazer der certo”, explicou Milena, “então você vai esperar bem menos do que
pensa, meu caro amigo. Com as minhas técnicas especiais, talvez eu consiga
fazer você se desapaixonar da Anna”.
“Desapaixonar?”, ele demonstrou um ar de riso, coisa que não vinha
tendo êxito desde o ocorrido no shopping.
“Essa palavra existe?”
“A palavra pode até não existir, Sávio. Mas eu posso fazer dela um
fato. Você me permite?”
“Como você vai fazer isso?”
“Na-na-na-na-na-na!!”, ela espalmou uma das mãos, censurando-o. “Ou você me deixa tentar fazer isso ou você
fica aí se lamentando pra sempre. Vai ter que confiar em mim”.
Ele voltou a fitar o chão. Seria
maravilhoso se viessem avisar que o professor faltou. Sávio olhou para Milena,
como quem está ávido por todo tipo de ajuda possível. Enfim, respondeu:
“Por que vocês garotas vivem querendo esconder as coisas de mim, hein?”
Milena deu de ombros.
“Tudo bem, Milena. Eu confio em você”.
“Isso!”, comemorou ela, nada preocupada em disfarçar a empolgação. Ficou
a dúvida se essa alegria era fruto da vontade de pôr em prática as tais
técnicas ou se Milena tão-somente abraçava a causa do amigo.
Vários dias se passaram desde o
combinado entre o casal de amigos. Milena conversava com Sávio apenas o básico
e, quando iam além disso, ela evitava comentar qualquer coisa sobre o andamento
do que estava fazendo para ajudá-lo. Sávio estava uma pilha de agonia, mas dava
graças a Deus por ainda não ter virado piada na escola pelos seus chifres
novinhos em folha.
“Cara, tô precisando de ajuda com o texto da peça”, aproximou-se
Diógenes, um rapaz da mesma turma de Sávio, que tinha o curioso apelido de
Come-diabo.
“Desculpa, cara, é que agora eu não tô com cabeça”.
“Eu tive uma ideia muito legal”, Diógenes o ignorou. “Eu acho que ficaria muito legal se a gente
colocasse um personagem gay na história. Ou melhor, dois personagens gays. Um
bom e outro ruim, sacou? Duas bichinhas, a boa e a má. Só pra dar uma graça na
história, mas ao mesmo tempo pra passar uma mensagem de que preconceito é uma
parada ruim. O que você acha?”
“Você com certeza não precisa de mim, Come-diabo. Faz o que você achar
melhor”.
“E que tal você fazer uma das bichas?”
“Só se for a má”, respondeu ele, empregando um tom soturno às
palavras, muito embora não estivesse filtrando direito o que pensava e o que
dizia.
Diógenes sorriu, enquanto sacava
uma caneta do bolso e começou a rabiscar algo num pedaço de papel. Sabia que
Sávio e Anna não estavam mais juntos, mas como a dor não lhe pertencia, então
não tinha facilidade em se colocar no lugar do outro, que mais parecia um aluno
vegetando.
“E aí, Sávio, como foi a prova de Inglês?”, uma garota veio puxar
conversa.
“Inglês? Mas ainda nem fizemos prova de inglês!”
“Ih, rapaz, tá viajando, é?”, brincou Diógenes. “A gente acabou de fazer essa prova”.
“Mas... não era prova de Física?”, contestou ele.
A garota recém-chegada balançou a
cabeça e se afastou, dando risinhos.
“Que droga! Bem que eu achei estranho que tinha muitas letras mesmo”,
irritou-se Sávio.
“Ela inventou essa desculpa de falar da prova de inglês só pra vir
atrás de você”, comentou Diógenes sobre a garota que viera até eles. “Alexandra Medeiros tá muito a fim de você,
Sávio”.
“Nem me fale”, bufou Sávio, que já tinha coisas demais em que
pensar. “A gente ficou uma vez durante
aquele passeio do Professor Barbosa ano passado, mas acho que ela levou muito a
sério”.
“Me diz uma coisa. Já que você e a Anna terminaram...”
Sávio não costumava ser muito
ríspido, mas lançou a Diógenes um olhar bastante incomodado, fazendo com que
ele nem completasse sua frase. Podia ter confundido as provas naquele dia, mas
sua mente ainda não havia sido lobotomizada a ponto de ele recorrer a um
relacionamento com uma sem-sal feito Alexandra Medeiros.
