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18 de novembro de 2011

crônica: OS SEIS AMIGOS

Eles eram seis amigos. Estudaram da quinta série até o fim do ensino médio. Viveram juntos as mais diversas experiências, choraram, riram, se esborracharam, sofreram, brigaram, aprenderam... Até que, pelas circunstâncias naturais do curso da vida, foram se separando, perdendo contato, a amizade foi ficando como uma âncora naquele espaço gostoso da memória. E, ainda mais natural, foi que um deles bateu as botas. Apenas o mais próximo do falecido ficou sabendo, através de uma atualização da irmã deste, via Twitter. Condoído, Osmar então arranjou um terno elegante e se preparou para ir ao enterro do amado amigo. O morto era o Jorge, o mais tímido dos seis, mas era o que melhor jogava baralho. As lembranças foram se expandindo, então Osmar estava recordando não apenas de Jorge e sua habilidade para as cartas, mas dos outros quatro. Quantos momentos memoráveis!! 
Osmar pegou um táxi, indagou ao motorista se conhecia o endereço do cemitério. O motorista assentiu com a cabeça e ficou encarando Osmar pelo espelhinho. Osmar começou a suspeitar que o taxista fosse gay, mas logo se pegou encarando-o com a mesma fixação. Ambos sacaram na mesma hora que se conheciam. Ora, o taxista era Carlos, o que era o mais mulherengo dos seis amigos. Depois da descoberta incrível, Osmar dividiu a notícia da morte de Jorge. Carlos sentiu um aperto no peito, falou para Osmar que nem ia cobrar a corrida, pois estava a fim de prestar essa última homenagem ao caríssimo Jorge.
Carlos parou num posto de gasolina para comprar cigarros, pois saber de repente da morte de um antigo amigo o deixou muito tenso. Estava havendo um assalto numa loja ali perto e o bandido cruzou o caminho de Carlos enquanto corria. O taxista, então, quis dar uma de heroi e correu atrás do ladrão, prometendo para Osmar que voltaria logo. Carlos alcançou o ladrão, caiu sobre uma calçada junto com ele e já ia lhe encher de sopapos quando reconheceu uma cicatriz familiar em seu pescoço. Não era possível. Era o inconfundível Arnaldo, o mais baixinho dos seis amigos, o que vivia sofrendo bullying porque tinha língua presa e tinha uma cicatriz por ter levado um corte de faca num assalto uma vez. Que circunstância mais bizarra!! Com o problema da língua presa ainda muito forte, Arnaldo pediu desculpas morrendo de vergonha para Carlos. Em alguns minutos, Arnaldo estava no táxi com Carlos e Osmar. Acabava de saber da morte repentina de Jorge. Lamentou não ter perdoado Jorge no dia da festinha de encerramento do ensino médio, por conta de uma briguinha envolvendo uma garota. 
No caminho para o cemitério, os 3 amigos no carro foram rindo e trocando recordações. Carlos tocou no som do táxi umas músicas típicas daquela época. Quem diria... Estavam se unindo novamente para o enterro de um deles. Era curiosamente sinistro. Ou sinistramente curioso. 
Finalmente chegaram ao cemitério. Havia um número considerável de pessoas, todas realmente lamentando a perda do viciado em canastra. Carlos discretamente "deixou cair" alguns cartões de propaganda de seu táxi, vai que alguém pudesse precisar depois... Osmar preferiu não ficar muito perto dos outros dois, pois sempre foi o mais arrumadinho; Carlos era um humilde taxista e Arnaldo estava ainda sujo da queda que rolou durante a perseguição minutos antes.
Uma mulher loiríssima, chiquérrima e alta estava em prantos bem audíveis, se lamurinando por ter perdido o "homem mais maravilhoso da face da terra". O padre começou a fazer os ritos da cerimônia, até que Carlos, Osmar e Arnaldo perceberam, ao mesmo tempo, que o sacerdote era ninguém menos que Edgar. Mas logo o Edgar, que era ateu convicto e vivia zombando de imagens de santos católicos?? Aquele dia estava extremamente absurdo. Edgar acenou com ternura e lágrimas nos olhos para os outros três. Estavam ali cinco reunidos, sendo um deles encaixotado e pronto para ser coberto pela terra. Mas faltava o sexto elemento: Charles. 
Acabou o enterro, os quatro amigos foram tomar uma cerveja (Edgar optou por um suco natural, essa vida mundana morreu antes de Jorge). Relembraram mais algumas coisas, lamentaram que a corrente de coincidências não tenha colocado Charles no caminho deles. Como será que o sexto elemento estava vivendo a vida? Ele era o que dava conselhos amorosos, o que ouvia os desabafos, o que dançava quadrilha na escola... Foi uma pena não terem esbarrado com o saudoso Charles. Despediram-se e resolveram manter contato dali em diante.
Mas... Coitado deles... Nem tiveram tempo de descobrir que Charles esteve entre eles durante todo o enterro. Só estava um pouco diferente do habitual. Charles agora era Charlotte, seus cabelos eram loiros e muito provavelmente iria amargar longos dias de depressão por ter perdido o grande amor de sua vida...

5 comentários:

Priscila disse...

Surpreendente, amigo Marvin ;D

Andreza Gil disse...

Amigos que precisavam do encontro da vida.

Mensagem Efêmera disse...

Tô passada! :O
Sem palavras, fiquei sem reação.

Cássia C. Monteiro disse...

a casualidade e a dor da perda avivando boas lembranças e "reaproximando" antigas amizades.
é de uma beleza que dispensa comentários, querido.

Pr.Luizneto disse...

Por um momento espera que o charles fosse um dos coveiros. Muito bom a leitura.