Agosto de 2002
O primeiro semestre acabou e a
única coisa pela qual, aparentemente, Sávio ficaria famoso na escola Santo
Cristo, seria sua performance bem-feita até demais da tal bicha má. Rumores de
que Anna tinha terminado com ele porque ele era supostamente gay enrustido começavam a circular entre
as turmas de 2º ano e, rezava a lenda, o bochicho também chegara às turmas de 1º
ano. De saco cheio dessa história, assim que as aulas voltaram, em Agosto,
Sávio começou a adotar um comportamento diferenciado. Afundado em conceitos
recém-adquiridos sobre goticismo, ele começou a adotar atitudes e pensamentos
relacionados à cultura gótica, bem como a consumir o que fosse possível sobre
aquilo, de músicas a filmes.
“Amigo, você sabe que isso é só uma moda, né?”, Milena tentou
começar a dissuadi-lo.
“Uma moda que dura desde os anos 80. Parece uma moda bem persistente
pra mim”, retrucou ele, retirando um objeto da mochila.
“Peralá! Isso aí é rímel?!”, espiou Mile. “Ah, não, tudo tem limites. Passa isso pra cá”, ela arrancou das
mãos dele.
Sávio tentou recuperar o rímel,
mas Milena lhe deu uma bronca:
“Você tá querendo cometer suicídio social, é? Em pleno ensino médio?
Você quer dar uma de gótico, tudo bem, mas vai fazer isso sem rímel. A Anna não
vale esse mico todo. E tem mais: um dia você vai me agradecer por isso”.
“Quem você pensa que é, Milena? Só porque é minha amiga, não significa
que pode me impedir de me expressar”.
“Alô, Sávio! Acorda! Não foi você mesmo que disse que tava chateado
porque tava rolando uns boatos que você é veado? Agora me vem com rímel e essa
cara de cachorro largado na chuva. Ora, se é pra assumir, pendura uma placa
logo.”
“Nós, góticos, somos seres incompreendidos, essa é a grande verdade”, declarou
ele, tentando dar um ar lúgubre à voz.
“Aham, sei... Você tirou isso de onde? De alguma música daquela banda
doida, Illusion Shadows? Na real,
aquele tal de Alexander Galvão não anda de roupa preta o tempo todo, sabia? E
se duvidar, ele nem é tão gótico assim. Você acha que ele faz passeio em
cemitério?”
“Milena, você não tá me respeitando”, irritou-se Sávio, ameaçando
sair de perto dela e, se fosse o caso, até de cortar relações por um tempo.
“Sávio, volta aqui!”, ela não pediu, ela ordenou.
Ele parou. O tom incisivo
empregado por ela fora muito convincente.
“Desculpa ter demorado tanto, mas... Acho que enfim já sei como te
ajudar”.
Sávio sentiu vontade de sorrir.
No entanto, após ter se assumido como gótico, ele ainda se sentia confuso. “Um
gótico sorriria agora?”, ele pensou. Como não definisse uma reação imediata ao
que acabara de ouvir de Milena, somente assentiu com a cabeça.
Procuraram uma mesa um pouco mais
distante das outras na cantina do colégio. Sentaram-se de frente um para o
outro.
“Você trouxe algum material?”, perguntou ele.
“Material?”
“É, sei lá... As provas que vão me convencer a desgostar da Anna”.
“Cara, do que é que cê tá falando? Eu sou apenas uma estudante que tá
no ensino médio, não sou uma detetive de polícia. Essa fossa tá aniquilando com
a sua mente, Sávio. Tadinho de você!”
Ele admitia que ela estava certa
e que ele exagerou. Mas preferiu manter-se em silêncio.
“As provas estão aqui”, Milena apontou para a própria cabeça.
Nesse momento, ao longe, Anna
passou acompanhada de uma amiga, atraindo a atenção de Sávio, que tentava não
olhar para ela por mais de dez segundos.
“Você é ruim nisso”, disse Milena.
“Nisso o quê?”
“Em tentar disfarçar. Você olha pra ela, depois olha pra outro lugar, e
então torna a olhar pra ela. É como se você seguisse um procedimento pras
pessoas não perceberem que você ainda se importa. Mas eu tenho uma novidade,
Sávio: são as pessoas que não se importam. O seu namoro com a Anna terminou,
mas ao contrário do que você pensa, a vida aqui na escola continua seguindo.
Cada um cuidando dos seus próprios problemas. Em meio a tantas fofoquinhas,
quem tá com quem, quem largou quem, quem tirou nota baixa, quem tirou nota
alta... a sua história é apenas mais uma. Você não devia se preocupar com
isso”.
Anna sumiu de vista, deixando
Sávio com nada mais interessante em que repousar a vista.
“Ela pintou o cabelo de castanho”, observou Milena. “Não sei se eu teria coragem de mexer no meu
cabelo”.
“Ok, sabichona!”, ele pareceu menos resistente. “O que é que você tem pra me dizer?”
Milena se empertigou em seu
lugar, de modo a ficar com os braços apoiados sobre a mesa, encarando Sávio
diretamente nos olhos.
“Eu andei bisbilhotando aqui e ali, como quem não quer nada e... Parece
que a Anna tá saindo com um cara mais velho, que tem carrão e tal”.
“É mesmo?”, a voz de Sávio saiu fraca, e só agora ele notava que
talvez não estivesse tão pronto assim para ouvir o que Milena tinha para
contar. E o coração acelerado como se ele tivesse acabado de correr uma
maratona.
“Sim, pelo visto esse cara é um quarentão. Acho que ele deve ter
dinheiro”.
“Como você descobriu isso?”
“Algumas pessoas falam demais, Sávio. Você só precisa escutar os
falantes certos”.
“Mas você tem certeza?”
“Bom, essa certeza nós poderemos ter hoje, no fim da aula”.
“Nós?”
“Sim. Porque, segundo a minha fonte, esse coroa que provavelmente é o
novo namorado da Anna vem buscá-la na escola hoje.”
“O quê?”
Sávio não sabia qual informação o
estrangulava mais. Essa história só conseguia piorar. Então Anna, sua Anna, não passava de uma interesseirazinha
que trocava um namoro sério por um relacionamento com um homem mais velho, só
porque esse tal homem tinha grana e um bom carro?
Ele também apoiou os braços sobre
a mesa, só que de forma a cobrir parte do rosto. Estava processando tudo aquilo.
Porém, para não se precipitar e deixar crescer o ressentimento, Sávio decidiu
esperar.
Quando o fim da aula daquele dia
veio, Sávio conseguiu chegar antes da ex-namorada no pátio da entrada da
escola, discretamente posicionado de forma que estivesse confortável para ver
todos que chegassem para buscar os alunos. E, alguns minutos depois, ele
presenciou: um automóvel do qual ele não identificou a marca, mas era um desses
modelos bem pomposos com carroceria, preto e imponente, lustroso. Tudo o que
Sávio jamais poderia dar para sua amada Anna Munhoz, pelo menos não até que se
passassem vários anos e ele tivesse condições de bancar tal luxo. Ao que
parecia, Anna não teria paciência suficiente para esperar Sávio alcançar
aquilo.
Sávio estava se sentindo um
grande panaca. Uma criança que acreditasse em Papai Noel e coelho da páscoa não
era mais ingênua do que ele, que creu piamente no poder do amor. Ali, parado
atrás da grade da escola, ele tremia só de relembrar dos pensamentos tolos que
tinha quando estava com Anna. Ele a amando com todas as energias, e ela
tramando por suas costas, indo em busca de “algo melhor”. Trouxa!
Antes de fechar a porta do carro,
Anna olhou em direção à escola, e seu olhar cruzou com o de Sávio. Ele
aproveitou essa oportunidade e tentou transmitir o mais claramente possível uma
mensagem através de seus olhos enciumados e revoltados. Com o olhar, Sávio a
xingou, provavelmente com aquela palavra chula que começa com “P” e seus
derivados. Quanto ao olhar de Anna, permaneceu intraduzível. E o carro partiu.
E Sávio ficou se sentindo como o asfalto por onde as rodas acabaram de passar:
usado, subjugado e com buracos (pois a rua da escola, sejamos sinceros, não era
das melhores...).
“Acho que você já teve sua prova”, disse Milena, surgindo atrás
dele.
Ele se virou para a amiga, mas
sem dizer qualquer coisa.
“Agora, só um pouquinho mais de tempo, e o seu coração vai se conformar
que era melhor assim”.
“E então vou me desapaixonar?”, ele mais parecia estar implorando
do que simplesmente fazendo uma pergunta.
“É o que esperamos”.
Outubro de 2002
Uma visita inesperadíssima de
Anna à casa de Milena aconteceu, próximo à hora do jantar. Milena achou
estranho, é claro, porque como alguém que colaborara com o bem-estar de um
amigo, ela tinha dado o caso por encerrado. Na verdade, Anna passara a ser
praticamente invisível. Com Sávio começando a mudar o comportamento e voltando
a ter mais foco nos estudos e estando mais aberto, apesar de ainda sustentar que
era gótico, Milena considerava que seu feito havia sido muito bem-sucedido.
Então, o que Anna queria com ela
agora que as coisas estavam retornando aos eixos?
“Tá a fim de entrar?”, Milena convidou, muito mais por educação,
torcendo para que Anna recusasse.
Vendo que havia uma varanda
propícia para um bom papo, Anna aceitou. Milena esqueceu que as pessoas podiam
ver suas expressões faciais, e não disfarçou que esperava uma resposta
contrária ao seu convite. Fez uma careta de chateação impossível de ser confundida.
Contudo, Anna estava muito determinada a ir em frente com o que quer que
tivesse ido fazer ali, então procurou não se deixar levar.
“Olha, Milena, eu sei que você e o Sávio são muito amigos e a essa
altura você já deve estar sabendo de tudo que aconteceu”.
“Sim, eu sei tudinho”.
“Mas você e eu também fomos muito amigas. Assim que você chegou no
Santo Cristo, em 99, lembra?”
“Lembro”.
“Você conhece nós dois”.
“Conheço”, Milena estava ficando impaciente com a enrolação.
“Sabe, Milena, eu não mudei tanto desde que a gente se conheceu. Claro,
a gente se separou um pouco quando chegou no ensino médio, não estudamos mais
na mesma turma... E eu comecei a namorar o Sávio...”
“Aham...”
“E agora eu preciso da sua ajuda. Em nome da nossa amizade,
principalmente de 99”.
“Ajuda?”
“É. Ajuda.”
“Anna, antes que você diga mais alguma coisa, eu já vou logo adiantando
que eu não gostei nada do que você fez com o meu amigo. Ninguém merece isso que
você fez com ele. Mas ele tá se recuperando. Então, o cara já sofreu um bocado.
O que é que você quer agora?”
“Eu quero contar a verdade sobre o fim do nosso namoro”.
“Pra mim?! Por que não foi atrás dele?”
“Eu não tenho coragem”, confessou Anna. “O Sávio com certeza não quer me ver nem pintada de ouro”.
“Hum, mas ele acaba tendo que ver, né? Todo dia na escola. E nem é
pintada de ouro”.
“Enfim, eu vim te procurar porque eu sei que ele te ouve, você é a
melhor amiga dele. Quem sabe se você for lá e contar a verdade que vai ouvir de
mim... A gente até volte a namorar”.
“Você tá falando sério?”
“Ué, claro!”, Anna reagiu como se Milena a tivesse ofendido. “Eu ainda gosto do Sávio”.
Milena continuou se empenhando em
não disfarçar o que pensava daquela situação. Dava para notar que ela não
estava comprando aquela história.
“Bom, eu fiz aquilo porque aconteceu uma coisa horrível. E eu fiquei
confusa e com vergonha de mim mesma. Por isso quis o melhor pro Sávio”.
“Anna, você tá abusando da minha paciência. Você traiu o Sávio com um
cara que deve ter idade pra ser seu pai, e ainda por cima fez sexo com esse
cara. Olha, por mim, você faz o que quiser com a sua vida, mas não pode querer
que eu escute que você quis o melhor pro Sávio e continue numa boa. Por favor,
vá embora”.
“Só me escuta, Milena. Por favor! Deixe eu terminar a história”.
Milena cruzou os braços e fez um
ligeiro sinal com a cabeça, dando a Anna mais uma chance para ela continuar.
Sua vontade real, na verdade, era escorraçá-la dali com um cabo de vassoura.
“Acontece que o meu irmão mais velho tem uns... problemas com...
drogas”, iniciou Anna, evidentemente envergonhada. “E tem uns caras atrás dele, e ele poderia até ser morto por causa
disso. Mas aí ele me fez um pedido. No princípio eu não quis aceitar, é lógico,
mas depois fiquei com medo pela vida do meu irmão. O cara pra quem ele tava
devendo queria sair comigo por seis meses”.
Era uma narrativa pesada. Milena
resolveu dedicar mais atenção. Prevendo os próximos detalhes, até mesmo se
sentia enojada.
“E o tal coroa que você viu comigo... Bem... Era o tal homem pra quem
meu irmão tava devendo dinheiro. E uma das exigências dele foi não apenas...
sair comigo. Ele exigiu outras coisas”.
Milena estava arrepiada. E Anna
começava a chorar.
“Eu fui abusada, Milena. Fui obrigada a transar com aquele... desgraçado.
Só pra salvar o meu irmão. E o pior foi que...”, suas lágrimas aumentaram e
ela começou a soluçar, suas palavras saíam mal pronunciadas, e Milena até podia
ver que ela engoliu algumas lágrimas que escorriam.
“O pior”, Anna prosseguiu, mesmo ainda chorando, “foi que, numa das vezes, ele me obrigou a
fazer com ele e mais dois homens...”
“Cala a boca”, pediu Milena, horrorizada.
“Eu não queria me sentir suja perto do Sávio, Milena. Então eu tive que
mentir pra ele, porque seria mais fácil pra mim se ele apenas me odiasse em vez
de envolver ele nessa confusão”.
“Cala a droga da sua boca!”
“Milena, não fala assim...”
“Eu não acredito em você, Anna. Isso é tudo mentira. Tudo mentira”.
“Pelo amor de Deus, você acha que eu contaria uma história tão séria se
não fosse verdade? Você me conhece!!”
“Eu?? Eu andava com você quando a gente tinha treze anos, Anna. E você
sempre deixou bem claro que queria se “dar bem” na vida. E, pelo jeito, enrolou
o Sávio enquanto não aparecia ninguém “melhor”, mas aí foi só aparecer o coroa
granado e foi lá se entregar, pra garantir. O que aconteceu, Anna? Ele te deu
um fora? Por isso veio aqui pra ver se recuperava o antigo namorado, usando a
amiga dele pra fazer a ponte? Você pode até enganar o Sávio, minha filha, mas a
mim não”.
“Eu fui praticamente estuprada, Milena, e em vez de me apoiar você me
acusa de ter inventado tudo?! Eu estou completamente quebrada por dentro e você...”
Anna fez uma pausa para analisar
o rosto de Milena, que a princípio havia sido impactada pela história, mas
agora não demonstrava qualquer comoção. Anna entendeu que insistir seria em
vão. Milena apenas esperava o momento em que ela encerrasse e desse o fora de
sua casa.
“Eu não sou essa menina fútil que você pensa, Milena. Mas eu já entendi
qual é o problema aqui. Você quer ficar com o Sávio, né? Você falou que tinha
se desapaixonado por ele, mas tô vendo que você mentiu. É por isso que não tá
aceitando a verdade que eu vim te contar”.
“Você tá errada”, Milena se opôs, de um jeito bastante firme. “Eu aprendi a amar o Sávio como se fosse meu
irmão. E, se essa sua história for realmente verdadeira, não é problema meu se
você não foi sincera pra ir atrás dele e abrir o jogo. Não é problema meu se
você perdeu sua oportunidade de dividir o problema com um namorado que te
amava. Não foi você que ficou aturando a nuvem negra em cima da cabeça dele.
Não foi você que se desdobrou pra ajudá-lo a voltar a seguir uma vida normal. E
agora você vem até aqui, na minha casa, com um saco de arrependimentos nas
costas. Mas é isso que os arrependimentos fazem, Anna: eles fazem a gente se
atrasar. Então, se você mesma não for atrás do Sávio e contar essa sua
historinha de irmã salvadora, não sou eu que vou. Eu sou responsável pelo Sávio
que apareceu depois de você.”
Encarando-a com incredulidade e
uma mágoa do peso de um elefante, Anna fez menção de ir embora. Enquanto
atravessava a varanda em direção ao portão, virou-se para a colega de escola e
disse:
“Você poderia ajudar um casal a ser feliz, Milena. Você poderia fazer
algo em nome do amor”.
“Acho que eu sou melhor no negócio do desamor”, debochou Milena. “E um conselho, Anna: deixa o Sávio em paz.
Se você gosta dele como diz, não bagunça a cabeça dele”.
Anna não havia parado de chorar
desde que começara, e não era agora que ia parar. Não quis responder ao que
Milena disse por último, preferiu partir e, se possível, nunca mais precisar
lhe dirigir a palavra.
Novembro de 2015
“E então a Milena te desencorajou totalmente?”, Ivan concluiu,
estampando um sorriso malicioso.
“Não, não foi exatamente isso”, disse Anna. “Mas eu fiquei tão frustrada com a reação dela que resolvi desistir do
Sávio. Ela meio que me convenceu ao dizer que eu ia bagunçar a cabeça dele. E,
tendo o irmão que eu tinha, fiquei com medo de mais cedo ou mais tarde
acontecer aquilo de novo”.
Ivan avaliava a amiga, maquinando
coisas na mente.
“Minha cara Anna, vai ficar feliz por eu já ter a solução pra você
reconquistar o Sávio”.
“Sério?”, animou-se ela. “Meu
relato ajudou tanto assim?”
“O seu relato não só ajudou, meu bem. O seu relato será a sua arma”.
“Não sei se tô entendendo, Ivan”.
Ivan apanhou algumas canetinhas
hidrocor sobre sua mesa, e passou a desorganizá-las e rearrumá-las,
repetidamente, enquanto explicava:
“Aquilo que a Milena não quis fazer por você, e você teve medo de fazer
sozinha, será muito útil agora. Eu vou marcar um encontro entre você e o Sávio
e você vai contar a verdade pra ela. Toda a verdade.”
“Ah, não, pelo amor de Deus!”, Anna sentia asco só de se lembrar do
quão amarga era a verdade. “Eu não
consigo encarar aquilo de novo. Trazer de volta essa parte da minha vida. Não,
Ivan!”
“Mas você não quer ficar com o Sávio? Não pediu minha ajuda? Então, eu
tô te ajudando”.
“Mas não assim, né? Eu tenho trauma do que aconteceu. No fim das
contas, o meu irmão acabou morrendo do mesmo jeito. Não, Ivan, não me faz ter de
reviver tudo isso outra vez. Por favor!”
“Anna”, Ivan abandonou o que estava fazendo com as canetinhas e a
encarou de semelhante modo ao que Milena a encarou na varanda de sua casa, “se você quer ficar mesmo com o Sávio e
recuperar a história que vocês tiveram, essa é a única forma. Não tem outra
saída. Você vai ter que mexer nos esqueletos do passado sim! Faça isso do jeito
certo e o coração dele vai ser tocado, eu tenho certeza”.
“Do jeito certo?”
“Sim, Anna. Contando toda a verdade”.
“Sim, eu já entendi”.
Ivan deu uma breve gargalhada,
recostando-se em sua cadeira giratória. Como se ele tivesse mais algum trunfo.
“Não, você vai terminar de entender agora. Quando eu digo ‘toda a
verdade’, eu estou incluindo os detalhes que você sabe sobre a Milena e o que
ela fez com o Sávio. Essas coisas que ele não sabe sobre ela. Por exemplo, aquela
bobagem de ela ter feito amizade com ele só pra usá-lo pra provar que podia se
desapaixonar de quem quisesse. E pode deixar comigo, eu inicio os preparativos.
Vou começando a plantar na cabeça dele que a amizade deles é frágil. E depois,
quando ele estiver com você, conte tudo. E não economize em dizer que foi tudo
culpa sua, que você era jovem demais, que você só quis poupá-lo etc. Com a
confiança na Milena abalada, o Sávio vai precisar de outra mulher em quem se
apoiar. E quem será a pessoa mais adequada no momento? Deixe-me ver: alguém com
quem ele já teve um relacionamento, do qual nunca esqueceu. Alguém que não tem
medo de relembrar um passado tão machucado só para provar que o ama tanto.
Alguém que está na minha frente, neste exato momento”.
De repente, a intragável ideia de
revisitar o que aconteceu há treze anos começava a ganhar tons mais iluminados.
O que era dor ia se dissolvendo, dando espaço a uma possibilidade que
desabrochava como uma rosa e alegrava um ambiente outrora asqueroso.
“Você... Você realmente acha que pode dar certo?”
“Minha certeza quanto a isso é cristalina, Anna. Cristalina”.
“Sabe, Ivan”, disse Anna, rendendo-se a um largo sorriso. “Acho que eu posso fazer isso. Aliás, eu vou fazer isso. E sabe o que mais? Eu vou
conseguir o que eu quero”.
E foi assim que Ivan Castro se
provou a melhor opção a qual Anna poderia ter recorrido. Com o incentivo e a
visão única que ele tinha, Anna estava preparada para ir resgatar aquilo que
lhe foi negado por Milena. E o mais saboroso nisso: desta vez não precisava do
intermédio da amiga de Sávio, nem de ninguém. Ia reconquistá-lo sozinha...
...O que, agora todos sabem, acabou
de fato acontecendo. A estratégia fora infalível.
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